Rio de Janeiro, 10 de março de 2016.

Sebastian, meu amigo onda,

 

Quando você me conheceu eu ainda não me conhecia.

 

Eu era mais uma imagem que um corpo. Uma mulher de estatura baixa, formas volumosas e bem definidas, cabelos longos pretos, calça jeans, blusa regata colada ao corpo, sandália de dedo. Eu era uma imagem bem comportada e uma dúvida permanente: a quem pertence o meu corpo?

 

Tínhamos acabado de entrar no mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes na UFF, estávamos na fila do bandejão quando iniciamos uma conversa. Lembro-me perfeitamente do quão bem eu me senti ao seu lado. Você não me viu imagem, você me viu palavra, conversa, silêncio, risada. Você não me julgou como um adulto, você me olhou como criança. Ao menos foi o que ao seu lado eu senti.

 

Depois entendi, ao te olhar nos olhos, que você não era bem um homem, era sim um homem, mas só pela metade, porque a outra metade era onda.