Inapresentação

Bianca Hisse

14.11.2017

Eu escrevo para afinar minha relação com o mundo. Como se as palavras existissem em um espaço longe de mim, minha escrita é uma prática de aproximação. A escrita é um caminho afunilado, apertado, quase invisível entre os desejos e as necessidades de alguém que vê muito e fala pouco, que mostra muito e explica pouco. Desobediente às minhas expectativas, a escrita sempre me indica um modo possível de estar mais perto do que flutua sem direção no meu corpo. Eu escrevo na urgência de me aproximar. A escrita é a sintonização de um rádio precário, é a busca incessante por qualquer estação que me traga algo além do constante barulho, do absurdo gritante que nos rodeia todos os dias.

 

21.11.2017

“FAZER é fruto da vontade dirigida a uma finalidade, por exemplo, fazer obra, fazer sentido, fazer comunicação, ao passo que AGIR é o gesto desinteressado, o movimento não-representacional, sem intencionalidade, que consiste eventualmente em tecer, traçar, pintar, no limite até mesmo em escrever, num mundo onde o balanço da pedra e o ruído das águas não são menos relevantes que o murmúrio dos homens” [1].

Hoje, trabalhando no estúdio, me deparei com esse trecho do livro do Pelbart. De imediato, pensei: nisso tudo que eu faço agora, que está na minha frente, qual é a importância das minhas mãos?

Descobri o estúdio um tanto confortável, especialmente em agosto, quando o sol demora para se pôr e a luz esquenta tudo o que já fiz na vida. Confesso que apesar da extrema tranquilidade, existe uma apatia transbordante no projeto. Como se apatia pudesse transbordar. Apatia, vazio, indiferença. Sei que arte não é resposta e nem deve ser, mas existe algo aqui que me sugere coisas ainda completamente indiscerníveis na minha linguagem, o que me faz acreditar que talvez leve anos, décadas ou séculos até que algo faça sentido. E a pergunta cada vez mais forte, insiste em dar voltas dentro de mim: mas em tudo o que fazemos agora, ou acreditam que fazemos, qual é a real importância?

Representação exaustiva é o nome do projeto mais simples que eu já me propus a entrar. Até agora, existe na forma de dois vídeos de 7 minutos cada – em um deles eu bocejo e no outro eu rio sem parar. Eles foram feitos para serem exibidos no mesmo espaço, com sons sobrepostos.

Apesar do título, o trabalho vibra em direção à contaminação, de modo que a exaustão agora é apenas ponto de referência do trajeto processual. Algo me faz voltar sempre ao mesmo ponto, à extrema simplicidade, aos gestos mais frágeis, a uma vontade de agir sem que se saiba onde estou. Estou fascinada pelas possibilidades físicas de algumas ações, e pelo fato de muitas vezes elas serem tão mais fortes do que suas possibilidades representativas.

Eu tenho buscado obsessivamente outros caminhos para a representação. Talvez o caminho seja de costas, de olhos fechados – esquecer a representação e abrir os olhos para a ação. Ela fala comigo e me diz que também não sabe a que veio. Entendo que bocejar sempre significará algo aos olhos de quem vê, sempre representará algo a partir de algum contexto. A representação é o próprio trabalho, no sentido de que quanto mais eu tento apagá-la, mais o trabalho desaparece das minhas mãos.

O desaparecer das mãos é também um alívio – talvez assim o trabalho reapareça em outro espaço, com outra forma, longe de mim. No entanto, nesse intervalo de tempo entre o ser e o desaparecer, o trabalho me mostra a potência da representação ambígua, da representação incerta de sua existência. Aí reside a força incontrolável do trabalho em tentar permanecer enquanto morre a cada vez que eu o apresento.

“O inimigo da repetição é a ordem da mera representação: um modo de pensamento que tenta trocar uma coisa por outra, fazer uma coisa significar outra, de acordo com uma lógica essencialmente capitalista de troca e equivalência” [2].

25.11.2017

Venho falando há algum tempo sobre ação e funcionalidade, e se é possível manter uma prática artística cuja direção não seja um projeto visível, mas uma simples intenção de existência. Representação exaustiva para mim nunca se afirmou como um projeto elaborado, mas como uma intenção de utopia em meio à descrença que me assola diariamente, em todas as esferas da vida. Eu gostaria de romper de vez com o agir funcional, com o pensar útil. Eu gostaria de romper violentamente com os objetivos minunciosamente planejados, com tudo o que me conecta a uma necessidade de certeza no futuro, com a palavra que precisa sempre ser algo a mais.

As palavras existem e isso já basta para a escrita. Talvez por isso os assuntos estejam sempre tão intimamente ligados às escolhas formais, aos modos de estruturação. O assunto está na estrutura assim como o discurso diário está na pele, músculos, ossos e articulações. Representação exaustiva é minha utopia pela apresentação mais despretensiosa, pela representação mais inexata. Tão vaga que se abre inteira no ato de apresentação, torna-se muitas ao mesmo tempo. E enquanto as representações se confundem, as apresentações do trabalho mostram que a ação se efetiva na sua maior fisicalidade: contamina o observador e o faz performar junto, mesmo que timidamente.

A risada é uma reação ambivalente, um alívio ao desvio da norma mas também uma repreensão sarcástica para voltar a ela [3].

 

 

 

28.11.2017

Os projetos continuam a existir mesmo muito longe da gente.

30.11.2017

Um projeto que começa acidental tem a vantagem de ser tudo e nada. Há algo curioso em não saber com exatidão do que se trata a proposição mesmo meses depois de realizada. Haverá resposta? Sei que me mantenho na resistência contra representações convencionais do meu corpo enquanto performer e artista. Reconheço a fraqueza que é não conseguir formular uma conclusão para o problema.

O trabalho não termina nunca. Ainda me incomoda o quanto tudo é inacabado, desajeitado, inapresentável. Em algum nível, me parece que esse é um bom modo de representar o mundo: inapresentável, impossível de se apresentar. E em tudo o que eu acredito fazer agora, a maior importância talvez esteja mesmo em não afirmar de imediato, não fazer uso de ferramentas ilusórias ou enganosas em prol de qualquer argumento que nos convenha.

Reconhecendo minha enorme impotência de certeza como força de resistência demorada, pequena e persistente, eu posso apenas desejar que meu trabalho se afirme no tempo.

Bianca Hisse é performer. Mestranda em Arte Contemporânea pela Kunstakademiet i Tromsø, Noruega. Investiga o corpo na performance e suas relações com a filosofia, propondo modos de reinvenção da ação e da representação. É graduada 

em Comunicação das Artes do Corpo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

[1] PELBART, Peter Pal. O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento. São Paulo: n-1 edições, 2013

[2] PDILLION, Brian. Eternal return. In: Failure (Documents of contemporary art) . Trad. da autora. London: Whitechapel Gallery & The MIT Press, 2010.

[3] REISER, Jörg. All of a sudden. In:  Failure (Documents of contemporary art). Trad. da autora. London: Whitechapel Gallery & The MIT Press, 2010.

Still de video. Representação exaustiva, 2017, Bianca Hisse

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