Rio de Janeiro, 14 de março de 2016.

Meu amigo,

Ontem foi dia de manifestação.

Em Copacabana, muita gente nas ruas exibindo cartazes e proferindo discursos contra o atual governo. Desde que a nossa presidenta Dilma assumiu seu segundo mandato, esta foi a manifestação mais expressiva contra o seu direito de permanecer governando. A vontade de mudança é o que mobiliza as pessoas à rua, mas o que vemos neste momento é que a ânsia por mudança, sem a devida consciência e consistência dos fatos, acaba por produzir e reproduzir discursos de ódio, preconceito e intolerância (amplamente fomentados por uma mídia sensacionalista e parcial), dificultando toda e qualquer conversa. “Queremos o impeachment da presidenta Dilma“, “queremos ver o ex-presidente Lula na cadeia”, “Brasil não é Venezuela” era o que muito se escutava nas ruas. Enquanto a manifestação acontecia, eu, meu grupo de teatro, o Inominável, e mais 20 pessoas (dentre artistas, estudantes e professores) estávamos numa sala dentro do Centro Cultural Justiça Federal, na Cinelândia, conversando sobre política, teatro, performance, resistência e sonhos. Estávamos naquele espaço, por conta de uma das ações propostas pela companhia, com um único intuito: nos perguntar sobre aquilo que queríamos que a arte e a política fossem. Neste tenebroso momento político que estamos passando, estar naquela sala, reunidos em roda, era como cuidar da nossa capacidade de sonhar. Uma garota não conteve o choro ao dizer que seus pais participavam, naquele momento, da marcha verde e amarela. Ela chorava a distância intransponível que os separava. Ela também chorava o amor incondicional que os unia. Outra garota também falou sobre família, sobre distância e amor, sobre imagens fabricadas, corpo e resistência; disse ter nascido no estado do Pará e sobre como esse fato influenciava as suas escolhas e seus modos de estar e agir no mundo. Ela falou também sobre o sonho que a levou ao Rio de Janeiro, o sonho de ser atriz, e também sobre outro sonho que agora a tomava por completo: o de ter o direito sobre o seu próprio corpo.   

 

Enquanto escutava essas garotas falarem, o meu corpo tremia e transpirava ao mesmo tempo, tudo isso ao mesmo tempo. Tive que sair da sala, caminhar um pouco e só pude voltar ao reconhecer que estava tudo bem, que era assim mesmo, que meu corpo respondia com violência contida a beleza de se ver também presente naquelas meninas. Nossas histórias de vida se cruzavam, elas, assim como eu, nasceram de família branca, classe média, educação muito calcada em valores burgueses, pensamentos machistas, racistas, sexistas, elas, assim como eu, formadas e moldadas por um tipo de educação que não as autorizava a estar ali, mas ali nós estávamos.

 

Uma vez você me disse, meu amigo, que eu não precisava dar tanta importância a minha biografia, que eu poderia ultrapassá-la e abrir caminhos mais consistentes em torno da vida que se renovava através da arte que eu criava para mim. Mas, meu amigo, como não falar dela, como não me expressar com e através da minha biografia quando foi ela a me ensinar a desejar e a amar? Quando é ela – ainda hoje – a me render, a me silenciar, a me agredir, mas também a me abraçar?

 

Tenho agora que fazer um esforço para me lembrar de você e não esquecer de mim. Lembrar de você para não esquecer que uma pessoa não é feita só de discursos, paixões, atos, desejos, mas também de areia, água salgada, suspiro, vento. Não esquecer de mim mesma para lembrar que a imagem que hoje me rende pode ser reescrita, desde que eu tenha consciência sobre aquilo que ela esconde e que a sustenta. Encarar a Figura que veste meu corpo não como quem acredita que ela seja ponto final, mas como parte de um processo ainda e sempre em movimento.

 

“A questão é primeiro a do corpo”, nos dizem nossa dupla de amigos Gilles Deleuze e Félix Guattari: “o corpo que nos roubam para fabricar organismos oponíveis. Ora é à menina primeiro, que se rouba esse corpo: pare de se comportar assim, você não é mais uma menininha, você não é um moleque, etc. É à menina primeiro, que se rouba seu devir para impor-lhe uma história, ou uma pré-história.” [1]

À primeira vista, parece um tanto quanto exagerado isso de roubo de corpo e imposição de uma história, não? Mas veja você que a “menina” retratada pelos nossos amigos, conversa diretamente com o meu corpo. Me reconheço inteiramente ali: nos atos de fala, na normatização do comportamento e nas investidas contra o livre expressar do corpo de menina.

 

E logo depois é a vez do menino ter o seu corpo roubado:

 

“A vez do menino vem em seguida, mas é lhe mostrando o exemplo da menina, indicando-lhe a menina como objeto de seu desejo, que fabricamos para ele, por sua vez, um organismo oposto, uma história dominante. A menina é a primeira vítima, mas ela deve servir também de exemplo e cilada.” [2]

 

Para nossos amigos, uma forma de escapar a essa cilada em que menino e menina são fabricados como organismos opostos e, respectivamente, com papéis de dominante e dominado bem definidos, vem a ser produzir “em nós mesmos uma mulher molecular”, “criar a mulher molecular”, eles ponderam, sem que tal criação “seja o apanágio do homem, mas, ao contrário, que a mulher como entidade molar tem que devir-mulher, para que o homem também devenha mulher ou possa devir.” [3]

 

Guattari em breves palavras nos explica a diferença entre a ordem molar e a molecular: “a ordem molar corresponde às estratificações que delimitam objetos, sujeitos, representações e seus sistemas de referência. A ordem molecular, ao contrário, é a dos fluxos, dos devires, das transições de fases, das intensidades.” [4]  

 

E se o homem deve criar para si a “mulher molecular” e não o homem molecular, se ele deve devir-mulher e não devir-homem, é justamente porque é à menina que primeiro roubam seu corpo, sua história, seu devir e por isso, dizem nossa dupla de amigos: “todos os devires começam e passam pelo devir-mulher. É a chave dos outros devires.” [5]

Talvez o programa performativo FIGURAÇA tenha sido até hoje o modo mais próximo que encontrei para criar em meu corpo a “mulher molecular”, para entrar em ressonância com sua política molecular e do devir.

 

Você se lembra quando eu criei a performance? Se lembra do que eu disse? Era setembro de 2014, eu caminhava do bairro de Ipanema ao bairro de Botafogo quando disse para mim mesma:

 

“Vou me vestir dessas pessoas que por mim passam. Com o meu celular vou fotografá-las sem que elas vejam, vou escolher as partes que quero de cada um, juntar essas partes, criar a composição fotográfica de um novo corpo feito de pedaços de corpos alheios e vou me vestir dessa composição durante um mês inteiro. Este programa vai durar um ano, eu terei um mês para fazer as fotografias, montar a composição fotográfica e depois um mês para me vestir dessa composição em meu cotidiano. A cada dois meses uma nova FIGURAÇA surgirá. Vou fazer isso porque quero abalar a rigidez com que encaro a mim mesma, quero desarticular meu modo de vida pequeno burguês, quero me misturar nesses corpos do cotidiano, nesse ordinário que me pertence e experimentar ser algo diferente do que sou. Quero me perder de mim mesma, me perder inteiramente e me reencontrar quem sabe, em outros corpos, por que não? Quero criar Figuras, Figuraças feitas do acaso do encontro, feitas do que nunca gostaria de ser, feitas da mistura do meu preconceito com a minha vaidade. Figuraças que me forcem a ver outra face do mundo, que me apresentem uma outra possibilidade para mim mesma. E como nem tudo é destruição, quero me colar um pouco mais aos meus anseios e ver nascer um corpo feito do múltiplo, da mistura de gêneros, do borrar de fronteiras, do cruzamento das identidades.”  

 

Viver o Programa Performativo FIGURAÇA de outubro de 2014 a setembro de 2015, me vestindo e me (tra)vestindo, me figurando e me (des)figurando de diferentes corpos, me colocou em contato não só com a política molecular da qual fala Deleuze e Guattari, a política do devir, como me colocou em confronto, a todo o momento, com a “entidade molar” que me faz corpo e nossos amigos sabem disso: “é certamente indispensável que as mulheres levem a cabo uma política molar, em função de uma conquista que elas operam de seu próprio organismo, de sua própria história, de sua própria subjetividade.” [6] Mas, também não deixam de nos alertar que quando nós, mulheres (nós, “meninas”), nos afirmamos como sujeitos de enunciação, há o perigo de nos colarmos a esse sujeito de tal modo que acabamos por “secar uma fonte ou parar um fluxo.” [7] , e esse secar da fonte e estancamento de fluxo seria fruto de uma política molar que tenderia a perpetuar binarismos. É um perigo, alertam os nossos amigos, e eu fico atenta.

 

Para não cair nas armadilhas das máquinas duais, “é preciso portanto, conceber uma política feminina molecular, que se insinua nos afrontamentos molares e passa por baixo, ou através.” [8]

 

Assim, em torno da política feminina, podemos considerar que de um lado temos uma “política molar” aquela que delimita, categoriza, reivindica a existência de um sujeito do feminino e quer garantir os direitos ao próprio corpo; do outro temos uma “política feminina molecular”, que é a política do devir, devir-mulher, tal “como átomos de feminilidade capazes de percorrer e de impregnar todo um campo social, e de contaminar os homens, de domá-los num devir. Partículas muito suaves, mas também duras e obstinadas, irredutíveis, indomáveis.” [9] Acredito que FIGURAÇA desliza entre estas duas políticas. FIGURAÇA quer fazer uso da história que foi imposta ao meu corpo para não só reescrevê-la, reencená-la como também, ultrapassá-la. É lidando com o que sou e o que me é, é não negando a história que foi criada para o meu corpo, que abro caminhos para os fluxos e as intensidades que me fazem devir-mulher: “a partir das formas que se tem, do sujeito que se é, dos órgãos que se possui, ou das funções que se preenche, extrair partículas, entre as quais instauramos relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão, as mais próximas daquilo que estamos em vias de devir, e através das quais devimos.” [10]

Ao mesmo tempo em que FIGURAÇA me permitiu fugir dos dualismos, binarismos, sexismos, disponibilizando meu corpo para a criação de zonas de indiscernibilidade e indeterminação de sexo, gênero, classe econômica e social e também para a criação de vias de escape aos processos normatizadores do corpo, tornou evidente algo que me escapava, que até então eu não compreendia: a força das máquinas duais e dos atos de fala atuando em meu corpo, controlando seus impulsos, impondo-lhe gestos, comportamentos e modos de vida.

 

E foi menos contra os modos de vida impostos e fabricados e mais para com eles compor, que me fiz FIGURAÇA, para através do ato de compor corpos alheios em meu próprio corpo “fazer fugir, como quando se arrebenta um cano ou um abcesso. Fazer passar fluxos, sob os códigos sociais que os querem canalizar, barrar.” [11]

 

Não interromper o fluxo, deslizar entre, fugir aos binarismos, aos códigos normatizadores, aos mecanismos de controle, cavar uma linha de fuga... É nessa direção que FIGURAÇA se alinha (ou se desalinha), ainda que não elimine as “entidades molares” e os mecanismos de fabricação de corpo e de uma história para este corpo. Se em FIGURAÇA me visto de corpos alheios, não é para imitá-los, nem para possuí-los, não é para representá-los, nem para esgotá-los, mas sim para me encontrar e me perder através deles, para me fazer existir por meio deles. Não é sobre “fazer de conta” é sobre fazer fugir e “fazer devir, uma vizinhança, uma indiscernibilidade.”  [12]

Nossos amigos dizem que devir não tem seu fim no devir-mulher e sim no devir-imperceptível. E como devir-imperceptível? Eles respondem: “diríamos primeiro, ser como todo mundo.” [13]

Uma vez li em um muro pixado, próximo ao apartamento em que morei no bairro de Botafogo, a seguinte pergunta: como é ser como todo mundo? Tirei uma foto e a postei no blog de FIGURAÇA no dia 27 de janeiro de 2015, com a seguinte reflexão:

“Como é ser como todo mundo? Vi essa frase pixada no muro da minha rua. Gostei dela. Achei grande, grandiosa... mas quanto a isso não vejo problema, não me importa que ela seja maior que o possível, não me importa que ela não dê conta do que é possível dar conta, importa que ela me faz refletir, me faz pensar e indagar: o que seria e como seria ser como todo mundo? E por que ser como todo mundo? Isso é bom ou ruim? Eu não tenho respostas para estas perguntas, mas tenho FIGURAÇA e de alguma forma FIGURAÇA me aproxima dessa questão:

 

Como é ser como todo mundo?

FIGURAÇA talvez responderia: sendo um pouco de cada um. Sendo um pedaço, um pedacinho do que cada um é e de como cada um se coloca diante do outro, com o pé na rua e o olhar para o mundo.

Ser como todo mundo talvez seja ser um pedacinho da senhora dos cabelos crespos e de faixa preta na cabeça; um pedacinho da mulher com o braço direito tatuado e pulseiras de couro, um outro pedacinho do garoto de boné vermelho; um pedacinho do homem com anéis de brilhante nos dedos; um pedacinho da criança das unhas pintadas de azul e rosa e todos esses pedacinhos juntos formam uma constelação de pessoas que em FIGURAÇA me habitam e em mim vivem.” [14]

Para Deleuze e Guattari “ser como todo mundo” é “fazer do mundo um devir, é fazer mundo, é fazer um mundo, mundos, isto é, encontrar suas vizinhanças e suas zonas de indiscernibilidade.” [15]

Hoje, após ter percorrido os caminhos que FIGURAÇA destinou a mim, volto àquele nosso primeiro encontro na UFF e percebo que, ao contrário do que eu imaginara, você me via sim como imagem, mas não como imagem pronta, formatada, encaixotada, imagem que se encerra e se esgota em si mesma. Aos seus olhos, você me via imagem (como é do seu costume), no ir e vir das ondas, no borrar das fronteiras, deslizando entre. Imagem em vias de encontrar suas zonas de indiscernibilidade e de fazer do mundo um devir.

Com amor,

sua sempre,

Figuraça.

 
 
 
 
 

notas

 

[1] - DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol. 4. São Paulo: Editora 34, 2012, p.72.

[2] - IDEM, idem: idem.

[3] - IDEM, idem: p.71.

[4] - GUATTARI, Félix e SUELY, Rolnik. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011, p. 386.

[5] - DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol. 4. São Paulo: Editora 34, 2012, p.74.

[6] - IDEM, idem: p.71.

[7] - IDEM, idem: idem.

[8] - IDEM, idem: p.72.

[9] - IDEM, idem: idem.

[10] - IDEM, idem: p.67.

[11] - DELEUZE, Gilles. Conversações (1972-1990). São Paulo: Ed. 34, 1992, p. 30.

[12] - DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol. 4. São Paulo: Editora 34, 2012, p.76.

[13] - IDEM, idem: idem.

[14]http://performancefiguraca.blogspot.com.br/2015/01/como-e-ser-como-todo-mundo.html

[15] - DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol. 4. São Paulo: Editora 34, 2012, p.77.