Frutofilia

ou em busca de um corpo decolonial

Sandra Bonomini

"Frutofilia", 2017. Conceito, criação e performance: Sandra Bonomini; Câmera: Silvia Izquierdo.

Frutofilia” é um desdobramento da performance Kiwo(man), criada e apresentada pela primeira vez no ano 2013 em Belo Horizonte, performance essa que atravessa ou tenta cruzar as fronteiras enrijecidas do gênero e da sexualidade na nossa sociedade, na nossa cultura ocidental. Poderia-se dizer que Frutofilia é um recorte ou uma nova possibilidade dessa travessia. Desta vez a necessidade-urgência e o que mexeu muito comigo para a ação foram os episódios de censura [1] à arte e aos artistas, fatos muito específicos que aconteceram durante o ano de 2017 (e continuam acontecendo) no Brasil – momentos tristemente obscuros, sombrios, ignorantes e bem constrangedores aos olhos do mundo e de cada artista, ou seja, de nós, que vive da sua própria arte, que respira e que chora graças à arte. Um ano cheio de censuras e retrocessos para a cultura, para a liberdade de expressão, para a criação e xs criadorxs, para a arte e xs artistas. Mas quando a coisa torna-se difícil é também quando a cabeça dá uma reviravolta e ativa ainda mais a criação, seja para sobreviver ou para resistir, e nos traz esperança e muita lucidez para enfrentarmos as táticas opressivas, o conservadorismo e o abuso absurdo de poder, como dito pela filósofa Márcia Tiburi:

 

Conservadores e reacionários sempre buscaram administrar o desejo dos outros. Às vezes se metem com as artes porque, de algum modo, sabem que a esfera estética é estratégica para os jogos do poder e da dominação. (TIBURI, 2017, p.2)

Frutofilia” é uma videoperformance de 8 minutos, gravada com câmera fixa, na  cozinha de casa. Não tem som. Da mesma forma como na performance Kiwo(man), o material principal, depois do corpo, é a fruta kiwi. Em meio a tudo o que estava acontecendo no Brasil, a minha motivação-tarefa como artista era criar uma resposta ativa igualmente absurda. Indaguei, então; o que aconteceria se eu tivesse a possibilidade de apresentar Kiwo(man) ao vivo de novo? A resposta foi clara: eu seria acusada de frutofilia! Era lógico dentro do absurdo, o meu corpo nu expulsando kiwis que escorregavam entre as virilhas, que tentavam criar algum vestígio de masculinidade no meu corpo “biologicamente feminino”, para depois apagá-la. Meu corpo, por dentro e por fora banhado num fluido doce e viscoso, o cheiro de fruta quase rançosa, muito madura, invadindo o espaço e os sentidos dos espectadores próximos. Meu espírito rebelde teria adorado a oportunidade de performar Kiwo(man) naquele momento, para poder viver a censura e a arrogância na própria pele. Não aconteceu, mas com certeza fui atingida. E Frutofilia nasceu.

 

Os  kiwis como possibilidade de desconstrução, desarticulação da norma e, portanto, como possibilidade de possuirmos esse corpo “outro”, ou talvez de criar o que Preciado chamaria de “ficção política (incorporada) outra” que não gere violência. O(s) corpo(s) em Frutofilia seriam – ou não - uma tentativa de resposta à proposta do filósofo de “rebelarmo-nos contra essas ficções políticas que nos constituem”, “alcançar uma despersonalização crítica que nos leve à imaginação coletiva de outras ficções políticas que não produzam violência nem formas de opressão e exclusão” (PRECIADO, 2014, tradução minha) [2]. Frutofilia é trans porque nasce do atravessamento; na verdade, do atravessamento como possibilidade, desejo de atravessar as formas fixas e habitar o “sem-nome”, romper com códigos binários e classificações. Eu me pergunto se é diluição ou é mixagem? Ou talvez ambos, numa ação simultânea de morte e nascimento… e nascimento e morte.

 

Ainda sem resposta e um tanto desanimada, lembrei-me do Ciborgue como ficção da Donna Haraway: “uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção”. E então a esperança volta quando ela afirma que essa criatura “significa uma ficção capaz de mudar o mundo” (HARAWAY, 2009, p. 36). Volta a esperança porque surge a opção de questionarmos aquilo que somos ou aquilo que a sociedade quer ou necessita que sejamos. Dando continuidade à ficção, penso nessa rebelião que Preciado sugere como alternativa e considero pertinente colocar o Ciborgue (por que não?) como uma dessas ficções políticas (outras) não violentas, nem opressoras, como um exercício “sentipensante” de re re reinvenção. “Estou argumentando em favor do ciborgue como uma ficção que mapeia nossa realidade social e corporal e também como um recurso imaginativo que pode sugerir alguns frutíferos acoplamentos” (HARAWAY, 2009, p. 37). É esse recurso imaginativo que Haraway menciona o que me faz pensar e sentir que o corpo pode tudo, sim, mas na medida em que nós consigamos pensar esse corpo na vertigem, num limiar, sendo atravessado, no fluxo e em movimento. O corpo de Frutofilia poderia, então, ser um corpo-ciborgue?

   

Tanto a performance Kiwo(man) quanto a videoperformance Frutofilia nasceram não apenas do desejo de questionar o(s) gênero(s), a(s) sexualidade(s) e a(s) identidade(s) por meio da performance, mas também de desnaturalizar e reivindicar – e abraçar – alguns significados que ainda hoje geram desconforto, rejeição, medo e até mesmo repulsão. TRANSsexual, travesti, monstruosidade: três palavras, entre muitas outras, que permeiam e transitam pelas duas performances, pois elas intentam visibilizar a diferença, descolonizar o corpo e entender/ver a grande beleza que existe nesses atributos. O ser humano resulta demasiado humano, como bem coloca Nietzsche: “Olhamos todas as coisas com a cabeça humana, e é impossível cortar essa cabeça; mas permanece a questão de saber o que ainda existiria do mundo se ela fosse mesmo cortada” (NIETZSCHE, 2000, p. 13). Não temos resposta para essa provocação, mas talvez algumas aproximações, intuições que dialogam com o desejo de criar esse corpo que chamo de decolonial. Poderíamos inclusive conectar a imagem do corpo sem cabeça sugerida por Nietzsche com o conceito moderno de “humano como carga colonial”, que o teórico decolonial Ferrera–Balanquet propõe em seu texto. O pesquisador se desapega [3] [desprende/abandona] do conceito moderno de “humano”, por ter uma enorme carga colonial, e usa o termo “cosmos-sujetxs sentipensantes” (FERRERA-BALANQUET, 2015, p. 40). Nas histórias ele substitui as letras “a” e “o” pela “x” para estender, desde o lugar da fala e da escrita, as possibilidades do gênero e romper com o binarismo masculino/feminino que é limitador, de modo que isso faz parte, também, da grande tarefa decolonial com relação ao sujeitx em todos seus âmbitos. Seria  por meio daquelas rotas “outras”, como coloca o autor, que é possível aproximarmo-nos dessa interessante figura:

 

 

Cosmos sentipensante erótico donde lxs sujetxs decoloniales   desbaratan el poder de la ideologia visual, la represión de los sentidos y la obsesión eurocéntrica por el realismo óptico que bloquea el flujo de la imaginación erótica cósmica. (FERRERA-BALANQUET, 2015, p.40, tradução livre da autora) [4]

Poderiamos dizer que o processo de descolonização do Ser (corporal-mental-espiritual), começa pelo importante exercício de desapego [desprendimento] das formas hegemônicas, para então direcionarmos o olhar mais para dentro e ali nos conectarmos com a ancestralidade, com as (nossas) comunidades (feministas, indígenas, de sexualidade(s) diversas) e nossa matriz.

 

Voltando ao videoperformance Frutofilia, talvez seria interessante assumir o processo, ou a travessia pela qual o corpo passa, como aquela rota de navegação outra, rota decolonial, com o objetivo, sim, de desapegar-se [desprender-se] de quase tudo, de reconstruir-se como “sujeitx cosmos-sentipensante”,  fora do regime “humano” colonial. Frutofilia: Pós-humano Decolonial?

 

 

OS KIWIS COMO PRÓTESE, O DILDO OU O “KIWI-DILDO”

 

Quando pensei no uso do objeto-fruta kiwi para criar uma extensão corporal, ou para possuir um elemento transitório, que eu pudesse usar e descartar à vontade, visualizei um corpo (meu corpo) em um lugar além do feminino, porém sem chegar até o território do masculino, do modo como “masculino” é imposto na sociedade. Imaginei um masculino outro (transmasculinidade?), um feminino outro (transfeminilidade?). Imaginei, na verdade, um corpo em potência, um corpo em reconciliação, num devir constante e infinito, multi-sexual, multi-identidade… Um corpo na exaustiva tarefa e desejo de reinvenção. Por outro lado, existe o desejo do kiwi como uma espécie de prótese poderosa que consiga apagar, ou então ridicularizar um pouco a cultura falocêntrica. “A centralidade do pênis, como eixo de significação de poder no âmbito do sistema heterocentrado, requer um imenso trabalho de ressignificação e de desconstrução” (PRECIADO, 2014, p. 37). O trabalho de desconstrução a que Preciado se refere dialoga com essa vontade em Frutofilia de desestruturar esses lugares fixos da sexualidade, comandados pela heteronormatividade e com o direito de silenciar, punir e apagar qualquer outra expressão que venha de corpos “desviados”, “monstruosos” ou simplesmente livres. Do mesmo modo como o filósofo fala das “variações sintáticas” do dildo, sejam dedos, línguas, braços, pernas ou até pepinos e cenouras, para desmontar o sistema, proponho aqui o uso do(s) kiwi(s) para criar esse corpo contrassexual e a contrassexualidade como maneira de nos relacionarmos.

Não sei se o kiwi se acrescenta ao meu sexo ou o substitui; não importa, talvez a função seja dupla ou multi, talvez seja uma mixagem multifuncional. O kiwi, como o dildo, é um suplemento exterior e permanece fora do meu corpo orgânico. Cito Preciado quando diz que “o dildo é o alien”, e continua: “É paradoxalmente ao mesmo tempo a cópia exata e o que é mais alheio ao órgão; nesse sentido seu estatuto não difere do da prótese” (PRECIADO, 2014, p. 82). Frutofilia é alien, é ciborgue e é contrassexual; é, como diz o filósofo na definição de dildo [5], “o amor reflexivo”.

Frutofilia é – ou tenta ser – a sequência, o trânsito efêmero, o movimento das formas incompletas no momento da desconstrução e da reinvenção do corpo sem gênero – “pós-gênero”  (HARAWAY, 2009, p.39)? –, ou então sem gênero fixo – corpo (des)generado, corpo multi, descomportado”, não normativo, que questiona os limites daquilo que é chamado de feminilidade e masculinidade. O esmagamento dos kiwis não é apenas o esmagamento dos kiwis, é o desejo do esmagamento da estrutura, da norma, do sistema, do patriarcado, da interdição e da “pureza”.  Frutofilia” é  o meu desejo de habitarmos na fronteira do humano-animal-fruta e algo mais, sem sentir a necessidade da separação, sem estabelecer um novo lugar; é o meu desejo de habitarmos a fronteira como estação experimental passageira, efêmera.

Caíram as últimas fortalezas da defesa do privilégio da singularidade (humana) – a linguagem, o uso de instrumentos, o comportamento social, os eventos mentais; nada estabelece, realmente, de forma convincente, a separação entre humano e o animal. Muitas pessoas nem sequer sentem a necessidade dessa separação; muitas correntes da cultura feminista afirmam o prazer da conexão entre o humano e outras criaturas vivas. (HARAWAY, 2009, p. 40)

 

Gostaria de concluir com a esperança que toda reivindicação traz: colocando, mesmo que ficcionalmente, que um Corpo Decolonial aproxima-se bastante daquele letreiro brilhante-néon vermelho que diz “saída”, daquela “luz no fim do túnel" que gera alívio e alegria, dois estados do corpo e da alma que em nossos dias parecem ser atravessa@s pela dor extrema, pelo ódio e a violência ilimitada de uma sociedade que nos rejeita, nos expulsa, nos vomita.Frutofilia, para mim, é essa saída néon vermelho que abraça xs corpos, corpas e corpes que são apagadxs, silenciadxs e mortxs todos os dias, pois como sociedade não estamos à altura do entendimento nem do desejo de entendermos as belas margens. Frutofilia, que nasceu em resposta à censura e em busca da descolonização, seria, hoje é claro, aquele abraço homenagem para quem há muito pouco tempo foi assasinada saindo de uma festa no Rio de Janeiro, vítima de transfeminicidio, morta por ter um “corpo estranho”, não binário, nas margens das margens, na luz da luz: Matheusa Passareli, “Theusa”, artista, performer, modelo, corpa belamente estranha, brilhante, luminosa, especial, transgressora, contrassexual, livre, decolonial. #matheusapresente.

referências bibliográficas

FERRERA-BALANQUET, Raúl Moarquech (Org.). Andar Erótico Decolonial. 1a ed. Cuidad Autónoma de Buenos Aires: Del Signo, 2015.

HARAWAY, Donna e Hari KUNZRU. Antropologia do Ciborgue – as vertigens do pós-humano. Organização e tradução Tomaz Tadeu. 2da ed. Belo Horizonte: Autentica editora, 2009.

MIGNOLO, Walter. Prefacio. In: FERRERA-BALANQUET, Raúl Moarquech (Org.). Andar Erótico Decolonial. 1a ed. Cuidad Autónoma de Buenos Aires: Del Signo, 2015.

NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Schwarcz editora, 2000.

PRECIADO, Beatriz. Manifesto Contrassexual. Tradução de Maria Paula Gurguel Ribeiro. São Paulo: n-1 edições, 2014.

______________. Testo YonquiSexo, drogas y biopolítica. 1ra ed.

______________. Beatriz Preciado y Marianne Ponsford HAY Festival 2014 [vídeo]. Disponível em: https://youtu.be/4o13sesqsJo. Acesso em: 15 de  maio de 2015.

Adaptada. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Paidós, 2017.

TIBURI, Márcia. Queermuseu, Brasil, 2017. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/queermuseu-brasil-2017. Acesso em: 10 de outubro de 2017.

Sandra Bonomini (Lima-Peru, 1981) é artista cênica e performer. Mestranda em Artes Cênicas (Estudos da Performance, do Corpo e da Imagem) na UNIRIO, pós-graduada em Arte da Performance na Faculdade Angel Vianna e Bacharel em Artes Cênicas pela

PUC-Peru. Seu trabalho, principalmente de corpo presente, transita entre a performance, a dança contemporânea e o teatro, e aborda questões de gênero(s), identidade(s), sexualidade(s), feminismos e as violências nelas implicadas. Seu trabalho tem sido apresentado em Lima (Peru), Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Palmas (Brasil), Berlim, Colônia (Alemanha) e Nova York (EUA). Vive no Rio de Janeiro.

[1] Performance ADN do artista Maikon K. que fez parte do Palco Giratório em Brasília, conhecida mostra organizada pelo SESC. A performance era parte da programação e foi apresentada em frente ao Museu Nacional da República, até que foi interrompida pela Polícia Militar e o artista foi detido e levado para a delegacia, tendo seu cenário rasgado (Julho de 2017). O MAM – SP é acusado de pedofilia após performance com homem nu.  A performance “La Bête” (uma releitura da obra Bicho da Lygia Clark), apresentada pelo artista Wagner Schwartz dentro do 35º Panorama da Arte Brasileira, foi qualificada como erotização infantil (Setembro de 2017). A mostra Queermuseu – Cartografias da Diferença da Arte Brasileira (POA) foi cancelada. O Banco Santander se posicionou dizendo que “as obras desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas”. Críticos disseram que alguns quadros representavam “imoralidade, blasfêmia e apologia à pedofilia e zoofilia”. Eram mais de 270 obras sobre diversidade de expressão de gênero. (Setembro de 2017).

[2] No original: “rebelarnos contra esas ficciones políticas que nos constituyen”, “alcanzar una despersonalización crítica que nos lleve a la imaginación colectiva de otras ficciones políticas que no produzcan violencia ni formas de opresión y exclusión.” 

[3] "Desapego" é a tradução que me pareceu mais adequada para a palavra em espanhol "desprendimiento" ou "delinking" em inglês. O “desprendimiento” seria, nas palavras do teórico argentino Walter Mignolo, o primeiro passo até a decolonialidade, o abandono ativo das formas de conhecimento que nos sujeitam e que moldam nossas subjetividades nas “fantasias das ficções modernas” (MIGNOLO, 2015, p. 7).

[4] Cosmos “sentipensante” erótico onde xs sujeitxs decoloniais perturbam o poder da ideologia visual, a repressão dos sentidos e a obsessão eurocêntrica pelo realismo ótico que bloqueia o fluxo da imaginação erótica cósmica.

[5] "A formação da palavra dildo nas línguas latins estaria etimologicamente justificada pela relação com o termo em latim dilectio, amor, gozo, do qual derivam, entre outras, a palavra dileção, vontade honesta de amor reflexivo. De fato, esta última acepção me pareceu um bom significado para dildo: amor reflexivo." (PRECIADO, 2014, p. 199)

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