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Albert Cossery ou Uma palavra para o dia chegar ao fim

Ricardo Cabaça

(cont.)

5.

Não nasci aqui, aqui, neste país.

Vim de um outro continente, de África. Do seu norte.

Sei que em tempos todos os continentes estavam ligados, o europeu ao asiático, o africano ao americano, muito antes da escravatura ter levado milhões de negros africanos para o seu outro continente.

Eram continentes ligados geograficamente e é demasiado bizarro pensar na separação da terra.

Que vontade extrema rasgou um continente ao meio e deixou este no paraíso e o outro no inferno?

Sim, sou africano e vim aqui a primeira vez durante a segunda guerra mundial.

Era um jovem soldado egípcio, voluntário na marinha. Não queria saber de guerra nem de matar, aliás, nunca peguei numa arma, o meu desejo era viajar e conhecer o mundo. Ver a guerra de perto por me sentir invencível, naquela idade nada

me poderia matar.

Os torpedos nazis eram como mosquitos, infestavam o mar com o seu silvo invisível.

Enfim, fiz a travessia sem ser atingido. Trouxe mercadoria e judeus perseguidos.

Uns ficaram aqui, outros foram para o Brasil e Argentina e outros ainda, para os Estados Unidos.

Eu queria ter ficado logo aqui, soube imediatamente que nesta praia teria o meu ócio.

As pessoas sorriam.

Escarneciam.

Eram profundamente irônicas e isso alimentava a minha vida.

Estivemos aqui onze dias. O tempo para a mercadoria ser descarregada, as pessoas registadas e a manutenção completa ao nosso navio ficar terminada. Pedi férias,

abdicando do meu insignificante salário de soldado.

Durante esse tempo todo juro que não saí da praia, fiquei aqui a olhar o mar, a beber chá e a fumar haxixe. Cedo fiz amigos que me traziam comidas e bebidas típicas daqui. Disse-lhes que não queria sair da praia. Não fizeram perguntas.

Traziam-me também amigas que cheiravam como flores exóticas, a pele macia que refletia o mar e o cabelo que eram pontes para o meu continente. Apaixonei-me por todas e o mais curioso é que nunca foi preciso conversar.

Eu não falava português e aqui não sabiam árabe. O francês não era também uma língua muito usada por estes lados.

Deixamos de lado a convenção da língua.

Enquanto estive sozinho nesta praia pensei sobre a guerra, o mundo, baseei a minha reflexão na filosofia que li em casa dos meus pais. Foi o tempo que decidiu por mim. Como podia não escarnecer da Humanidade que vive para derrotar, humilhar e matar? O ócio tornou-me lúcido e ao fim de onze dias ri satiricamente do mundo.

Embarquei para o Egipto.

Estive no Cairo até ao fim da guerra.

Despedi-me dos meus pais e irmãos, empacotei algumas roupas e livros e voltei para cá, com a certeza de nunca mais abandonar esta praia.

Os amigos que havia feito lembravam-se de mim, riam todo o tempo da minha forma de falar.

Riam porque não acreditavam que alguma vez eu me mudasse definitivamente para esta praia.

E voltei a encontrar as amigas com quem nunca conversei.

 

(Entra uma morna, sensual e ao mesmo tempo, dengosa. O ator dança um pouco como se abraçasse outra pessoa na dança. Pára de dançar e traz a cadeira para mais perto do público e senta-se.)

6.

 

Os meus primeiros tempos aqui foram magníficos, cinematográficos.

As pessoas que conhecia eram marginais.

Pequenos ladrões, burlões inocentes, artistas, prostitutas e anarquistas.

Eu não nada era disso, bom, não era tudo isso, mas gostava de todos eles. Eu não era um criminoso, no entanto, fui vigiado desde o primeiro dia por escolher como companheiras momentâneas prostitutas, era olhado com desconfiança. Além do mais era um estrangeiro do pós-guerra.

Enfim, o humor nem sempre chega à polícia.

Desde o início que escrever aqui era uma ideia fechada e inalterada. E cedo comecei a trabalhar no meu próximo romance.

 

(Levanta-se, afasta-se um pouco e acende um cigarro. Anda de um lado para o outro, muito calmamente.)

 

Entenda-se, comecei a pensar sobre o meu primeiro romance. Escrevi-o seis anos depois e publiquei-o mais tarde numa pequena editora. Da minha querida Cairo, Al Qahira, a vitoriosa, trazia as memórias e os meus marginais, os fumadores de haxixe, as crianças pobres,

os conspiradores

as meretrizes

os mandriões.

Todos os dias andava à volta desta praia, precisava de me alimentar de vida, de suor, cores, histórias, intrigas, amor. Queria viver ao máximo tudo aquilo que estava destinado para mim.

Como é fácil de imaginar, um polícia menos engenhoso e dado à vida, viu em mim um perigoso conspirador,

um espião enviado pelo rei egípcio para espiar este país.

Segundo esse polícia, eu queria derrubar o ditador e trazer para aqui o modelo egípcio de governação. Para ser franco, eu nem sabia quem era o ditador até esse polícia me falar dele.

Imaginem, eu a trabalhar para o rei egípcio.

 

(Senta-se na areia.)

 

Não podia perder a oportunidade

disse-me que só precisava de provas para me pôr na prisão,

alimentei a sua desconfiança, disse que sim a tudo, confessei, até inventei nomes de conspiradores

inventei à pressa um nome para a operação, Os mandriões do vale fértil

e mais tarde dei este título a um romance.

O polícia parece ter acreditado em tudo aquilo que disse.

Obriguei-o a vigiar-me nos sítios mais marginais da cidade

caminhava pelas ruas de forma desconfiada, sussurrava à sua passagem, falava ao ouvido dos meus amigos.

Passava pequenos papéis para as mãos de outras pessoas. Pequenos papéis de frases que recusava para os meus romances! Pequenos rascunhos de conspirações

e revoluções.

O polícia tentava subornar os meus amigos para me traírem, mas todos eles estavam interessados na vida

e não na ambição de terem umas notas no bolso por trabalharem para o governo.

Qualquer trabalho que se tenha, por mais ínfimo que seja, é uma traição a alguém.

O polícia insistia sozinho na sua desconfiança, acreditava que seria condecorado e promovido, acreditava que assim seria mais respeitado e feliz numa sociedade sem vida.

Insignificante ambição.

Ele não sabia que cada insígnia ou condecoração na farda era um sorriso apagado no seu coração.

Como ria quando contava aos meus companheiros a minha história

e como os meus companheiros riam,

riam em forma de música.

 

(Levanta-se. Canta um refrão da música.)

 

Começaram a fazer músicas que rapidamente se espalharam pela cidade

todas as pessoas felizes da cidade sabiam as canções de cor e sempre que o polícia passava

 

soltavam um refrão e dançavam desenfreadamente.

E claro, a canção chegou aos ouvidos do polícia.

Ainda assim, insistiu na ideia de conspiração e juntou os meus pequenos papéis e viu neles mensagens codificadas,

passava horas nos cafés a solucionar os enigmas, para ele quando aparecia torre era o palácio governamental, ou quando lia a palavra amante isso significava arma. Enfim, o polícia continuava a sua investigação e por pouco não se tornou numa personagem de um romance policial.

O chefe dele foi obrigado a insultá-lo e a humilhá-lo em praça pública, perante todos, claro, eu e os meus amigos assistimos a tudo. Aquela palhaçada tinha de terminar. O chefe obrigou-o a pedir desculpas e eu, em retribuição, pedi-lhe gentilmente que pagasse uma rodada a todos os meus amigos.

 

Pobre coitado,

 

foi escarnecido pela polícia inteira, pela cidade, por mim.

 

Mas tem bom coração, apenas não somos amigos, ele é a autoridade,

 

é uma questão de princípios, nunca ter por amigo o alvo do teu escárnio.

 

Como ele próprio não se leva assim tão a sério, é costume ainda hoje encontrá-lo nos bares a contar essa história a polícias novatos.

 

Foi assim que acabou a minha história de conspiração. Desde então faço parte do imaginário local.

 

(Desliga o rádio do jornalista. Pousa-o na cadeira e fica a olhar para o sítio onde supostamente está a casa. No fundo é projetado um vídeo de uma praia a meio da tarde.)

 

7.

 

Esta é a minha casa, a verdadeira, não aquela que ali está.

Abomino de certa forma a ideia de casa, não me consigo sentir confortável entre paredes, é uma prisão para onde entramos livremente. E as memórias.

No Cairo vivi numa casa muito famosa, tinha lá um atelier para eu escrever os meus romances e levar para lá as mulheres que ia conhecendo. A casa não era famosa nem pelos meus romances nem pelas mulheres, a sua reputação era de morte.

Chamávamos àquele prédio a casa da morte certa. Era uma espelunca assassina que de vez em quando fazia questão de ruir uma parte, um teto ou uma parede cheia de fissuras. Quem lá vivia era pobre, miserável, sem condições de procurar uma outra casa. Para mim era indiferente, como disse, na juventude pensava-me invencível.

Era uma casa cheia de ruídos, paredes que lascavam, ruíam sem aviso. Mais uma morte anunciada baixinho, os vizinhos tinham medo que os gritos fizessem ruir definitivamente o prédio. A miséria não conta para estatísticas e os pobres não escolhem políticos, por isso ninguém se incomodava em fazer obras.

Nos dias de calor - e no Cairo faz calor todos os dias - ninguém se podia encostar ao prédio para ficar à sombra ou descansar, todos receavam que isso fosse a morte de alguém.

E no meu atelier eu continuava a escrever sobre toda esta miséria, temendo que chegasse  o dia em que uma frase ficasse interrompida a meio. O meu corpo debaixo de um teto era uma imagem que me aterrorizava.

Por isso prefiro o conforto de não estar entre paredes, aqui posso rir e escarnecer bem alto que ninguém morrerá por isso. Esta liberdade é a certeza de poder escrever sempre até ao fim, hesitando apenas se escrevo mais uma palavra e depois o dia chega ao fim.

Agora vivo na praia da vida certa e sou feliz por isso.

 

(Pausa.)

 

Às vezes lembro-me do meu pai.

Do silêncio do meu pai.

Desde criança fui educado e preparado para o ócio e antes de perceber o que era isso, ficava a observar o meu pai sentado numa cadeira ou no chão. Não conseguia entender a razão de ficar assim durante horas.

Ao princípio perguntava-lhe, até que comecei a sentar-me com ele.

Olhava sobretudo os olhos, os olhos para mim eram muito importantes, eram, de certa forma, a luz do seu pensamento. Percebia claramente quando atingia uma ideia que era do seu agrado. E o brilho nos olhos aumentava. O meu pai ensinou-me a pensar sem nunca me ter imposto qualquer ideia, ensinou-me desta forma poética e silenciosa.

Nunca lhe perguntei sobre o que pensava, isso era completamente insignificante. Ele tinha os seus pensamentos e eu preparava-me para ter os meus.

Foi assim que comecei a pensar o mundo e a construir a minha própria realidade.

Escolhi os meus amigos pelo amor à vida que demonstravam e pelo riso. Os risos estridentes nas esplanadas atraiam-me, sabia que ali encontrava alguém que amava a vida como eu.

Foi assim no Egipto e aqui, nesta praia maravilhosa.

No Cairo os meus amigos mais queridos eram os mendigos, apesar da miséria sempre tinham um sorriso para quem passava, uma história para contar. E não sorriam por uma Piastra, sorriam porque essa era a sua natureza.

 

 

(Senta-se na areia e fica largos momentos a observar o público, detalhadamente.)

 

Os mendigos de qualquer país são os maiores observadores da sociedade.

Há muito que perceberam que o mundo não passa de uma ilusão tremenda e que as pessoas são impostoras. Todos querem enganar o outro para conseguir os seus objetivos. E muitas vezes o objetivo é apenas dinheiro.

Sentam-se, observam as pessoas e o seu caráter, é essa a especialidade de quem não tem um horário para cumprir. A sua liberdade é a própria vida.

Respeito os mais idosos porque já viveram demasiado e muitos dos mendigos são velhos. Sabem coisas que já têm milhares de anos.

E a minha liberdade era ter por amigos aqueles que nada possuíam. Os meus pais, como é óbvio, incentivavam que aqueles fossem os meus amigos, não existia qualquer obrigação de ter amigos ricos, religiosos ou economistas.

Conseguem imaginar uma criança de doze anos sentada no passeio ao lado de mendigos?

Eles escarneciam de tudo, o governo era uma anedota constante, a polícia uma farda que tinha dentro um homem ridículo e ambicioso. Aprendi o escárnio com eles.

A primeira vez que escarneci de alguém foi precisamente de um polícia. Olhou para mim, era dia de mercado naquela parte da cidade, estranhou ver-me com aqueles pedintes. No Cairo não é assim tão estranho, por isso ninguém olhava a não ser aquela farda ambiciosa de medalhas.

Aproximou-se e ficou alguns momentos a ouvir o que dizíamos, penso que tenha entendido muito pouco da conversa, mas terá percebido que eu era uma criança diferente, educada e com estudos. Tudo aquilo que eu dizia tinha aprendido com o silêncio do meu pai ou com o riso dos meus amigos miseráveis.

 

(Levanta-se e caminha dentro da areia, mais perto do público.)

 

Talvez tenha pensado que fosse filho de algum industrial e que ao conduzir-me a casa o meu pai lhe desse uma recompensa bem generosa. O meu pai industrial! O meu pai tem horror ao trabalho e felizmente passou-me todos esses genes.

O polícia, depois de ver que eu não me levantava e que continuava a conversar, tirou o bastão do cinto e ameaçou os meus amigos, acusou-os de rapto, prometeu-lhes a prisão.

Todos ríamos. O polícia desconcertado pela nossa sinfonia, cada vez mais estúpido, obrigava-me a voltar para casa. Disse que não, que estava entre amigos.

Ele suava que nem um porco, os olhos cada vez mais atrapalhados, cerrados para não se humilhar mais. Ajeitou a farda, fechou todos os botões, embora estivéssemos debaixo de 45 graus de calor insuportável. Disse o seu nome em voz bem alta e pediu-me para avisar o meu pai de quem me tinha ajudado, tudo isto enquanto me passava para a mão duas Piastras.

Levantei-me e afastei a mão dele com as duas moedas. Disse-lhe que as guardasse para si, que lhe faziam mais falta a ele que a mim. E ainda lhe disse Excelência, tem as botas cheias de pó, use essas moedas para ficar apresentável.

Rimos durante umas duas horas, a expressão do pobre coitado, vermelho e suado, sem saber o que dizer, com raiva e humilhado por uma criança de doze anos. Guardou o bastão no cinto, esfregou as botas na parte de trás das calças e foi embora.

 

(Ri desmesuradamente enquanto se vira de costas para o público, como se estivesse a ver o polícia a afastar-se. Quando se vira o público ainda ri)

 

Ainda lhe gritamos que tinha levado dois pontapés nas pernas. E rimos. E rimos. E rimos.

 

(Acende um cigarro e pega no gravador do jornalista. Começa a falar para o gravador enquanto fuma pausadamente.)

 

Trouxe para aqui o meu vício de me sentar nos passeios durante horas. Na verdade, sentei-me nos primeiros anos no chão da cidade para atrair até mim outros mendigos.

Há solidariedade e reconhecimento de que pertencemos à mesma casta.

Eu tinha casa, não era propriamente um desalojado, de vez em quando regressava a casa para passar a noite, mas com este calor delicioso, quem precisa de paredes para se abrigar?

© 2019 por Revista Ensaia

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