Dispersos, inéditos e malogrados

 

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I. Eu acordo, me visto, me preparo. Hoje é dia de visita ao Itaquerão, é dia de ressaca. O estádio descansa. Ontem, Holanda e Chile suaram no gramado. Um jogo que ao longo do futuro será esquecido por muitos que o assistiram pela televisão. Há possibilidade de que seja esquecido também pelos que estavam lá. Na Holanda e no Chile as fotos da partida ficarão no HD externo. Talvez entre elas alguma seja escolhida para preencher um porta-retrato empoeirado, mas soa difícil. Os souvenirs feitos na China irão estragar. O presente comprado no Brasil foi para a Sogra. Para a Namorada, o Amigo. Foi para o Colega do Trabalho. O presente foi para Leônia.

 

II. "A opulência de Leônia se mede pelas coisas que todos os dias são jogadas fora para dar lugar às novas."

 

III. (texto para ser lido em fluxo, preferencialmente em voz alta)

Pulo da plataforma para o vagão. O metrô está cheio. Tem ar condicionado. Estamos todos condicionados. “Next Station: Sé”. Mesmo com a vitória do Brasil, o dia seguinte arregaça o sono, me derruba da cama, me bota de pé,

“Next Station: Sé”,

ao meu redor há quem está indo esfregar o chão, vender carros, ensinar português para adolescentes, fritar risoles, tirar a pressão do paciente, ir para o Poupa-Tempo. Vamos ao Itaquerão! Sejam bem-vindos, o sol é para todos na

“Next Station: Tatuapé”,

não, não é possível ir para o estádio a pé, o sol ilumina as janelas do metrô, ilumina o dia seguinte à vitória 4x1, Brasil em cima dos Camarões, quem vai lembrar?, hashtag #torcebrasil, #esquecebrasil, #acreditabrasil,

“Next Station: Carrão”,

eu também quero um, um carrão bem grandão, não um 4x1 como Brasil-Camarão, um 4X4, pra fazer Rali no Sertão, colocar adesivo de “eu apoio o trânsito gentil” e hashtag #amomuitotudoisso, com meu Carrão vou dar uma de Turistão, pegar uma mina brasileira, gostosa, vou levar a mina no Motel Duplex Verde e Amarelo do Amor, lá na Avenida Jacu-Pêssego, uma avenida feia, horrorosa, só perde para o cu do mundo do Caetano, que eu nem sei ao certo onde é,

“Next Station: Penha”,

Lei Maria da Penha porque mulher brasileira não é bagunça,

“Next Station: Vila Matilde”,

tira da boca essa Matilde, essa vadia, esse bicha, esse travesti, esse maconheiro. Pode cuspir essa vulgaridade toda, a Tia Matilde serve polvilho caseiro, não aceita desaforo e vai tomar café com bolo na

“Next Station: Guilhermina-Esperança”,

e não se faz esperança sem corações libertários,

“Next Station: Patriarca”,

e lá no centro, na Praça do Patriarca, você cruza o pastor evangélico, Sucesso só em Jesus, ali no entorno você toma uma caninha e esquece que Deus te abandonou, ele foi para o Itaquerão, para o Mané Garrincha, para o Mineirão.

“Next Station: Artur Alvim”, who the fuck?! quem foi esse cara, esquecemos o nome, o significado, o símbolo, devastamos o passado, passa para a outra, pausa para o lanche, olha pela janela a cidade, a feiúra, a falta de memória, o churrasco na laje, os prédios da Even Construtora, veja o boteco sem teto, a camisinha usada, a Casa do Pastel, a árvore decepada, o carro da polícia, o cão morto no chão, perto do Itaquerão.

“Next Station: Estação Terminal Corinthians-Itaquera'",

que lindo, que branco, tem luzes de LED! não terminaram o estádio a tempo, tempo é dinheiro, não temos tempo de terminar de construir, não dá tempo, não dá tempo de mudar o Brasil, o trânsito está pesado, minha filha está chorando, o ônibus tá lotado, não tem tempo, não vai existir tempo para voltar e recomeçar, não haverá tempo para se lembrar, não dá pra olhar, vamos fazer como a arquibancada, ô João! coloca aí um remendo, um remédio, um Band-Aid gigante do Oiapoque ao Chuí, diz aí, não vai cair, vamos sentar e gritar, vem Zequinha, vem Chiquinho, neguinho, neguinha, japonesinho, indiozinho, branquinho, loirinho, vem, foi Goooooooooooooooool!

 

IV. Penso que não sabemos muito bem o que fazer com os fracassados. Ainda amamos sem moderação os heróis, seus dentes brancos, seu cheiro que atravessa continentes. Amamos as braçadas fortes do nadador olímpico que anuncia um novo mundo com sua vitória. Amamos o jogador que desliza nos campos verdes. Ele foi pobre, hoje é milionário. Ele pode nos arrancar a lágrima em uma final de Copa do Mundo. E não sabemos o que fazer com os fracassados. Eles existem em quantidade exuberantemente maior do que o nadador e o jogador. Quais são as mitologias e manifestos do fracasso?

 

V. Em 2009 eu precisava propor um projeto teatral para concluir o curso de graduação em Artes Cênicas, na Universidade de São Paulo. Chamei então alguns amigos - atores, diretor e dramaturgo - e convidei-os para fazer um processo colaborativo de criação inspirado no livro Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino. A vontade era falar da metáfora da viagem como transformação. Durante o processo deveríamos escolher cada um uma cidade. Entre tantas, Leônia me atravessou. Em seu exercício de imaginação, Ítalo Calvino constrói Leônia como uma cidade que joga um enorme volume de coisas fora para dar lugar às novas. Os lixeiros são recebidos como anjos, e todos os dias pianos, porcelanas, aspiradores, enciclopédias e mais uma infinidade de objetos são dispensados em reluzentes sacos de lixo. O valor maior de Leônia é se renovar e abrir espaço para o novo. Leônia encontra prazer em se refazer. E não presta especial atenção à montanha de lixo que aumenta com tudo que é descartado e esquecido. Meu trabalho de conclusão de curso recebeu o título de Sobre Esta Cidade, e assim como os jogos de porcelana de Leônia, entrou em um saco de lixo para dar lugar ao novo. O trabalho não rendeu dinheiro, nem prêmios, nem matérias nos jornais. Não rendeu a criação de um coletivo de trabalho nem convites para festivais.

Segui os dias.

No começo de 2013 inventei uma personagem que se chamaria Terrorista Tropical. Pensei no Cinema Marginal Paulista, em Carmem Miranda, na situação política do país. Evoquei os mistérios do abacaxi e do cupuaçu, e li as mais diversas reportagens sobre a Usina de Belo Monte. Fiz pesquisas, li alguma coisa do Darcy Ribeiro, li alguma coisa sobre a vinda de D. João e a Corte portuguesa para o Brasil. Descobri no Youtube uma dupla de meninos adolescentes pertencentes à aldeia Guarani Jaraguá, no estado de São Paulo, chamada Xondaro MC'S. A dupla fazia um surpreendente rap em tupi-guarani e um dos versos dizia algo como "só nós índios vimos Pedro Álvares Cabral mudar a nossa história. Vocês na encruzilhada dizem ter visto muita coisa, mas não viram nada." Reli muitas vezes o Manifesto Antropófago, tomei coragem e decidi que faria um espetáculo performativo com a personagem da Terrorista Tropical. A Terrorista iria percorrer o país e traria à tona memórias esquecidas. Memórias fundadoras desse país desconjuntado e pentacampeão no futebol. Ela teria bombas feitas de banana e um chapéu de cangaceiro. Em sua jornada heroica, algo daria muito errado. Convidei uma dramaturga em que confio, chamei músicos parceiros, fiz improvisos de performance vocal. Estávamos nos dias da Copa do Mundo e seguindo uma indicação da dramaturga fiz uma deriva até o recém construído estádio do Itaquerão. Dentro do metrô decidi que o texto gerado em deriva deveria ter uma dimensão sonora clara. O som do trilho misturou-se ao som das minhas ideias dispersas sobre a Terrorista Tropical, misturou-se às minhas leituras e ao som das vozes do país que ora comemoram os jogos da Copa, ora vociferam odiosamente suas posições políticas. Desisti do projeto, não ganhei edital, tive preguiça, cansaço, me senti desencantada. Disse a mim mesma que eu era um fracasso total. Novamente fui Leônia. Joguei fora. E não vi nenhum lixeiro anjo, capaz de me oferecer algum conforto.

Hoje, em 2015, retomo o livro Cidades Invisíveis e retomo os escritos dispersos do projeto Terrorista Tropical. Na Copa do Mundo o Brasil perdeu para a Alemanha de 7x1. Uma derrota histórica. Agora faço dos escritos e das derrotas não mais que mero lixo, e arrisco neste texto uma enumeração caótica de algo que não sei bem o que é. Sei que "quanto mais Leônia expele, mais coisas acumula; as escamas do seu passado se solidificam numa couraça impossível de se tirar."

E penso em projetos futuros. E penso no Brazyl.

 

© 2019 por Revista Ensaia

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