Ensaiando um começo

Suspeito que o início desta revista remeta àquela viagem de novembro de 2012, quando estive em Maceió e visitava um casal de amigos.  Sivaldo, então recém-casado com Vivian, mostrou-me seu pequeno livro de poemas publicado quando era ainda aluno de graduação. Se não me engano, era uma manhã de sábado e jogávamos conversa fora na sala de sua casa. Talvez logo após o café, talvez antes de seguirmos juntos para alguma praia ali perto, calhou dele aparecer com esse livrinho em mãos e entregá-lo a mim. Tenho esse livrinho aqui, ó, ele pode ter dito. Como veio a me explicar, a publicação havia sido feita em colaboração com amigos da faculdade e, dada a baixa tiragem e seu caráter artesanal, teve à época uma circulação restrita. O fato é que escutá-lo falar sobre o nascimento do livro e os processos relativos à sua publicação gerou em mim uma vontade insuspeita, ao menos naqueles dias de novembro, de envolver-me eu também com um processo de editoração.  Folheava seu livro costurado manualmente, feito por quem escrevia e queria de algum modo ser lido, e pensava que, é bem provável, deveria haver pessoas na minha universidade escrevendo sem serem lidas. Pensava, igualmente, na ausência de jornais ou revistas universitárias no âmbito do Centro de Letras e Artes da Unirio [1] e no prejuízo dessa ausência para a veiculação de ideias e experimentações, diálogos e reflexões produzidos pelo seu corpo discente. Comecei então a conjecturar coisas nesse sentido enquanto conhecia o belo e modesto livro de Silvaldo. E isso foi mais ou menos no mesmo período em que o interesse por questões de dramaturgia parecia ficar um pouco mais marcado em mim. Precisava dizer algo.

 

Mas foi apenas um anos depois, no final de 2013, que foi escrito um primeiro rascunho do que viria a ser a Ensaia. Distribuí em uma folha A4 um projeto mínimo de revista, com a proposição de umas poucas seções e de alguns eixos temáticos. A Ensaia, como estava colocado bem ali no subtítulo do rascunho, seria uma revista de compartilhamento de experiências do texto teatral. Esta foi sua primeira definição, ou ao menos um primeiro recorte territorial. O projeto ganhou maturidade quando três amigas, de curso e de vida – Ana, Raquel e Mayara –, toparam discuti-lo seriamente e levá-lo adiante de algum modo comigo. Isto foi em meados do primeiro semestre de 2014. Passamos a nos encontrar regularmente para discutir o que é isto que queríamos em comum.  Para além de uma questão de arranjo de desejos, o que se ressaltou nesses encontros foi a importância e a necessidade de se pensar a dramaturgia contemporânea em sua intrínseca polissemia; um campo que, para nós, nunca foi dado como conhecido. Pareceu-nos que a melhor maneira de organizar essa discussão, em diálogo com o ambiente acadêmico em que estávamos (e ainda estamos) inseridos, seria propor o projeto da revista como um projeto de Prática de Montagem Teatral  (PMT) –  uma das disciplinas obrigatórias aos alunos dos cursos de teatro da Unirio por meio da qual se realizam, em geral, pequenos experimentos cênicos ou espetáculos de maiores dimensões. Nossa prática editorial deu início à sua formalização em um contexto de prática teatral, portanto. O que não deixa de contribuir diretamente para a nossa compreensão tanto de prática, muito comumente colocada em oposição à teoria, como da prática teatral em si, que a nosso ver também pode dizer respeito à teoria, à pesquisa, à docência ou à editoração. Estamos todos, afinal, fazendo teatro de um modo ou de outro. 

 

Em agosto de 2014, sob orientação docente de Ana Bernstein e Laura Erber, que pertencem hoje ao nosso conselho editorial, o projeto, devidamente idealizado e formalizado,  avançava com menos discrição. O antigo rascunho foi o ponto de partida para uma série de reformulações: seções foram inteiramente afastadas, outras inventadas ou modificadas. Se o interesse inicial residia na publicação exclusiva da produção discente, com trabalhos oriundos de pesquisas de iniciação científica dos alunos, exercícios de final de curso ou dramaturgias e reflexões em torno das montagens realizadas na Unirio, aos poucos ele passou a abarcar também outras produções. Ao decidirmos por uma publicação online, com uma versão em PDF e outra no próprio site, pensamos que ainda mais rico seria abraçar outras vozes e, sobretudo, colocá-las em relação.  Assim, o resultado do projeto acadêmico, que teve sua conclusão em dezembro de 2014 (período de início da chamada para esta edição inaugural) foi uma revista cujo horizonte era apenas em parte previsível. Sabíamos, por um lado, que amigos, conhecidos ou pessoas do nosso ambiente universitário poderiam enviar seus trabalhos e processos investigativos; por outro lado, mostrou-se completamente entusiasmante ter a chance de abrir a chamada ao público em geral e entrar em contato, dessa forma, com impressões e trabalhos distintos e para nós desconhecidos em dramaturgia, performance e escritas múltiplas. 

 

A transformação de uma revista de dramaturgia em uma revista de dramaturgia, performance e escritas múltiplas, aliás, talvez mereça uma explicação à parte. 

 

Não é fácil dizer do que é exatamente esta revista. Ao escolhermos chamá-la de Ensaia – assim mesmo, no imperativo –, tínhamos em mente a criação de um espaço que convocasse desde o nome. Convocasse a escrever, a experimentar, a trabalhar nas fronteiras e nos limites, e pensar sobre essas escritas, sobre a maneira como ganham forma e sobre como essa forma aparece. Ensaia também veio a calhar porque a nossa vontade passou a ser a de uma revista que não se fechasse em um campo ou estrutura específicos, mas experimentasse territórios, relações, e fosse aos poucos, de acordo com o material produzido e publicado, aparecendo ela mesma de uma nova forma. Com a revista Ensaia, o que nasce não deixa de se relacionar a uma certa ideia de dramaturgia, articulada e posta em cena na interação entre os textos e imagens, sons e desenhos, vídeos e performances. 

 

Não se reduzindo, então, desde o nome, a uma coisa só, pareceu pouco descrevê-la apenas como uma revista de dramaturgia. Pois se a relação da dramaturgia com outros campos artísticos e do conhecimento tornou-se também uma preocupação central, deveria haver espaço, do mesmo modo, para tudo aquilo que não pertencia ao campo do especificamente teatral, mas poderia, ainda assim, ser lido sob o seu prisma. A performance pareceu acolher bem uma série de práticas que estamos interessados em investigar nesse sentido, assim como as escritas múltiplas, que aqui não tem significado último e pode se referir a objetos tão distintos como uma crítica, um ensaio, uma nota ou um exercício escritural híbrido. 

 

Esta edição zero vem na tentativa de dar a ver todas essas intenções, com exemplos bastante diversos em termos de origem e pontos de partida. 

 

Na seção Laboratório, dedicada a reflexões sobre processos criativos, publicamos Notas do subterrâneo, de Dinah Cesare. Suas notas são resultado da viagem que fez a Lumiar (RJ), em janeiro deste ano, na intenção de acompanhar os ensaios de Brasil Subterrâneo – peça do Studio Stanislawski com direção de Celina Sodré.

 

Ainda sobre processos criativos, mas agora a partir de uma visão interna, publicamos na seção Rubrica imagens, anotações, desenhos e referências  que participaram do processo de criação da peça de dança Mordedores, concebida e dirigida por Marcela Levi e Lucía Russo. Os desenhos de Laura Erber, que colaboraram na construção dramatúrgica de Mordedores, também ocupam a capa desta edição e realizam intereferências no arquivo em PDF.

 

Na seção Ensaio, a artista e pesquisadora portuguesa Rita Natálio escreve Sem título (ou Considerações sobre a Sagração da Primavera), resultado parcial de sua tese de mestrado em Psicologia Clínica na PUC-SP.

 

A seção Diálogo traz a peça para exposição Tudo poderia ser diferente do que foi, mas foi o que foi da forma que conhecemos, de Rafael RG, e o relato de Gregori Homa sobre sua experiência como ator na peça de Rafael. 

 

A seção Língua, dedicada a traduções, traz dois poemas de Ghérasim Luca, com tradução de Annie Cambe e Laura Erber, e a palestra Peças, de Gertrude Stein, com tradução de Inês Cardoso Martins Moreira.

 

Outra tradução aparece na seção Peça, por meio de um arquivo em áudio de Cascando, peça radiofônica de Samuel Beckett traduzida por Maria Clara Coelho e Tainá Louven. O áudio publicado é fruto do Projeto Beckett, um projeto de extensão da Unirio desenvolvido ao longo de 2012. A mesma seção também abriga Cachorro enterrado vivo, da dramaturga Daniela Pereira de Carvalho.

 

Por fim, na seção Companhia, publicamos uma conversa com o artista visual Gabriel Gimmler Netto, em que ele fala, entre outras coisas, de sua relação com a performance e da prática do desenho gestual.

 

Suspeito que o que temos aqui não seja lá tão próximo do que Sivaldo me mostrou em Maceió. À parte isso, quem sabe não estejamos nos dedicando também a alguma poesia.

 

 

 

 

 

 

 

nota

[1] - Nesta época, ainda não havia a Garupa.

Rodrigo Carrijo é graduando em Teoria do Teatro pela UNIRIO, bolsista pesquisador de Iniciação Científica do CNPq e coeditor da revista Ensaia.

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