[

Em cena, uma pessoa sentada numa cadeira, envolta num edredom branco, com duas meias diferentes, minhas, cobrindo o pé. 

O que ela diz está escrito dessa forma. 

Já o que aparece escrito em itálico, deslocado para a direita, 

é a notícia dita por uma voz em off. 

 

O que aparece iluminado em preto é o que eu digito ao vivo, na tela do fundo, durante.

]

 

--

[A pessoa já está diante de você quando chega essa 

voz, de outro lugar, dizendo]

Durante anos, os cientistas estiveram intrigados com as "pedras que andam" na região remota do Vale da Morte. O Vale fica em uma depressão árida no Deserto de Mojave, na Califórnia. Algumas destas pedras chegam a pesar 300kg.


O estudo começou há alguns anos, quando um biólogo e um engenheiro transportaram alguns equipamentos até o lago seco onde elas são encontradas.

Mas, nesse primeiro estudo de 2011, nada aconteceu. As descobertas vieram só depois que/

[SIMULTÂNEO]

 

 

Mas desde então você começou a desenhar, não é?

Ainda tô aprendendo a desenhar.

As pedras parecem se mover por conta própria, deslizando através do leito plano da lagoa seca. Os rastros deixados por elas são a única evidência de que as rochas se movem. Mas nunca ninguém presenciou seus movimentos.

Helena foi na primeira escola. Meus órgãos tavam naquele alongamento de preparação pra

não se sabe o quê
E eu vivia correndo, correndo,
correndo.
Um dia, parada, reparei: Helena faltava uma orelha.

Eu achava que era todo mundo que tinha

as partes repetidas

Como essas duas pernas que corro, uma de apoio pro movimento da outra, um pé ainda

deitando, o outro já na ponta,
as duas raramente no mesmo
(menos quando paradas; mas que a pessoa, anulado o movimento,

Não conta).

E mesmo pro escuro

não existe um meia-entrada, essa coisa de inventar um desconto do corpo, se o corpo

o corpo quer entrar sem cálculo em tudo.

Aquele lugar da falta de orelha da Helena tinha costura, uma pele da pele apertada contra a

outra, esse esforço
de acabamento.

Eu ficava olhando, na dúvida se era caso de perda

2-1=1
ou do que nunca houve
1+0=1.

Aí depois bem mais tarde

eu tava sentada no canto do chão, onde lá na frente um homem tava dando uma palestra.

De repente ele pergunta: qual a dimensão de um ponto?

Um garoto de cabelo encaracolado responde, distraído:

“O infinito? Pra todos os lados?”

O homem pausa.
E nega.
Um ponto não tem dimensão.

Um quadro pode ficar pendurado por anos, sem cair.

 

 

Então o problema é descobrir quais eram as suas bebidas e seus pratos preferidos, e os lugares, e descobrir se eles ainda existem.

No estudo, os cientistas revelaram que placas irregulares de gelo fino, parecendo painéis de vidro quebrado, fazem com que as rochas deslizem em todo o lago inundado – (algo que é raro, mas pode acontecer em alguns invernos).

AQUI

Já chegamos a um estágio em que não há volta. Por exemplo. Grande parte da estrutura dos séculos XIX e XX foi construída nas cidades costeiras. Se o nível do mar subir seis ou sete metros, muitas dessas cidades não vão poder mais existir, simplesmente.

Vão desaparecer.
Ou talvez tenham que ser deslocadas.

O frio é um membro do corpo.
Você pode comprar meias, até luvas, mas não existe casaco pro rosto.

Ele precisa se dar às conjunturas da cena, aos golpes de estado, um rosto precisa

do tempo, uma mulher
é obrigada a ter um rosto

a mais
pra ocultar.

A ciência da navegação. A teoria da incerteza.
Criar um país tão pequeno, a ponto de que toda a população só possa estar do lado de fora.

De acordo com eles, impulsionadas pelos ventos suaves, as rochas parecem um hidroavião que desliza na superfície de lama gelada.

[A pessoa pausa, olha para a projeção em branco]

Você lembra? A primeira vez eu disse que te amava?

A gente tava deitada, na cama. Bem perto. Então eu disse baixinho. Só que passou um caminhão de lixo, lá fora, bem na hora, e abafou completamente a minha frase.

Você não ouviu.

“Pode levar uma década para acontecer eventos de chuva ou neve bastante pesados para criar uma lagoa substancial. E a maioria dos deslocamentos ocorre quando está frio, chovendo, ventando, o que dificulta capturá-los”, disse o principal autor do estudo, Richard Norris.

Eu sei que as causas mais comuns das suas viagens são sobrecargas ou improvisações elétricas

ou pontas de cigarros atiradas

E eu insisto
na mania
de guardar fósforo apagado

de volta na caixinha
onde nada pode acontecer

Muitas teorias já diziam que o movimento das rochas tinha relação com vento, água e gelo em camadas grossas, mas nenhuma havia citado o gelo fino.

Mas eu não sei como

ou se termina. A louça não acaba, a ressaca não acaba, a lista de coisas

que ainda temos que fazer
não acaba, um saco plástico pode durar até 100 anos, eu nunca vi nada morrer.

Quando era pequena, meu avô me disse que só
os cachorros
morriam.

E eu nunca conheci mesmo ninguém
que morreu, é, as pessoas que eu conheço
tão vivas, quer dizer, ainda nunca morreram, a não ser o meu avô

mas ele tinha Alzheimer, vivia na memória dele
20 anos atrasado,

quando ainda morava em Volta Redonda, uma cidade

bem menor que essa.
Ele morreu há 7 anos atrás, aqui,
mas eu respeito
o tempo dele

(20 anos atrasado)
então isso quer dizer que ele só vai morrer daqui...

a 13 anos.

Tem algum tempo que todo dia eu acordo

faço dois ovos mexidos
e deixo a frigideira na pia.
Só pela duração das coisas sujas

duração das coisas

que colam.

"Eu tenho que confessar que fiquei surpreso. Eu realmente esperava que a flutuação fosse uma exigência, mas claramente não era. O gelo era muito mais fino do que eu pensava ser necessário”, disse o coautor, Ralph Lorenz.

As coisas bonitas precisam conviver com o óbvio, algumas margens.

Tem um artista, que eu esqueci o nome. Ele vendeu um trabalho invisível pra um colecionador.

*O colecionador pagou pelo trabalho e recebeu um certificado por ele. Pro colecionador era mais como uma espécie de diversão, “vamos comprar um trabalho invisível!”, mas ele ficou surpreso quando, três semanas depois, recebeu uma ligação avisando que o trabalho invisível seria entregue na sua casa. Então, exatamente na hora combinada, às dez da manhã, o caminhão chegou e seis entregadores com luvas brancas desceram para carregar o trabalho invisível pra dentro da casa. Eles entraram e perguntaram, de forma muito séria, onde o dono da casa queria que colocassem a peça. Ele disse“perto da janela”, e os entregadores responderam “não, não, ali tem muita luz. A peça é muito frágil.” E o colecionador indicou outro lugar.

Mas e agora?

Como esse espaço vai funcionar?

(...)

[PROJEÇÃO DA IMAGEM 1]

 

Devíamos falar sobre isso com arquitetos.

Tudo começa com a chuva. O lago, que geralmente é seco, ocasionalmente inunda no inverno, com chuva ou neve derretida. Como ele fica a cerca de mil metros acima do nível do mar, sendo rodeado por montanhas, as temperaturas noturnas podem cair abaixo de zero. Com isso, os lençóis do lago temporário ganham uma camada de gelo fino.

Eu sei que se chego – você também – se qualquer pessoa chega num lugar que não tenha a sua padaria, ou a sua esquina, um lugar que você não pode chamar ninguém pelo nome, e suas pernas parecem estar dispostas a andar por todo o tempo – sempre te olham, e perguntam

se você tem onde

ficar.

O gelo da superfície deve ser fino do tipo "vidro",

[SIMULTÂNEO]

 

mas forte o suficiente pra quebrar

mas forte o suficiente pra quebrar

O que acontece nas repetições?

Eu não vou ficar

Me repetindo

Eu não vou ficar

Me repetindo
Eu não vou ficar me

Repetindo
Eu não
Vou ficar
Me repetindo

Eu não vou ficar.

O Ítalo me disse que todas as células dos nossos lábios

mudam
de 6 em 6 meses.
A Joana, que os desertos

não param de crescer

pelo mundo.

E você sabe,

os caminhões de lixo também não pararam

de passar.

Por fim, as noites geladas devem ser seguidas por dias ensolarados, com ventos fracos, que quebram o gelo, gerando o movimento das pedras. Depois que o solo seca novamente na primavera e verão, os rastros continuam por lá.

Uma série de tempestades de inverno criou as condições perfeitas de dezembro de 2013 a fevereiro de 2014, quando as imagens foram registradas. Centenas de rochas se arrastaram cinco vezes em 10 semanas.

Basicamente, as pedras se movem cerca de um minuto em um milhão de minutos. Pra ver, é preciso estar lá, na hora exata.

[PROJEÇÃO DA IMAGEM 2]

 

 

 


[A pessoa se levanta e tapa, com um pedaço de papel, o “não”]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

é bonito os caminhões aconselharem

mantermos
a distância, como uma coisa a se guardar

eu sei que se um objeto for solto no espaço

ele permanecerá na mesma velocidade até se

chocar com alguma coisa

e por acaso foi você que me disse
os astronautas trouxeram 380kg de rochas

quando voltaram da lua e eu perguntei

quanto você vai levar

eu tenho comido tão pouco

 
 
 
 

notas

 

Isso que é raro mas pode acontecer em alguns invernos foi encenado, em apresentação única, com o ator Caio Riscado, na mostra Misancene, idealizada e produzida por Julia Tavares e Michel Blois. A mostra ocorreu no dia 19 de junho de 2017,  em Botafogo, no Rio de Janeiro.

A imagem 1 é um frame retirado de videorreportagem da TV Cultura a respeito das pedras que se movem. O vídeo está disponível no YouTube (https://goo.gl/Xa68w8).

A imagem 2 é de um carimbo do projeto CARIMBARIA, de Keli Freitas, do qual eu fiz parte.

As fotografias 1 e 2 são de Michel Blois, tiradas durante a apresentação.

O parágrafo marcado com asterisco (*) é retirado de uma entrevista concedida por Marina Abramovic a Hans Ulricht Obrist, publicada em: OBRIST, Hans Ulrich. Entrevistas – Vol. 6. Rio de Janeiro: Cobogó, 2012.

A voz em off foi gravada por Lucas Lacerda. A produção foi feita por Gabriel Naumann e Patrick Sampaio.

 

 

Este texto foi dito por Caio, em confiança.

Este texto é para Keli Freitas, uma despedida.

Maria Isabel Iorio (Rio de Janeiro, 1992) é poeta e artista visual. Formada em Letras, pela PUC-Rio, e pela EAV, em Práticas Artísticas Contemporâneas, em 2015. Publicou Em que pensaria quando estivesse fugindo, em 2016, pela Editora Urutau. Pesquisa o futuro da água na cidade e no corpo. Reúne alguma coisa aqui: https://mariaisabeliorio.myportfolio.com.

© 2019 por Revista Ensaia

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