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Albert Cossery ou Uma palavra para o dia chegar ao fim

Ricardo Cabaça

(cont.)

11.

Túmulo. Túmulo de Tutankhamon, Nefertiti, Ramsés, Seti, Amenhotep.

Túmulos de reis e rainhas do Antigo Egipto.

Felizmente nenhum é meu familiar, o poder repugna-me.

Estes reis e rainhas idealizaram a ideia de túmulo como uma espécie de continuação da vida, um outro ambiente onde viveriam. É essa a força do povo egípcio, a crença num dia seguinte melhor. No Antigo Egipto acreditava-se na reencarnação, daí a conservação do corpo.

De certa forma, o lugar do morto era um sinônimo de vida, mais cedo ou mais tarde o cadáver conservado ressuscitaria.

Os cemitérios no Egipto são lugares cheios de vida.

Por certo já ouviram falar na Cidade dos Mortos, um lugar fascinante e mais organizado que qualquer cidade construída por um governo.

Nesta cidade vive mais de um milhão de pessoas e acredite-se, todas estas pessoas convivem saudavelmente com a presença dos mortos. Um milhão de pessoas vive dentro de um cemitério do Cairo, um cemitério gigantesco com dez quilômetros.

É uma opção ter por vizinhos os vivos de outrora. Para um egípcio isso é a normalidade, não é uma aberração encostar a cabeça a um túmulo para adormecer. O respeito pelo morto não vem do choro ou do afastamento, o respeito está na utilização que se faz de um lugar tão imenso e ao mesmo tempo, pelo movimento que imprimem ao cemitério.

Não são apenas os miseráveis que vivem ali dentro, são famílias inteiras que se mudaram apenas por opção, por ser mais digno e por estarem mais longe de qualquer tipo de governação. Ali não há poder nem ideologia, senão a supremacia do ócio e do escárnio. As crianças frequentam as escolas do cemitério para desenvolver o pensamento e a reflexão, não se ensina nada que seja normativo ou fútil, os velhos mestres desenvolvem o ócio dentro das aulas como forma de Humanidade.

As crianças são felizes e cedo têm o conhecimento da importância do ócio para rejeitar qualquer tipo de poder.

Sei que organizam teatros de fantoches, concertos e espetáculos de saltimbancos, cobras hipnotizadas, faquires. Tudo aquilo que amedronta um governo.

É uma cidade dos mortos organizada por pessoas, apenas humanidade e pessoas.

A cidade dos mortos é mais ou menos assim: os primeiros ocuparam mausoléus e outras casas tumulares, estenderam um colchão no chão e nem se preocuparam em fechar a porta. Depois vieram outros que levantaram umas madeiras e fizeram disso a sua casa. Outros fizeram casas a partir do barro e assim nasceu e cresceu a cidade dos mortos.

Os familiares dos mortos estão felizes, como sempre, quando visitam os defuntos aproveitam para fumar um pouco e conversar com os vizinhos, põem a conversa em dia, escarnecem quem vive na parte nova da cidade.

Não há flores nos túmulos, há pessoas dentro deles e muitas outras que vivem em cima e à volta.

O silêncio é odioso e serve apenas para dormir ou refletir, mas isso faz-se sozinho, não há lugares de culto e de respeito através do silêncio. Na cidade dos mortos, onde estão enterradas milhares de pessoas, os risos ecoam por toda a parte e essa é a música que preenche aquela imensa necrópole. Aposto que até os mortos sorriem quando ouvem uma piada sobre um político corrupto.

A cidade dos mortos é talvez o lugar mais feliz do mundo porque simplesmente é real e existe contra todas as possibilidades. Namorados que se encontram atrás de um mausoléu ou uma bela mulher que engravida em cima de um túmulo recém-construído. A vida inicia-se sempre na morte de outra coisa qualquer e é isso que os jovens casais fazem. Há muito amor e felicidade naquela cidade.

Quem ama a vida acha-a magnífica qualquer que seja o lugar.

Por exemplo, vive naquele cemitério um homem chamado Safik, mais conhecido por homem-tronco e que vive das piastras que lhe dão. Quer dizer, ninguém vive apenas do dinheiro, Safik, embora não tenha pernas nem braços, é um dos homens que mais faz suspirar as mulheres na cama.

Do único membro que lhe resta sai a felicidade das mulheres que vivem na cidade dos mortos, é um fenômeno que dificilmente será verossímil, mas acreditem em mim, Safik é real e nenhuma mulher vive angustiada ao pé dele.

É sem dúvida alguma um dos homens mais cobiçados naquela cidade, é poderoso na cama e é uma fonte de piastras, por isso muitas mulheres lutam pelo amor ou atenção dele. E ele zomba de tudo isso e vai ficando com todas ao mesmo tempo.

Nenhuma é suficiente por isso escolhe a multidão de mulheres.

Tenho lá muitos amigos e alguns deles fazem parte do meu imaginário e dos livros que escrevi, eles também são o Egipto que trago comigo, mesmo estando muito longe dele. Dei-me sempre com pessoas que têm uma concepção original da vida, que não se deixam levar pelo que leem nos jornais, sabendo muito bem ler nas entrelinhas. Tais pessoas sãos felizes. E por elas, ainda sou mais feliz.

 

 

12.

 

Por vezes sinto-me confuso e completamente enleado naquilo que é a minha vida e as minhas obras.

Nem sempre tenho a certeza quanto à origem de certas histórias, escrevo-as pensando que estou a criar algo novo e mais tarde, apercebo-me que me limitei a narrar aquilo que ouvira de um amigo. É também a vida que tenho em mim.

Tudo se confunde porque não vivo de forma diferente da minha obra, acredito tanto na vida que tenho como nos livros que escrevi. Para mim têm o mesmo peso e importância.

 

Se um determinado livro não tiver sobre o leitor um tal impacto que no dia seguinte ele deixe de ir ao emprego, esse livro nada vale.

Esta é a ideologia que pratico em relação a mim, se a minha vida e os meus livros não tiverem impacto em mim, então a minha vida não vale nada e se não vale nada, mais vale então trair-me e sair à procura de um emprego.

Trair-me… sim, traí-me quando cometi a imprudência de me casar. Aqui, no vosso país. Casar-me foi um acontecimento semelhante à guerra, quis testar os meus limites vivenciando uma das experiências mais exigentes da sociedade. Não passou de um teste para mim, embora sentisse alguma ternura pela mulher em questão.

Era uma mulher linda que conheci na praia, pouco faladora, mas com ideias muito precisas. Gostava de estar com ela, deixava-me pensar em silêncio.

O prazer era o nosso bem comum e na verdade, passávamos largas horas a praticá-lo.

O nosso único bem comum.

Contudo, em qualquer lugar do mundo o amor é uma ocupação e isso é uma coisa nefasta porque obriga a horários e a responsabilidades. Pudéssemos apenas viver do prazer e todos os casamentos seriam para sempre.

A experiência precipitou-se para o fim quando essa bela mulher colocou na cabeça ideias opressoras e tenebrosas, começou a invejar outras mulheres que via nas ruas, as roupas, um marido que andava bem vestido e elegante. Queria uma vida igual às outras e sobretudo, poder exibir isso nas grandes avenidas da parte nova da cidade.

O seu plano era que eu arranjasse um trabalho para finalmente me tornar num homem digno, um homem desta sociedade capitalista. Um pesadelo, pensei eu.

Disse-lhe sem hesitação que não, não trabalharia num horário fixo nem entre paredes, jamais trairia a minha vida.

Insistiu, chorou, implorou.

Disse-lhe que não

e depois fiquei em silêncio até ela sair.

Como podia eu trabalhar para ser digno? Como podia eu trair os meus romances e as minhas personagens?

A bela mulher deve fazer parte de algum dos meus romances, uma informadora da polícia ou aquela que acredita que o trabalho é o único caminho para a felicidade porque com isso pode exibir joias.

O sexo era fenomenal, mas hoje sou livre.

Alguém presente me poderá criticar?

 

13.

 

Muitas vezes fui criticado ou pressionado pelas editoras para escrever mais rápido, mas nunca cedi e acabei sempre a rasgar contratos.

Dizem que a minha média de publicação é um romance de dez em dez anos,

nunca contei esse tempo, para mim é completamente indiferente.

Se não tenho nada a dizer, então não escrevo. Para quê encher páginas com frases para depois rever tudo aquilo que escrevi? É um trabalho inglório e eu não suporto a ideia de trabalho. Claro que podia escrever cada vez mais rápido, porém, isso seria a mais grave das traições.

Todos os meus livros são apenas o mesmo livro, estou sempre a escrever o mesmo livro, essa é a verdade. Nunca precisei de tomar notas para me lembrar de uma conversa

ou de uma pessoa, recordo tudo com clareza.

Sei que há escritores que escrevem por encomenda e só lhes posso apontar o dedo.

Escrevo dez páginas por dia

levanto-me às cinco da manhã

o meu ritual

fico doente se não escrevo

sou um funcionário da escrita, trabalho tantas horas como se estivesse num escritório.

Isto não é um escritor, é um funcionário que escreve para ganhar dinheiro.

Por vezes fico meses sem escrever e não me preocupo nada com isso. Levanto-me tarde sem nada pensado, simplesmente a liberdade de ter o dia todo para mim.

Cada um tem o seu método, é um facto, mas o maior método é nunca nos trairmos e escrevermos dentro do ritmo das palavras. Não é o editor que comanda o tempo, é a própria obra e se naquele dia ela não quer crescer, poderei eu forçar?

Falar também é escrever.

Posso tapar os olhos e falar alto, como se fosse apenas para mim e deixar de vos sentir, a vossa presença não é um incômodo. Talvez não seja um escritor como vocês pensam que um escritor é, alguém obcecado com a sua obra e que vive inteiramente para ela. Não me submeto a nenhum tipo de escravatura, não posso permitir viver em angústia porque naquele dia não escrevi. A minha única obsessão é a vida e a felicidade.

Escrevo quando tenho algo a dizer e ainda que seja sempre o mesmo livro, há uma originalidade que surge, então escrevo três frases e fico feliz. Nada mais.

Podia escrever como fazem muitos escritores, escrevem de encomenda e limitam-se a juntar palavras, podia fazer o mesmo, por exemplo,

Ela corria no passeio atrasada para o trabalho e ele, no passeio oposto, reparou nela. Atirou para o lixo o hambúrguer que comia e forçou o encontro. Quando estava em frente à mulher apenas disse olá e foi embora, não tinha mais nada para dizer. Ela continuou a correr.

Podia fazer isto, que interesse teria para o leitor? Para mim?

Escrevo conforme a minha vontade e nunca forcei uma única frase, sou contra a violência.

 

Entretanto aprendi a vossa bela língua e habituei-me a falar sempre em português. Pouco falo árabe e com muita vergonha admito que quase não sei a minha língua materna. Não falo nem leio árabe e aos poucos vou esquecendo a língua do meu país.

Acontece com toda a gente.

Porém, o meu pensamento será sempre oriental e é assim que escrevo os meus romances, pensando sempre em árabe. Todas as ideias são árabes, o prazer de viver, o escárnio e o ócio.

Por exemplo, no ocidente as palavras são mais superficiais e quando dizem bom dia, não existe nada nas entrelinhas, é apenas bom dia. No Egipto é diferente, uma saudação tem sempre algo mais que uma saudação, há algo mordaz por detrás de um cumprimento ou então, um respeito imenso.

Acontece-me por isso escrever em português e ter como pensamento toda a filosofia oriental.

Escrevo em português pensando em árabe,

escrevo em português traduzindo o pensamento para árabe. Que importa a língua? Escrevo, em última análise, em árabe.

Sou árabe e sempre serei.

A história do vosso país e da minha cultura é de guerra, sempre foi. Ou nós invadíamos ou vocês queriam destruir e evangelizar os nossos países.

Nós fizemos o mesmo.

Ninguém é culpado, somos todos vítimas do nosso passado comum.

Porém, essa troca ofereceu-nos uma cultura muito semelhante, por isso me é tão fácil escrever em português pensando em árabe.

Começo a achar que já falei demasiado, talvez seja hora de ficar sozinho.

 

 

 

14.

 

Tenho este rádio perto de mim e nem sei como aceitei dar esta entrevista.

Sinto-o como invasor e só assim consigo falar sobre mim. Os jornalistas procuram invariavelmente saber aquilo que é íntimo, as pessoas que amei, os meus medos, fracassos.

Imaginem, escrevo um livro de dez em dez anos, tenho os meus rituais, o meu ócio.

Que importância poderá ter a minha vida para um jornalista curioso?

Não sinto qualquer necessidade de me manifestar numa entrevista, possivelmente esta será a única que darei, talvez não volte a fazê-lo.

O jornalista queria estar aqui comigo, passar uns dias na minha casa, disse que seria interessante partilhar o meu quotidiano com os meus leitores.

Respondi-lhe que o meu quotidiano está nos meus livros.

Insistiu.

Disse-lhe que qualquer um dos meus leitores é bem-vindo para vir ao meu encontro.

Insistiu. Insistiu.

Não, foi aquilo que eu lhe disse.

Enviou este rádio pelo correio e pediu-me que falasse sobre mim e sobre a minha obra.

Talvez amanhã lhe mande a cassete com as minhas palavras.

E afinal de contas, mantenho a minha liberdade intacta, não traí ninguém nesta conversa.

Acho que o jornalista quer provar a si mesmo que o ócio é uma tarefa de preguiçosos, parece-me que é contra esta filosofia maravilhosa que sublima a Humanidade.

 

(É projetado um vídeo do pôr-do-sol na praia. Este vídeo ficará até ao fim, até que a noite cai. O ator fica alguns momentos em silêncio.)

 

Não sei por vocês, mas tenho a sensação que já falei demais.

Vou-me sentar para ver a lua e sentir esta areia.

Se algum de vocês quiser ficar por aqui pode fazê-lo, é bom ter alguma companhia.

Esta noite quero estar no Cairo, de volta aos meus marginais.

Ouvir o escárnio dito em árabe.

Esta noite quero voltar ao silêncio, esta noite, nem mais uma palavra.

 

Fim.

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