Albert Cossery ou Uma palavra para o dia chegar ao fim

Ricardo Cabaça

(cont.)

8.

Um dia, por pouco, a nossa querida harmonia quase se desmoronou.

Um velho mestre de mendigos trazia consigo uma fórmula revolucionária, algo que traria a riqueza e a cobiça para o meio dos pedintes,

a riqueza e a cobiça.

Várias testemunhas que se juntaram na esplanada do costume, ouviram-no dizer que era um novo sistema de pedir esmola, uma fórmula científica. Desde quando é que os mendigos precisam da ciência para expor a sua sinceridade?

Enfim, um alvoroço.

Não se falava de outra coisa:

mendigos revoltados,

outros mendigos curiosos com a novidade,

os turistas ansiosos por uma estratégia que não os ofendesse nem os importunasse,

os políticos esfregavam as mãos com o crescimento do turismo, afinal de contas,

esta cidade teria uma nova cara.

Uma fórmula científica, diziam.

Chamaram-me, apressados, apenas eu entendia as palavras do velho mestre.

Pensei tratar-se de um estrangeiro, um francês ou inglês, por certo.

Porém, a questão estava no conteúdo das palavras e não na língua das mesmas. Era um velho armado em revolucionário.

Coube a mim a disputa.

Era um velho que vestia roupas gastas pelo sol e pela miséria,

um mendigo como todos os outros.

Mas era um mestre, percebi logo pelo olhar agudo, inteligente.

Fumámos haxixe juntos antes de conversarmos, é a minha maneira de conhecer os outros. Na minha terra os fumadores de haxixe são conhecidos como hassasin, mas de imediato vi o único assassínio, a introdução de um novo método de mendigar.

A psicologia é a forma de nos salvar da miséria, disse-me ele. De nos salvar, logo isso me causou arrepios.

Mas quem precisa de salvação? Nós estamos bem assim, este método é milenar, pratica-se há muito tempo e é eficaz.

Precisamos de pedir com ciência, precisamos que as pessoas se apiedem de nós. As pessoas estão cansadas de ver roupas imundas e sentir mau cheiro. A psicologia vai-nos salvar. Não li sobre isto, mas ouvi um homem com estudos falar sobre isso. Pratica-se em muitas capitais.

E como funciona esse milagre? Perguntei eu cheio de escárnio.

Através da psicologia apelamos à fraqueza das pessoas e elas, convencidas com a novidade, enchem-nos as mãos com moedas.

Aquilo de que falas, excelência, é trair aquilo que somos, é esconder a nossa natureza para ganhar algum dinheiro. Vês alguma diferença entre isso e trabalhar durante horas num bar, num restaurante ou escritório? Isso é um trabalho, é um esquema para nos iludirmos. Não podemos de maneira alguma mudar a nossa essência.

Um mendigo deve apresentar-se repugnante para apiedar a clientela. Disse ele e eu respondi que sim, mas não devemos enganar o cliente acerca da mercadoria.

No meu velho Cairo os mendigos são altivos porque acreditam naquilo que são.

Lembro-me de um professor universitário que se tornou mendigo porque percebeu que aquilo que ensinava não passava de vento, palavras sem matéria.

Ou Nur el Dine que desistiu de ser polícia porque finalmente viu que os verdadeiros ladrões estavam no poder, não eram as pessoas nem os mendigos os criminosos, mas quem estava no palácio a comandar o destino. Esses eram os verdadeiros ladrões.

Meu mestre, reflete sobre tudo isso, a nossa natureza não pode ser modificada.

O mestre pensou.

Fumamos mais uma vez.

Esqueceu a psicologia e ficou em silêncio a ver o pôr-do-sol.

 

9.

 

Estranhamente, encontrei aqui vícios que conhecia no Egipto.

Quer dizer, aqui os vícios eram completamente diferentes, mais radicais e devastadores.

 

Cheguei a duvidar que fosse verdade, tamanha realidade não deixava de ser um choque para mim. Era de facto uma verdade devastadora.

No Cairo fumávamos haxixe porque isso nos dava prazer, mas também lucidez e era por isso que alimentávamos a nossa paixão por fumar. Aqui vi episódios verdadeiramente sombrios.

Não quero parecer moralista com os outros, porém, aquilo que vi era vida?

 

Eles encontravam-se todas as tardes ou então passavam o tempo todos juntos, não importa, porque na verdade não sentiam o tempo passar, era uma interrupção de qualquer atividade, mesmo o pensamento era uma ficção criada pela droga. Não refletiam sobre nada e a morte refletia-se profundamente neles. Eram um casal em decomposição.

 

Ela ia ter com ele, fugindo da casa dos pais, subia as escadas a correr que davam até ao terraço e encontrava-o já com a agulha no braço. Talvez estivesse a dormir, ela não conseguia distinguir o êxtase do sono. Muitas vezes era ela própria que lhe tirava a seringa do braço e deitava pela janela o resto do sono do namorado.

Ela nunca se injetou. A droga era para ela uma espécie de mortificação.

Todas as tardes ela chegava e procurava qualquer coisa parecida com o amor, pele, uma carícia ou um beijo. Qualquer coisa diferente de um corpo inerte em cima de um colchão miserável. Ela procurava aquilo que não existia. Queria encontrar um corpo morno para fazer amor, ter carne e desejo ao seu dispor, porém, aquilo que estava na cama era uma coisa já fria e em transe.

A casa era dele, mas era a rapariga que esperava que ele acordasse, nunca a recebeu à porta, nem no primeiro dia.

Ele dormia ou morria, enquanto ela não podia fazer mais que esperar.

Ela estava cansada daquela decadência, queria uma coisa outra que lhe desse vida, uma outra realidade que ela própria desconhecia. Estava sempre pronta para falar, para finalmente dizer adeus.

Mas o corpo dele reagia e movia-se subtilmente, como se ouvisse antecipadamente tudo aquilo que ela tinha para dizer.

E ela só queria dizer adeus.

Adeus.

Adeus? Perguntou ele. Ela não sabia o que dizer e deixava-se estar mais um pouco ou muito menos do que julgava, porque cada dia naquele terraço era menos vida para ela.

 

Aquela rapariga era um corpo à deriva e o seu companheiro a âncora que um dia a prenderia às profundidades mais tenebrosas.

Um toque que ele permitia e era o suficiente para ela ficar o resto da noite, esquecendo por completo todo o passado e não pensando sequer no futuro.

E faziam amor descontroladamente, entregando-se em pleno ao ato. Ela sentia prazer e amor, para o rapaz, não mais que um interstício entre uma dose e outra.

 

(Pausa.)

 

Foi este vício que encontrei aqui que não compreendo, um verdadeiro inimigo do escárnio, como rir quando temos uma agulha espetada na veia? O haxixe já é um riso descontrolado, um portão para o pensamento.

Nunca mais soube do casal, talvez os corpos tenham naufragado nesta praia. Quem sabe?

 

(É projetado um vídeo da praia ao entardecer.)

 

 

 

10.

 

Vim para a vossa praia, o meu hotel.

Imagino que esta areia é o deserto que cerca a minha cidade natal, mas aqui cheira a mar e tudo se modifica.

No meu país temos os vestígios de uma grande civilização, um grandioso passado povoado por deuses, animais e o futuro. O Antigo Egipto que tanto faz sonhar e teorizar é o quotidiano de todos os egípcios que vivem em torno das pirâmides e outros monumentos onde jaz o passado da Humanidade.

Aqui também o vosso passado é heróico e na cidade vemos tudo isso, monumentos e mais monumentos que glorificam os antepassados.

No entanto, e espero que me perdoem, vocês sabem qual é a grande diferença entre os nossos povos? O escárnio. Sim, é verdade, não vale a pena recusar uma coisa que é muito vossa, vocês estão afundados num pessimismo gritante e nunca nada está bem. Ou perfeito, pelo menos.

No meu país temos a miséria absoluta, crianças e idosos que dormem nas ruas, fazem as suas refeições dentro dos caixotes do lixo, milhares de pedintes numa só cidade. Mas desafio-vos a perguntar se são infelizes ou desgostosos com a vida, todos dirão que não, excelência, a vida é muito mais que conforto ou luxo, a essência da vida é ser feliz e ter amigos, ser livre e não ceder a qualquer tipo de traição. Isso é a felicidade e como vês, na minha liberdade sou muito feliz.

No Cairo não há um pedinte que mostre um semblante triste, há sempre uma esperança que o dia de amanhã seja pelo menos igual ao de hoje. Assim é a vida lá, leve porque não há bens para carregar, livre para se escolher o caminho e o escárnio como solução para qualquer tentativa de opressão.

Aqui, no vosso país, ouvi muitas pessoas a lamentarem-se, dizendo-se miseráveis, pobres, sem nada que fosse realmente seu. E que importância tem isso, ter alguma coisa que seja realmente nossa? Nenhuma.

O fatalismo é uma navalha muito bem afiada.

Estou na mesma

vai-se andando

podia estar melhor

sempre foi assim

sempre será assim

estou mais ou menos

estou assim assim

que remédio.

E raramente ouço alguém dizer estou maravilhoso, estou ótimo, dificilmente podia estar melhor!

Não me interpretem mal, não estou a criticar nem a fazer escárnio do vosso povo, como podia, se vos amo e a este país maravilhoso?

Quero simplesmente que vocês sejam felizes e que aproveitem cada momento desta vida, apenas isso. Tudo o resto é material e na verdade, de maneira alguma podem levar as vossas jóias para o túmulo convosco. Quer dizer, podem, mas qual a utilidade dessa ação disparatada?

Na verdade, nunca desejei ter um belo carro ou qualquer outra coisa a não ser eu mesmo. Posso ir para a rua com as mãos nos bolsos e sinto-me um príncipe.

© 2019 por Revista Ensaia

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