Dois poemas de Ghérasim Luca

Ghérasim Luca, em tradução de Annie Cambe e Laura Erber

 

Os gritos em vão

 

Ninguém a quem dizer

que não temos nada a dizer

e que o nada que nos dizemos

continuamente

nós nos dizemos

como se nada nos disséssemos

como se ninguém nos dissesse

nem mesmo nós

que não temos nada a dizer

ninguém

a quem dizer

nem mesmo a nós

 

Ninguém a quem dizer

que não temos nada para fazer

e que não fazemos nada além disso

continuamente

o que é uma maneira de dizer

que não fazemos nada

uma maneira de não fazer nada

e de dizer o que fazemos

 

Ninguém a quem dizer

que não fazemos nada

que não fazemos

mais do que aquilo que dizemos

ou seja nada

 

Ghérasim Luca, 1976

(tradução de Annie Cambe e Laura Erber)

 

 

 

 

 

 

 

A          palavra          se          deu          um

t e m p o          s i l e n c i o s o.          Espalhou

o          boato          de          que          a

algazarra          forçaria          o          bloqueio

d o          f u n d o          e          da

f o r m a ,          mas          o          fundo          da

a m e a ç a          n ã o          era

tão          obscuro          quanto          a          forma.

Não          podemos          portanto

c o n c l u i r          nem          num          r e c u o

n a          d i r e ç ã o          d o          s i l ê n c i o          s e m

fundo          nem          num          futuro          ato

de          algazarra          sem          forma.

Sua          declaração          elíptica          desta

noite          não          vaza          o          segredo.

Ghérasim Luca, 1976

(tradução de Laura Erber)

Os dois poemas foram originalmente publicados, com ilustrações do autor, no livro Paralipomènes, pelas edições Le Soleil Noir (Paris, 1976), dirigidas por François Di Dio, célebre editor de livros-objeto e livros que propunham parcerias entre poetas e artistas visuais. As edições Le Soleil Noir foram também responsáveis pela primeira edição de Héros-Limite, de Luca, que incluía 3 desenhos e uma gravura de Jacques Hérold. A editora encerrou seus trabalhos em 1983. Paralipomènes foi reeditado em 1986 pela editora José Corti, atual responsável pelas publicações de Luca. Em 2001 o livro foi incorporado à antologia Héros-Limite suivi de Le chant de la carpe et Paralipomènes, editada pela Gallimard. 

Ghérasim Luca nasceu em 1913 ou 1914 em Bucareste. Na década de cinquenta instalou-se em Paris onde viveu, como apátrida, até 1994. Traduziu vários de seus textos para o francês, língua que adotou ainda na década de quarenta enquanto participava do movimento surrealista romeno. A partir dos anos oitenta a editora José Corti passou a publicar sua obra.

 

Annie Cambe é tradutora e professora de tradução, com graduação em Letras (Espanhol e Português) pela Université Aix-Marseille e especialização em tradução português-francês pela UFRJ. Nascida em Avignon, naturalizou-se brasileira em 1998. 

 

Laura Erber é artista visual, escritora, doutora em Estudos de Literatura pela PUC-Rio e professora adjunta do curso de Estética e Teoria do Teatro da Unirio. É autora, entre outros, de Ghérasim Luca (Eduerj, 2012) e Esquilos de Pavlov (Alfaguara, 2013), e integra o conselho editorial da revista Ensaia.

© 2019 por Revista Ensaia

// Caso esteja visualizando páginas desconfiguradas ou desalinhadas, verifique se seu browser está atualizado ou tente o acesso por meio de outro browser //