Ar ao vento

Ligia Soares

Nos meus trabalhos, onde as disciplinas da dança e do teatro entram normalmente em furiosa competição, às vezes começo por escrever para depois criar e encenar movimento, outras começo por criar movimentos ou acções, para finalmente escrever uma peça. 


Desta vez, comecei por sentar-me a escrever. 


E no desejo de este texto se vir a tornar uma peça de teatro, sentei-me à frente do computador como quem se senta à frente do público, e perturbada pela expectativa que essa ideia despoletou em mim escrevi:


Bom, eu suporto sentar-me aqui à vossa frente, mas isso deve-se à minha enorme capacidade de abstracção (...).
 

Este projecto a solo procura assim anular a representação, no sentido em que todos os acontecimentos em palco são consequências reais de um processo alimentado por uma relação de expectativas. E a expectativa em si, não esperando nada em concrecto, revela-se no entanto um pugente impulsionador de discurso. 

Ligia Soares é  coreógrafa e dramaturga portuguesa. Começou o seu trabalho como atriz na Companhia de Teatro Sensurround em 1997. Criou desde 2001 mais de 20 peças , de sua autoria a solo ou em colaboração. Seu trabalho tem sido apresentado nacional e internacionalmente, estando presente em vários programas internacionais de dança contemporânea. Foi artista 

residente da TanzFabrik-Berlin de 2004 a 2006, e em 2008 integrou o programa internacional DanceWeb em Viena. Juntamente com a sua irmã Andresa Soares, é diretora artística da Máquina Agradável (Lisboa), através da qual produz os seus trabalhos. Tem concebido e promovido vários eventos de programação e difusão artística, como “Celebração”; "Culturgest" (2012); “Demimonde na Galeria da Boavista” (2013); “Meio-Mundo Estrada Fora” - Lisboa/Porto/Madrid/Paris (2014); "Face a Face", Brasília, Rio de Janeiro (2015, 2016). Uma de suas últimas peças, “Romance” (2015),  foi editada pela Douda Correria. É, neste momento, membro do laboratório de escrita para teatro do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Em cinema, trabalhou com os realizadores João César Monteiro, João Nicolau, entre outros.

Ar ao vento

Bom, eu suporto sentar-me aqui à vossa frente, mas isso deve-se à minha enorme capacidade de abstracção. Por exemplo, eu aprendi na minha terra natal que, se sorrirmos, se aparentarmos uma figura agradável, não comprometida, as pessoas não irão notar a nossa presença. Deste modo podemos observar tudo o que quisermos sem criar qualquer tipo de tensão ou de estranheza.

Ao sentirmo-nos confortáveis, os outros irão também sentir-se confortáveis ao partilhar o espaço conosco.
Eu também aprendi que, enquanto observo, devo manter afastado qualquer pensamento que as pessoas possam eventualmente inspirar em mim: disseram-me que não é de bom tom ter pensamentos acerca de pessoas que não os solicitaram.

Assim, quando me sento à vossa frente, evito pensar sobre as vossas caras, sobre o quanto são mais velhos do que eu, ou bonitos, ou feios, ou se me são familiares, ou se por detrás dessas caras estarão pessoas mais felizes ou infelizes do que eu, se essas pessoas gostam das suas próprias caras ou se dariam tudo para trocar a sua por outra qualquer...

Não! Eu olho para vocês como um grupo de 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17... enfim, um grupo de umas tantas pessoas que cria no seu conjunto um particular agrupamento de cores de acordo com a diversidade das suas roupas, e evito com afinco imaginar como seria esta imagem se vocês estivessem, por exemplo, todos nus, em quantos diferentes tons de pele poderíamos...


Não! Deste modo não nos iríamos sentir à vontade.


Então, eu procuro olhar para vocês de um ponto de vista totalmente neutro, mesmo indiferente, do qual não tire qualquer outra ilacção para além da pura e imediata experiência visual que me foi proporcionada.


Eu própria aprendi também com o desenvolver das minhas capacidades de abstracção, que eu posso ouvir as pessoas, mas que não há realmente necessidade de ouvir o que é que elas estão a dizer, e que pelo menos deveria tentar evitar responder imediatamente.


Este é o modo que me permitirá continuar a ser vista como uma pessoa de mente livre e aberta.


Por isso, acontece-me muitas vezes, que ao sentar-me a olhar para vocês, eu começo a imaginar o que é que vocês estarão a pensar... eu sei que não deveria fazer isso, eu sei que me deveria manter em aberto, entrar numa espécie meditação ou transe, mas vocês sabem como é que funciona a cabeça de uma pessoa quando está sem fazer nada... E tenho a certeza que vocês sentem exactamente da mesma maneira:


Nós estamos aqui a olhar uns para os outros, sem fazer ou dizer alguma coisa significativa, mas sempre vamos tendo os nossos pensamentos.


Por exemplo, eu tenho a certeza de que vocês já têm uma ideia de mim como eu já tenho de vocês, devo confessar...

Nós passámos até agora mais de 5 minutos juntos e se eu continuasse a falar durante muito mais tempo, tenho a certeza de que alguns de vocês sentiriam o impulso de fazer alguma coisa, agora que não sabemos realmente o que esperar uns dos outros... Mas se eu continuar a falar durante mais alguns minutos alguns de vocês pensarão mesmo em sair, pelo menos irão com certeza deixar de me prestar atenção, provavelmente alguns de vocês já repararam que eu não tenho muita coisa a dizer e devo dizer que eu também já considerei a vossa desilusão.

Na verdade, neste preciso momento eu gostaria desesperadamente de ter tido alguma coisa para vos dizer e lamento um pouco não ter vivido um melhor tempo com vocês... Não tão vazio, um pouco mais intenso... Sim, eu acho que nós podíamos ter aproveitado melhor estes últimos 10 minutos.

Silêncio.


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Como? Nao sei


Também não faço a mínima ideia de como aproveitar melhor os próximos 10 minutos, mas sei que ficar aqui sentada vai criar a todos uma certa ansiedade.

Da minha parte não é com certeza por vocês estarem a olhar para mim. Oh, Não! “eu aprendi na minha terra natal que, se sorrirmos, se aparentarmos uma figura agradável, não comprometida, as pessoas não irão notar a nossa presença. Deste modo podemos observar tudo o que quisermos sem criar qualquer tipo de tensão ou de estranheza...”

Mas acho que já vos falei das minhas capacidades de abstracção e imagino que já tenham percebido aonde é que eu queria chegar com isso, e se não, é porque têm vocês mesmos uma alta capacidade de abstracção, o que eu não censuro, até apoio como devem imaginar, já que vamos ter de passar cerca de uma hora juntos e eu não aparento ter muitos meios para vos entreter.

Não, o facto de vocês estarem sentados a olhar para mim não me cria qualquer tipo de ansiedade, devo confessar... E isso não significa que não vos tenha na minha melhor consideração!


Mas para mim o ter pessoas em consideração, tal como outras coisas... Não me leva obrigatoriamente a algum tipo de compromisso, pelo menos assim, a curto prazo. Quem sabe se dentro de algum tempo passado juntos, anos ou meses, a minha consideração por vocês ganhasse um novo peso, um maior compromisso, alguma coisa que me levasse a agir... Quem sabe?

De qualquer modo não o vamos chegar a saber, daqui a cerca de 55 minutos estamos todos daqui para fora e não vai ser em menos de uma hora que mudamos o curso das nossas vidas.


E é melhor assim, sem compromissos. De outro modo como é que vos poderia estar a falar assim tão abertamente...

3

A partir deste momento tudo o que eu disser que mencione alguma coisa para além do facto de estar aqui sentada à vossa frente, considerem puro devaneio.

Não o faria para vos entreter, não, isso não. Posso não vos ter em pesada consideração mas tenho-vos um grande respeito, assim um respeito geral, mas mesmo assim profundo e honesto...


E eu nunca me levaria ao ponto de vos tentar entreter, endrominar, alhear, esquecer o tempo, envelhecer sem dar por nada, estar aqui por não ter nada melhor para fazer, esquecer as preocupações do dia-a-dia ou qualquer outra coisa do género... Isso nunca. Para isso então íamos fazer alguma coisa útil, que nos trouxesse algum reconhecimento ou dinheiro, não é assim que se diz?

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Esta sensação de sonolência deve-se unicamente ao facto de eu ainda não ter dado um único passo no sentido de vos estimular o pensamento, e assumo por ela total responsabilidade. Temo mesmo que quando algo verdadeiramente acontecer neste espectáculo vocês possam ter eventualmente adormecido, e que esse momento vos escape, como se escaparam tantos outros momentos.

Não! É preciso mantermo-nos atentos!


De qualquer modo, façam como conseguirem e de acordo com vocês mesmos.


É incrível como uma pessoa se desloca até um teatro para ouvir tais banalidades: de acordo com vocês mesmos, já agora, a vosso bel prazer, ou como o coração mandar ou mesmo como Deus quiser...

O continuar aqui sentada não revela, a partir deste momento, nada mais do que cobardia, do que um injustificável adiamento daquilo que urge, e levantar-me é, sem dúvida alguma, a única coisa a fazer.


O que me preocupa é o “porquê”, o “para quê”.

Estamos de acordo que nem sempre sabemos para que é que nos levantamos, mas normalmente não nos deixamos ficar deitados ou sentados, nunca por mais de um ou dois dias...


A posição sentada, principalmente num palco, é sempre o impasse para o levantar. Num palco um ou dois minutos sentado sem fazer nada podem ganhar uma dimensão insuportável. Por exemplo numa peça que demonstre ter algum tipo de dinâmica, o que não é o caso, dois minutos a mais pregado à cadeira podem arrasar todo o espectáculo... demasiado longo, diriam vocês. Demasiado longo, aquele momento da cadeira, ai aquela cadeira... se ao menos não houvessem cadeiras para a gente se sentar, já nos tínhamos todos ido embora à muito, devia ter ficado sentada na última fila ao canto...

Isto é principalmente penoso para vocês. Bem sei, não deve ser fácil, devem estar concerteza enfastiados com o meu discurso que se tornou tão claramente, nada mais do que uma hesitação, nao há nada pior do que hesitar, isso toda a gente sabe...

 


5

Mas se ainda vos restarem algumas forças, se ainda não tiverem baixado completamente os braços, talvez se comecem a peguntar:


O que é que será que ela vai fazer quando se levantar?

Como será que ela é?


Ah... Se ao menos soubéssemos de antemão o que é que se vai passar... Se viesse escrito no programa de sala, que após um longo tempo de espera a olhar para uma mulher sentada na cadeira qualquer coisa de maravilhoso viria a acontecer. Às vezes é assim: quando menos se espera... E nós queremos estar lá, não é verdade? Levar até ao fim os nossos investimentos, exigir algum retorno.


Será que quando ela se levantar se vai dirigir a nós e começar a falar? Será um longo e triste monólogo sobre a sua condição feminina?


Ou será que ela vai descalçar os sapatos e comecar a dançar? Será que ela sabe dançar? Ou talvez ela já tenha começado a dançar, através de pequenos passinhos devaixo da cadeira, e nós, à espera de um monólogo, nem nos apercebemos..


Se calhar apanhou-me distraído...


Se calhar ela não é mais do que uma assombração e quando estalar os dedos ela desaparece? Ou eu acordo?
Estarei a dormir? Será ela a imagem da minha própria morte?


Também não é preciso exagerar. Há que saber lidar com a imprevisibilidade do futuro com alguma propriedade. Hoje em dia já ninguém pensa na morte só por não saber o que é que se vai passar na próxima meia hora.


O mais provável é ela levantar-se e sair a direito por uma das pernas e nunca mais a tornamos a ver, talvez não fosse pior...


Ou melhor, será que vai preencher sozinha um espaço tão vasto? Será que vai conseguir?


Assim a gritar de braços em riste ao mesmo tempo que pratica pequenos passinhos alternados com grandes saltos? Assim como se atravessasse de um só fôlego todo o espaço? Como se voasse? Como um projéctil, ou um avião?


Oh... Quem me dera! Acreditem. Não vos conheço e não vos tenho por isso um especial afecto, mas se pudesse atravessar este palco de um só salto, acreditem que o faria. Não por mim, mas por esse salto se tornar para todos uma experiência memorável, um salto histórico! É isso que falta nesta peça, algo histórico... Que se perpetue em todo o curso das nossas vidas... Inesquecível!


Bom, não vamos pensar sobre isso que isso só vai antecipar as nossas desilusões, e por hoje já tivémos que chegue.


Por isso vou cumprir o prometido e levantar-me.... Uuup... Já está!


(Ela levanta-se.)

 


6
Viram? Foi muito mais interessante do que eu tinha imaginado inicialmente, e rápido!


Foi um súbito instante e... Pronto, estou de pé!


Se calhar, alguns de vocês nem repararam. Mas não se preocupem, agora, mais confiante, posso levantar-me todas as vezes que desejarem. Não é incrível?


Depois de tanto tempo já ninguém estava à espera que eu fosse realmente levantar-me e.... Ooops. Cá estou eu.

De pé. Já nem preciso da cadeira, pois não? Todos concordamos que estou melhor assim. De pé! De algum modo sentimo-nos todos muito mais preparados para a acção. Mais alerta.


Vêem? Como eu sempre disse e nisso estou certa, “por vezes as palavras não bastam”, e é verdade, sentiram a diferença? A diferença entre dizer que me vou levantar e realmente fazê-lo? Não há nada como a experiência, não concordam?

É por isso que eu gosto tanto do teatro, é porque é um lugar de acção, como acabámos justamente de confirmar.

 

Ah! Finalmente a narrativa!


Aquela porque tanto ansiámos enquanto estávamos sentados à espera. Está aqui!


Mesmo vocês se sentem mais presentes, não é verdade? Foi finalmente criada essa espécie de empatia, essa identificação que distingue um momento de sucesso de um momento falhado.

Agora também vocês estão mais despertos, assim como se a vossa atenção se tivesse levantado comigo e para o facto de eu estar aqui com vocês.


De certa forma vêem-me agora sobre uma nova perspectiva, uma nova dimensão. E maior, não é verdade? Quase que vos apetecia igualmente levantar. Não é? Levantarem-se, erguerem-se a vocês mesmos, assim elevarem-se dos vossos assentos, não é?

Mas não para ir embora. Apenas para experimentar este movimento totalmente liberto de qualquer intenção. Levantarem-se e, finalmente despertos para as grandes revelações que se escondem nos pequenos gestos, experienciarem este fenómeno que acabaram de testemunhar.

Bom, não nos vamos deter em divagações sobre um gesto tão insignificante. Muitas outras coisas estão concerteza para acontecer.


Agora, em pé, não posso mais voltar atrás, não há retorno. Ao pôr-me de pé incluí-me num novo espaço, muito maior, muito mais exigente. Um espaço que compete com as diminutas dimensões humanas.

Agora de pé podem finalmente confimar os meus limites, 1,78m por cerca de 2 palmos e meio de largura de ombros.


É uma luta ingrata... Esta do homem no espaço.


O espaço que inclui o homem será sempre muito maior do que ele, esmagador! Se assim não fosse, o homem deixaria concerteza de se parecer um homem, pelo menos tal como o conhecemos, e com uma mulher passa-se a mesma coisa.

Ah! Agora é que começa o verdadeiro teatro! Já me anunciei como um homem, e vocês perguntam-se, será que ela está a fazer de conta que é um homem ou estará a representar a humanidade em geral. É este homem um caso particular ou universal, perguntam-se vocês...

Vêem? Isto são questões que não surgem em qualquer lugar. Isto poderia ser já um ponto de partida.

 


7
Ao levantar esta questão devia conseguir quebrar estas amarras que me prendem a vocês, ao dizer que sou um homem estaríamos todos libertos do aspecto corriqueiro 
deste nosso primeiro contacto, estaria quebrado o laço que não permite o teatro acontecer.


A representação teria finalmente começado!


O vosso espaço é o vosso espaço, os vossos assentos. E o meu um outro, todo ele possibilidades, o espaço da representação!

Mas para que isso aconteça é absolutamente necessário esquecer que já nos conhecemos.


Sim, chegou o momento de nos separarmos, de nos votarmos ao silêncio. A solidão será absolutamente necessária. Pode ser uma solidão cooperativa, coordenada, podemos mesmo tentar sincronizar as diferentes solidões, mas tem de sem dúvida alguma ser solidão, ou então não acontece nada.

Se vocês por acaso não me tivessem deixado aqui a falar sozinha é certo que já teríamos chegado a algum breve acordo e estaríamos todos dispostos a ir para casa. Mas assim, é necessário recolher, virarmo-nos para dentro. Esta é uma exigência comum. Não sou só eu que o tenho de fazer. A solidão do espectador é para mim de igual importância. Não só porque acredito que ir ao teatro deveria ser como princípio uma necessidade de solidão em vez de um evento social, como porque estando aqui sozinha em palco, me posso tornar terrivelmente ciumenta.

Para mim tal como para vocês, mas nunca juntos, a minha proposta é irmos ao encontro de um imaginário próprio, interior.


Silêncio.

 


8

Na verdade, é certo que quando olho para vocês com um pouco mais atenção, me disperso, me desconcentro, talvez vocês representem para mim um excesso de realidade.


Talvez fosse melhor simplesmente apagar as luzes de público, ou parece-vos um truque demasiado fácil?

De qualquer modo, depois de me ter dado a conhecer enquanto estava aqui sentada, e mesmo apagando as luzes, não vai ser fácil partirmos do ponto zero - como se nada tivesse acontecido, com a mesma mística de um actor que entra pela primeira vez em cena.

Talvez não devesse falar tanto... É esta minha tendência para me justificar... Para pensar alto. Se tivesse começado logo, sem hesitar, sem esta longa introdução. Neste momento qualquer coisa que eu tente representar vai estar associada a esta mulher que passou mais de 10 minutos a dizer que não tinha medo de estar sentada à vossa frente e outros dez para se levantar... E agora isto... Não é terrível? Será tarde demais? Será que me detive demasiado tempo, a pensar, a explicar, a enunciar possibilidades, e agora, que estamos todos um pouco mais velhos, já não será com a mesma espontaneidade de outrora, a mesma inocência que nos vamos conseguir entregar às mágicas artes do teatro.

Mas não vale a pena chorar sobre leite derramado.

O melhor é sair e voltar a entrar, de qualquer modo a minha ausência terá decerto mais significado do que a minha presença.


Vou sair pela esquerda do palco, à minha direita portanto.

9

(Ela sai.)


Ah! Esqueci-me de trazer a cadeira comigo! Que lapso!


Agora vocês irão questionar se em vez de mim não terá sido a própria cadeira que esteve a olhar para vocês todo este tempo.


Não, isso nunca poderia ser, é apenas uma cadeira, uma peça de mobiliário, como poderia?


Mas por outro lado, ela representa, tal como eu, um lugar vazio.


Agora que ela está disponível à espera de ser ocupada, conseguem identificar as semelhanças?


Na verdade, como parte desta peça, ela não serve a uma função muito diferente da do actor.


É quase mais justo comovermo-nos com esta cadeira do que comigo, não vos parece? Ela, sim, é o elemento trágico desta peça!


Retida neste palco sem possibilidade de fuga, ela permanece sozinha e expectante perante dezenas de cadeiras, ocupadas, a cumprir o seu desígnio, completas, a testar a sua solidez de lugar. Abraçadas às vossas costas, a suportar alegremente o vosso peso, a apoiar-vos.


Esta ideia de exclusão poderia ser uma boa oportunidade para entrar em palco, resgatar a vossa atenção desta pobre cadeira e salvá-la da pressão das vossas expectativas!


Eu entro em palco.


(Ela entra em palco.)

 


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Eu cuspo no chão como sinal de desprezo, eu olho em frente para denunciar, eu baixo a cabeça como se me questionasse, eu olho suplicante como se pedisse perdão e, arrependida, vou-me embora.


Eu tropeço como se estivesse a andar, atiro-me para o chão e espero.


Levanto-me subitamente como se tivesse adormecido. Eu olho em volta como se não soubesse onde estou e deito-me de novo.


Nao é fácil aceitar a abnegação.


Eu espreguiço os meus braços como se estivesse no campo, eu afasto as moscas como se estivesse louca, mas estou apenas a aquecer as mãos.


Acho que me falta alguma coisa.


Eu inspiro o ar como se houvessem flores, está certamente a faltar-me alguma coisa. Deito-me a olhar para cima como se pudesse ver o céu, cubro-me como se houvesse vento.


Eu devo procurar alguma coisa.

Eu destapo-me e levanto-me como se fosse a meio da noite.


Começo a correr como se fosse urgente, dou passos vagos como se estivesse perdida, cambaleio como se tivesse bebido, apoio-me às paredes como se fosse cair, encosto-me a elas como a um peito e vivo um pequeno momento dramático.

 


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Isto afinal não teve grande significado e nenhum de nós há-de ir para casa a pensar nisto, mas podem crer que, desde de que aqui cheguei, foi o primeiro momento em que pude por vezes esquecer-me de vocês, não que vocês me incomodem como já expliquei. Também assumo que não descobri nenhuma porta de entrada, nenhum novo acesso ao meu interior ou alguma coisa do género.


Não, isso não foi definitivamente encontrado até agora.


Quem sabe mais tarde... Se tivesse continuado à procura, se tivesse continuado, quem sabe, um dia, ou quem sabe se não é apenas a procura que importa, e tudo o resto, o que realmente passa a acontecer, não serão sempre acções sem significado, ou que o perdem por acontecer, ou que acontecem simplesmente para alimentar esta necessidade de procura. Compreendem ?


Não, não digam nada, não digam que sim com a cabeça, ou acenem em concordância, baixem as mãos e fiquem sentados.


Esta é apenas uma pergunta retórica. Daquelas que pomos a nós próprios para nos propomos a alguma coisa.

 

Se respondermos, a questão morre, se concordármos, ela não chega sequer a nascer.


Não, hoje deixamos as questões comigo. As questões são por hoje os reféns deste espectáculo.


É melhor assim. Estou simplesmente a guardá-las para vos oferecer alguma coisa para assistir.


Nao é para concordar nem para discordar, é só para matar o tempo vadio. Enquanto nos perguntamos a nós próprios, não perguntamos por nós próprios... Não é verdade? Vocês têm de compreender que este direito que atribuo a mim própria de pisar um palco, requer que acredite que é por alguma razão em especial – por alguma maneira muito especial de me questionar.


Se um dia pensarem em fazer o mesmo, tomem a vossa vez e façam-no, eu compreendo perfeitamente, ou melhor não compreendo, tal como não me compreendo mim, mas aceito, ou não. Compreendem ? Não. Não tentem compreender.

 


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Eu não quero ser compreendida. Ser compreendida seria tornar-me parte, ser incluída num padrão.


Por favor não me incluam, não me integrem, não me retirem a minha necessidade de expressão, as minhas palavras, não me absorvam, não me assimilem, não me tolerem. Olhem para mim como se fosse um estranho. Compreendem?


Tudo bem, vamos presumir que vocês até me compreendem, não seria assim tao difícil. Então por favor não me aceitem.

Se conseguem compreender até a própria estranheza então não aceitem essa estranheza. Revoltem-se contra ela!


Ok. Rejeitem-me mas não tirem os olhos de mim, continuem a olhar, como uma coisa tão estranha que tende à abstraçcão. Concordo, como é que pode um ser humano tornar-se uma abstracção?... digamos então, uma abjecção...eu aguento. Vêm! Sentem o horror? A repugnância face à minha presença. Como é que é possível, perguntam-se vocês, nutrirem por um ser humano tais sentimentos.

Mas não se sintam culpados. Não baixem os olhos. É normal.


Aproximem-se, vejam mais de perto, foquem-se nos detalhes, vejam como me torno desfocada, vaga, periférica, deixem o vosso olhar cair em mim como numa paisagem. Reparem como o tempo abrandou, como a ansiedade se deteve. Mas nao me deixem desvanecer, contemplem-me mas com alguma desconfiança, nao se esqueçam onde tudo isto começou.


Uma abjecção! Uma aberração, nao se deixem abater pelo fascínio desta imagem. Reajam, desconstruam-na, fragmentem-me, façam de mim um puzzle, atirem-me ao ar e avancem para apanhar as peças. Ainda se recordam onde me colocar?


Vêm como eu também tenho uma ordem interna... Basta deitar uma pessoa abaixo para imediatamente reconhecer o seu lugar.


As cores e as formas todas elas se entram numa espécie de harmonia, até se dar o trabalho por completo.


Ah... Mas ela moveu-se! Disso não estavam vocês à espera! Reparem como tudo muda quando eu me movo.


Vejam como é diferente quando eu estou no lado esquerdo de quando vou para o lado direito. Imaginem que conseguem retirar deste facto algum sentido, não de vocês para o facto mas do facto para vocês.


Não, não é a mesma coisa.


E não é que eu não queira saber, eu não atravesso o palco sem ter um motivo, tem de haver um motivo. Vocês que têm alguma distância talvez possam perceber. Sim, apesar de continuarem aqui, sim... Apesar da distância, vocês não se foram embora... Não é maravilhoso? Tem de ser maravilhoso, senão vocês iam-se embora, não é verdade? Digam-me, será que ficariam sem uma razão para ficar?


Podemos virar por um momento esta sala de pernas para o ar? Obrigado.


o tentem compreender. Eu sei que se sentem perturbados, isso é tudo o que eu posso saber acerca de vocês e compreendo-vos perfeitamente, já repararam com certeza como também eu estou perturbada.


Mas não tirem para já nenhuma conclusão, nao se acomodem a este momento de estupefacção, este momento poderá em breve desaparecer. Fiquem alerta. Tentem o mais depressa possível tirar desta perturbação algum prazer. Quando se acalmarem é certo que se vai. A quem tirar prazer? Isso não se diz. Como ter prazer? O quê? Disfrutar? Pois bem, nao sei... Mas mantenham os olhos abertos enquanto eu tento perceber.


(Sento-me.)

Silêncio. (Ela pensa.)

13

Ainda têm os olhos abertos? Estão me a ouvir? É que eu estive a pensar...


E devo confessar que vocês não têm sido, até ao momento, mais do que um fruto manipulado da minha cobardia e o meu bode expiatório.


Isto não me surpreende muito, vindo de mim. Não seria a primeira vez. Mas não se zanguem, é só uma espécie de transferência.


Sento-me num palco sem a mais pequena ideia do que fazer e, mesmo sentada, tremo que nem varas verdes perante a possibilidade de que alguma coisa me venha a pedir para ser representada, hoje, aqui, sozinha, neste palco.


No entanto, é muito pouco provável, bem sei.


Tal como vocês, também eu não vim até aqui por qualquer motivo que transcenda muito um puro acaso.


É claro que algumas coisas me trouxeram aqui, é claro que, de certo modo, também eu tomei parte nalgumas dessas coisas, como por exemplo a escolha deste vestido...


Bem sei que não me fica nada bem nomear o vestido como um dos factores que me trouxeram aqui. Agora é que vocês vão ficar verdadeiramente furiosos! E com razão! Viemos nós até aqui, cheios de casacos e sobretudos para a menina se poder pavonear com o vestido! E ainda por cima nem se pavoneia bem!


Mas o que é que eu posso fazer? Querem que a este ponto do espectáculo vos venha tentar convencer que estou a interpretar uma personagem que envergou dia e noite ao longo de 50 anos o vestido que trazia quando o seu amante foi chamado para a guerra para nunca mais ser visto ou ouvido falar, à excepção desta mesma mulher que, enquanto trouxesse o vestido no seu corpo, nunca mais deixou de ouvir a sua doce voz cantando promessas de amor eterno...?


o me parece nada apropriado, nem isto nem qualquer outra farsa deste género.


É claro que outras coisas, para além deste vestido, contribuiram para o facto de eu estar aqui, mas essas são mais difíceis de explicar.


Posso-vos eventualmente contar como é que um dia acreditei que fazer coisas sem ninguém me mandar ou pedir e que idealmente não servissem para mais nada senão expressarem a idealidade em si, seria uma boa forma de aproveitar o tempo.


Mas esta coisa de nos distribuirmos pelo tempo tem tanto que se lhe diga. E tornou-se tão complexa, invadida por coisas tão difíceis de harmonizar que, passados uns anos, não o conseguimos antecipar melhor do que pôr um vestido, calçar uns sapatos e, mesmo depois de um batonzinho, aparecer-vos à frente nesta quase absoluta. insipidez.

Silêncio.

 

14

Agora, de repente, fui surpreendida por mim mesma.


Por instantes tinha-me deixado ficar só a olhar, perdida entre os meus pensamentos, alheia ao vosso olhar. E sem dar conta fui levada por pequenas sensações de encantamento. Acho que foi provocado por uma mudança de luz, mas não estou absolutamente certa.


Normalmente não sentimos nada, nem sequer reparamos. Mas neste momento, aqui, quando já não sabemos como afectar ou sermos afectados, e quando o desejámos tanto.... Uma pequena alteração na luz, quem me dera que isso pudesse acontecer mais vezes.


Dizem que está sempre a acontecer e somos nós que não a vemos, ou então ainda não encontrámos forma de as explicar. Pois. Não com palavras. As palavras não servem para tudo. Aliás no que toca a sensações servem mesmo para muito pouco.


Bom, é natural que eu não vos pareça muito sensível a estas súbtis variações, até agora ainda não mostrei ser muito sensual. Isto é talvez por me sentir observada. Mas a verdade é que às vezes deito-me no chão, assim, e tento estremecer, primeiro esse tremor parece-me estranho, distante, artificial, mas se for persistente chego a sentir frio, ou mesmo calor, ou medo, ou então deixo de conseguir distinguir se sou eu ou a terra que está a tremer, ou alguma forma de vida que tirita de frio por baixo de mim.


Assim, de fora, pode parecer um pouco perturbador, mas acreditem que esta experiência é, para mim, no mínimo reconfortante. Assim, a tremer, sinto-me liberta de qualquer sentido, qualquer justificação, e ao mesmo tempo não consigo deixar de me comover. Só de pensar em mim nesta situação fico logo comovida, bem sei que é um pouco criada por antecipação, mas quando vivida é difícil deixar de acreditar nela. Talvez pela sua simplicidade... é quase como uma síntese poética da minha própria existência, e não só da minha. Quando me deito no chão a tremer, imagino toda a humanidade exactamente na mesma posição. E é-me tão fácil criar esta imagem, levar toda a humanidade, assim mais de muitos bilhões de pessoas que habitam a terra, a cair de joelhos, corpos enrolados sobre si, a cabeça entre as mãos e a tremer, parece-me tão natural... De olhos redondos abertos de espanto, a íris parada a sondar movimentos interiores, punhos fortemente cerrados, e o corpo, tão frágil... Ao mesmo tempo tão parado e tão vivo, e à sua volta o silêncio tranquilo de quem só espera que passe. É de chorar. Querem ver ?

 


15
É lindo, não é ? Não há muito mais que se possa dizer sobre isto. Ficamos sem palavras....


Depois disto a única coisa que me ocorre é mostrar-vos a posição de sonhadora. Mas esta é uma posição de sonhadora com o olhar de quem já não sonha mais. De quem não espera mais nada. É muito bonita, porque combina a beleza do sonho com a melancolia do passado. Tem assim uma qualidade quase ausente mas que ainda vive, que vive num tempo perdido. Um tempo que passou sem nunca terminar. É o olhar de quem poderia morrer nesse mesmo momento, mas que não sabe nada da morte. De quem já não tem

medo, mas também nunca teve. Um olhar sonhador porque não encontra no tempo um lugar para olhar, ao mesmo tempo que não sabe do tempo e por isso não sonha.


É tudo isto que me ocorre... Depois disto, não sei. Talvez, um lento acordar. Um começar de novo, uma renovada apreensão da realidade que a rodeia. Isso ainda tem a sua beleza, e não precisa de palavras. Até podia ser dançado! Um primeiro gesto é sempre dançado, não acham ? É um gesto que já não é só movimento mas que ainda não é acção. É ainda uma descoberta, ainda não ganhou uma forma. É, na realidade, uma dança. Mas irrepetível. Uma dança que se perde em cada gesto que se expressa, em cada passo que é dado, e é muito difícil de vir um dia a recordar.

E finalmente acordada, o confronto com o mesmo vazio. Como o cair de uma cortina de ferro...


Ahhh... Mas agora que este momento acabou, vou-vos mostrar outro que me veio à ideia. Desta vez vemos primeiro e vocês avaliam depois, com os vosso próprios olhos.

16

(Tira um papel do bolso e repete uma série de instruções.)


Ela vira-se de costas, tira um saco preto do bolso e enfia-o na cabeça.


Quando bem enfiado até ao pescoço, vira-se de novo de frente para o público.


Fica de pé olhando-o estarrecida e com surpresa, como se não estivesse à espera e isso a tivesse assustado terrivelmente.


Pequena pausa para o público se certificar, olhando por cima do ombro, de que nada terrível se aproxima pelas suas costas, e de que afinal ela está só a representar. Quando ela recupera a atenção do público, dá três passos para trás, afastando-se deste. O primeiro passo grande e lento seguido de dois pequenos, rápidos e tripudiantes.
 

Depois de recuperar o equilíbrio ela leva as mãos à cabeça e cai de joelhos levando as palmas das mãos, bem abertas ao chão.


Com a cabeça pendendo ela diz 3 frases sobre o amor e a morte.


Ummmm.
Anda meu amor
Dá-me a tua mão
Leva-me contigo até...


Tira o saco da cabeça e olha-o com fervor e paixão antes de espetar um punhal no coração caindo morta no chão.


3 guardas vêm buscar o seu corpo morto arrastando-o pelo chão com grande indiferença.

 


17
Bem, na realidade eu também não estava à espera que isto acabasse tão depressa. É incrivel a fugacidade da vida... Mal paramos para a ver já ela passou.


Se pelo menos os guardas tivessem partido com algum tipo de comoção, com algum sentimento face a esta tragédia, ainda poderíamos considerar ficar um pouco em silêncio, a pensar. Mas assim não vale a pena.

Claro que esta indiferença não é necessariamente um índice de insensibilidade ou brutalidade, não devemos tirar conclusões precipitadas. Esta indiferença pode mesmo estar baseada em experiência e sabedoria, ou em profundas crenças e ideais. Sim, porque nada nos diz que os guardas são indiferentes à vida, o que seria para nós alguma coisa sobre a qual não temos nada a dizer. Mas se eles são indiferentes à morte, isso já muda tudo. Ser indiferente à morte poderá, quem sabe, dizer que eles já assistiram a tantas mortes e de tamanha violência, que um punhal espetado no coração é já assistido, não como uma tragédia, mas como uma lógica consumação da nossa natureza – natureza essa verdadeiramente trágica.

Desta perspectiva, no lugar do punhal, deveríamos ficar impressionados com a sua frieza, e podemos mesmo nutrir por eles alguma admiração como homens preparados para tocar os limites da vida com tanta sobriedade.

 

Conseguimos mesmo encontrar alguma deferência na maneira técnica, pragmática, em que eles pegaram cada um numa perna da rapariga e a arrastarem dali para fora, sem hesitações, sem tropeçar nos seus cabelos, sem se detêrem em confirmar o seu óbito - se está morta, morta está, senão morrerá.

Ou então é mesmo a sua própria vida que está condenada a desaparecer com igual fugacidade, e punhais são-lhes mais familiares do que um pequeno almoço.


Nunca vamos verdadeiramente saber se a indiderença dos guardas será pela vida ou pela morte. Esta não é mais do que uma questão de perspectiva.

18
Silêncio.


Não resta muito mais a dizer depois de a ideia de perspectiva ser tomada em consideração.


Digamos que a invenção da perspectiva veio acrescentar à representação do mundo uma terceira dimensão, mas reduziu-nos a uma folha de papel de arroz. Uma superfície plana, quase transparente, mas não o suficiente para ver através dela um mundo menos desfocado, menos fosco.


Agora que sabemos que somos apenas este olhar míope sobre a realidade torna-se difícil participar dela com alguma certeza. E sem grandes certezas deixamo-nos ficar por aqui, eu sem saber aonde levar este discurso, e vocês sem encontrarem legitimidade para avaliar a dimensão do meu fracasso, ou do meu sucesso. Como poderiam ? Com que critério?


Ao mesmo tempo, não fazemos a mínima ideia se este impasse que vivemos encarando-nos é um voto de confiança, ou uma resignação ao facto de que, para onde quer que nos viremos, não encontraremos muito mais do que diferentes expressões de incerteza.


Enfim... Estaria assim justificada tanto a minha como a vossa abstenção, mas e o que é que faríamos nos próximos 10 minutos ?


É bem sabido que o tempo deixa de ter qualquer importância quando não se espera mais nada. Mas não é fácil conviver com esta sensação de abandono, não será ainda demasiado cedo para abandonar este espectáculo a uma morte precoce?

Há coisas para as quais não deveríamos criar uma consciência demasiado cedo, ou mesmo nunca. O ter consciência dos fins nunca fez ninguém sentir-se mais feliz e, num espectáculo, o encarar com satisfação que este vai acabar, mais cedo ou mais tarde, é um veredicto do seu fracasso.

O fracasso esse, deixo à vossa deliberação, que eu cá não quero ter nada a ver com isso.

 


19
Não. Eu estou aqui, de toda a minha livre vontade, a exercer uma das poucas escolhas que tenho feito ao longo da minha vida e a usufruir ainda da minha jovialidade, estou aqui para aplicar o excedente da minha energia, aquela que, por muito que tente, nunca é consumida no dia-a-dia, eu estou aqui para, destacada num fundo negro, distinguir melhor os meus contornos, para num espaço vazio me confrontar com a minha habilidade de o preencher, estou aqui para reagir aos meus próprios estímulos numa espécie de roda viva e auto-suficiente, estou aqui para tornar mais audível a minha própria voz.

Estou aqui por mim, como veêm nada disto teve alguma coisa a ver com vocês.


Sou eu comigo própria, enfim, num teatro, portanto sou eu com a representação de mim, perante os meus próprios olhos.


Mas não se vão embora. É sempre bom ter mais do que uma opinião, pode não parecer, mas eu estou verdadeiramente interessada no vosso feedback. Não que não confie na minha opinião acima de tudo, mas tenho vindo a observar que me posso tornar um pouco tendenciosa, entrar em ciclos fechados em volta de mim, vícios da modernidade...
 

Como não medir as palavras, não ser compreensível, executar movimentos rudes ou mal ensaiados, ou simplesmente não os executar, enunciar um conceito e depois não encontrar maneira de o desenvolver, prometer mais do que fazer, ou fazer sem pensar em nada, distorções faciais, sequências de pequenos passos baseados em absolutamente nada, gestos do quotidiano fora do quotidiano, ajeitar as roupas depois de me rebolar no chão, abrir muito os olhos quando falo para compensar a insipidez das palavras, clarear a voz sem disfarçar, experimentar posições difíceis sem qualquer preparação acrobática, gemidos, suspiros e outros sons gutorais, expressar a animalidade como se me fosse natural, não fazer nada e olhar o público com arrogância, e muitos outros que tenho vergonha de nomear.


Eu estava aqui na esperança de que este espaço me acolhesse, que depois da minha presença aqui, a imagem de mim ficasse inscrita nas paredes desta sala, assim como na vossa memória, avivando-a e colorindo-a. E que no silêncio da sala se pudesse ainda escutar uma voz quente, que seria a minha. Breves mas familiares sussurros.

 

No entanto parece-me que fui eu que acabei por me imiscuir na sua indiferença, na dissipação dos seus vértices, na sua aparente bidimensionalidade, nas suas lombas estendidas, nos seus murmurados atritos, na sua espera de quarto vazio.

Às vezes uma pessoa acredita ser memorável e arrisca assim algumas palavras... Mas aquilo que foi dito não se voltará a dizer, não obstante o sentimento continuará o mesmo, mas as palavras serão outras, ou nenhumas.


Às vezes penso se não me deveria ter sentado a escrever... 

Apresentações de Ar ao vento em diferentes países

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