Notícias do front tapajônico:

um relato de viagem

Fábio Zuker

Este breve relato de viagem, mistura de ensaio e reportagem jornalística, é o primeiro texto que escrevi, embora desde então outros já tenham sido publicados, a partir de vivências em contextos de lutas políticas na Amazônia, dos quais tenho aos poucos me aproximado. Trato, aqui, particularmente, das resistências feitas por baixo às recentes ameaças de destruição da Amazônia, um processo marcado pela expansão sem precedentes do agronegócio e da mineração, e pelo barramento dos rios. Não busco uma análise de complexidade acadêmica ou tampouco analítico-explicativa, mas sim fazer reverberar os debates que aconteceram ao longo da Caravana em Defesa do Rio Tapajós, em 2016, e na viagem como um todo.

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Nós não precisamos dessa ponte,

nós não queremos essa ponte.

Nós queremos passar por dentro da água.

Nós queremos passar por dentro dos rios

 

(Sônia Guajajara, durante ato

A voz dos que lutam pela Terra,

Teatro Oficina, 06/06/2016)

 

I

 

Itaituba (Pará) é uma cidade estranha, uma cidade pós-garimpo no Alto Tapajós, coração da Amazônia, que, durante o boom da busca pelo ouro chegou a ter o aeroporto de aviões de pequeno porte mais movimentado do mundo. Hoje a presença do garimpo é tamanha que restam poucas dúvidas sobre a contaminação dos rios por metais pesados, tais como o mercúrio. Entretanto, é a presença dos portos de escoamento de soja nas margens do Rio Tapajós ao redor da cidade que são as que mais chocam quem na cidade de barco chega. Suas ruas largas, cheias de terra, com uma infinidade de comércios sobrepostos, deixam marcado que estamos em uma pequena cidade latino-americana inundada de mercadorias as mais diversas, como tantas outras no continente. Foi nesta cidade, no final de agosto de 2016, que indígenas, ribeirinhos e militantes da região do sudoeste do Pará e do norte do Mato Grosso se reuniram para a II Caravana em Defesa do Rio Tapajós, seus Povos e suas Culturas.

 

Distante vinte quadras da orla onde havíamos desembarcado, e na qual estavam atracados os barcos nos quais dormíamos, as poucas árvores da praça onde nos concentrávamos para o início da Caravana tornavam difícil a permanência no local. Apesar do horário já avançado, pois a concentração estava marcada para às 17h, o sol e o calor eram insuportáveis: com cerca de 65% de umidade e 37 graus celsius, a sensação de estar em uma sauna aberta era avassaladora tanto para os que não vinham de lá, quanto para pessoas de outras regiões de clima mais ameno do próprio Pará.

 

Dois grupos ocupavam o espaço da praça: um formado pelos indígenas, no canto, com cerca de 400 pessoas, segurando cartazes e faixas; e o grupo de movimentos sociais com estudantes universitários, professores e militantes, com cerca de 300 pessoas.

 

O grupo indígena era formado em sua grande parte por guerreiros e guerreiras do povo Munduruku, que protagonizou uma luta vitoriosa contra o projeto de construção da Usina Hidroelétrica de São Luiz do Tapajós. Os Munduruku, diante das ameaças representadas pela hidroelétrica que inundaria seu território ancestralmente sagrado, e o vacilo do governo federal em demarcar as suas terras, iniciaram um processo de autodemarcação de seu território ancestral. Por diversos motivos, entre eles a pressão Munduruku e da sociedade civil, mas também a queda na produtividade brasileira, o governo recuou. Ao longo de toda a caravana, a vitória Munduruku – ainda que parcial, já que as ameaças seguem – era tida como o modelo de estratégia a ser utilizado também por outros povos e territórios. Diante das ameaças oriundas dos monstruosos projetos de infraestrutura na região, as próprias comunidades estabelecerem seus protocolos de consulta acerca dos projetos é fundamental – assim recusando que governo ou multinacionais imponham os termos da consulta.

 

Depois de quinze minutos de dança indígena, que conseguira agregar os dois grupos no mesmo canto da praça, começara a caminhada rumo às margens do Rio Tapajós, onde tiveram lugar as solenidades de abertura da caravana, com a presença para muitos emocionante, para outros incômoda, do exército tocando o hino nacional e falas protocolares de abertura, realizadas por lideranças indígenas de povos de localidades diversas, membros da igreja e do movimento social Tapajós Vivo, organizador da caravana.

 

Foi, entretanto, a caminhada, ou melhor, a marcha encabeçada pelos índios Munduruku que mais marcaram a mim e à minha namorada e companheira de viagem, Natália. Ao primeiro sinal de que a caminhada se iniciaria, os índios prontamente pararam a dança e saíram andando a passos ligeiros e determinados para a frente do grupo, deixando clara a sua importância ali. Não era um corpo similar ao dos inúmeros atos em que estive presente, caracterizado por um certo molejo e apreensão, preparado o tempo todo para fugir diante de uma agressão policial. Não. Ali era um corpo da caça e da guerra, dirigindo-se veloz por caminhos tortuosos, em uma direção que desconhecíamos, e apesar de estarmos os dois habituados a práticas físicas, tínhamos muita dificuldade em acompanhar.

Fábio Zuker é antropólogo, pesquisador e ensaísta. Realizou seu mestrado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris). Sua dissertação, Les frontières de la modernité: temps, art contemporain et politique, trabalha sobre as mudanças nas relações entre tempo e política a partir de trabalhos de arte contemporânea. Suas 

pesquisas se desenvolvem em diferentes formatos, como artigos, ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema. Participou da retomada do espaço cultural autônomo Casa do Povo (São Paulo) e foi curador assistente do projeto Nova Jerusalem, que integrou a XXXI Bienal de São Paulo, curado por Benjamin Seroussi e Eyal Danon. No México organizou a mostra audiovisual Cinemasoquismo, e o seminário transdisciplinar Fronteiras da Modernidade. Em 2015, junto a Isabella Rjeille e Mariana Lorenzi, foi curador da exposição Frente à Euforia. Foi curador adjunto no processo de reconfiguração do projeto VilaItororó Canteiro Aberto. Prepara-se para um trabalho de campo e pesquisa de doutorado sobre resistência indígena no Baixo Tapajós.

Foto: Ana Mendes.

II

A Quarta Guerra Mundial já começou, anunciava o Subcomandante Marcos, do Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN), em 1999. Para ele, certas constantes poderiam ser aprendidas a partir das grandes guerras que marcaram o século XX: conquista de territórios e reorganização geopolítica, destruição do inimigo, administração da conquista. Apesar de existirem padrões, “há uma série de variáveis que mudam de uma guerra mundial à outra: a estratégia, os atores, ou seja, as partes, o armamento utilizado, e, por último, as táticas”, afirma ele. 

 

Devemos levar a sério o vocabulário bélico utilizado todo ao longo da caravana, e nas conversas mais comezinhas do dia a dia com diversos moradores do Rio Tapajós: “adversário não! Inimigo!”, afirmava exaltado um dos padres organizadores da conferência, jurado de morte diversas vezes. “Adversário”, continuava, “é o Flamengo do Botafogo, nós somos inimigos desses projetos.” “Estamos em luta, eu morrerei lutando”, afirmava um cacique do baixo Tapajós, que se reconhece como indígena há vinte anos.

 

É a gramática da guerra contemporânea, as novas tecnologias de exercício do poder de mando e dominação de corpos e territórios que se torna visível. Segundo o Subcomandante Marcos, a Terceira Guerra Mundial consiste na Guerra Fria; eliminado o inimigo comunista, quem seriam aqueles a serem destruídos, e por quem? Certamente, essa Quarta Guerra Mundial, em escala global, conquista territórios, destrói inimigos e administra a conquista desses territórios. “Essa Quarta Guerra Mundial usa o que chamamos de ‘destruição.’ Destroem os territórios e os despovoam. No momento em que se faz a guerra, se tem que destruir o território, convertê-lo em deserto. Não por afã destrutivo, senão para reconstruir e ordenar.’’

 

Outro elemento característico dessa Quarta Guerra Mundial seria a multiplicação dos fronts de combates para os rincões os mais diversos: de desertos a florestas, fundo do mar a montanhas, rios e ar. O ambiente não é um mero cenário sobre o qual a guerra se trava, mas aquilo pelo que se luta, em uma concepção política marcada pela infinitude de recursos e possibilidades, e um modelo econômico que se estruturou excluindo a variável do tempo histórico.

 

Mas talvez o elemento mais perturbador diante dessa situação de guerra seja a dificuldade em concebê-la como tal. Se seguimos a argumentação de Subcomandante Marcos, já a Terceira Guerra Mundial era, por razões geopolíticas que não cabem serem abordadas aqui, difícil de ser compreendida como um conflito mundial. Mas mais do que seguir argumentando quais são as especificidades da Quarta Guerra Mundial, a pergunta mais relevante seria: por quais razões os atuais conflitos em escala mundial não são reconhecidos como uma guerra em escala global?

 

A concepção de que existe apenas um mundo, uma natureza, passível de ser apreendida, examinada, inquirida e administrada a serviço do homem, e são os homens brancos os que melhor sabem como fazê-lo, é o coração dos motivos pelos quais não se chega a conceber tais expansões como uma nova Guerra Mundial.

 

A região da Bacia do Rio Tapajós está na nova fronteira da expansão agrícola e industrial do país. Cerca de 43 hidrelétricas estão planejadas, além de mineradoras, madeireiras, e desmatamento para o plantio de soja. O número de projetos, e as volumosas cifras monetárias envolvidas, parecem corroborar a tese de que existe uma guerra sendo travada ali, em que a destruição da natureza e dos modos de vida de milhares de pessoas diretamente dela dependentes visa despovoar a área, torná-la rentável para os interesses de poucos, e criar corpos aptos a trabalharem e consumirem no modelo capitalista ocidental. Uma guerra que muitos podem não ver como tal, mas que tem uma dimensão eminentemente pedagógica: só o ocidente-moderno-capitalista conhece verdadeiramente o mundo, e ensinará, à força, todos a enxergá-lo e nele viverem do mesmo modo.

 

Não obstante, é o modo como diferentes povos vêm se organizando e lutando nessa guerra que vem acompanhada de outros possíveis desdobramentos e invenções de mundos.

Foto: Ana Mendes.

III

O vento frio que sacudia o barco e as redes na saída de Belém rumo ao rio Tapajós fora mais que inusitado. Nas minhas viagens anteriores de barco pela Amazônia ainda não havia me deparado com ondas, ventos e balanço do barco, o que foi um pouco assustador. Na rede, apinhado entre a parede do barco, minha companheira e um casal de viagem, tentávamos ignorar um pouco a tormenta, buscando um sono que tardava a chegar.

 

Dois dias e muitas horas de barco. Havíamos escolhido esse caminho para passar por Belém e poder, precisamente, passar tantas horas no barco. Quase como um rito de passagem, a estadia em um mesmo barco atravessando centenas de quilômetros, passando por paisagens deslumbrantes da mata, é o inverso da experiência de se pegar um avião. No barco, o tempo dilatado nos permite uma transição lenta de uma realidade à outra. Além disso, cria-se um micro-cosmos: o despertar e o adormecer cedo, a rotina que se constrói ao redor da espera do almoço e do jantar, o bar no último andar com um sol implacável, e uma uma verdadeira guerra entre músicas evangélicas e de bregas com tonalidades sexuais.

 

Do avião podíamos ver do alto a expansão da fronteira agrícola sobre a Amazônia. No que imagino ser a região entre Tocantins, oeste do Maranhão e sudoeste do Pará – o avião não tinha aqueles mapas que costumeiramente acompanham e indicam o lugar que sobrevoamos –, da floresta restavam apenas pequenas ilhotas, como que flutuando, isoladas umas das outras, entre mares de terra arrasada para plantações e pasto de gado.

 

Do barco, porém, imersos em outro tempo, tendo ao nosso redor apenas mata e um volume incomensurável de água, visualizar a presença de uma clareira, de quilômetros e quilômetros de terra desmatada, ou passagens de cargueiros inteiros repletos de madeira, era uma experiência chocante. Como comentou Natália, uma coisa é saber que tais desmatamentos acontecem; outra totalmente diversa é quando a experiência se torna palpável, quebrando o ritmo e encantamento produzido pelo local.

IV

Durante a caravana, um dos momentos mais potentes foi coordenado por uma liderança feminina Munduruku, que esteve a frente de uma mesa na qual indígenas de diferentes povos falaram. O tema da descolonização do saber, e das práticas de gerar conhecimento, mostrava então a centralidade que ocupa. No mesmo dia, um pouco mais tarde, um pescador levantou a mão para apresentar aos demais presentes, de modo brilhante e muito bem articulado, a necessidade dos próprias pessoas que vivem no rio participarem dos processos de estudos científicos sobre os locais onde moram, e que visam, na maioria dos casos, conceder a licença ambiental para a construção dos projetos monstruosos de infraestrutura. Ele contou que, junto aos demais pescadores de determinado trecho do Rio Tapajós, questionaram o estudo científico de que haveria, na região para a qual estava prevista uma central hidrelétrica de médio porte, apenas três pontos de desova de peixe. Segundo os pescadores, ali existem cerca de 92. A informação foi anexada ao processo legal, e faz parte das ações que retardam a licença ambiental, e podem levar ao seu cancelamento.

Foto: Ana Mendes.

Em tempos de tecnopolítica, a descolonização do conhecimento é uma verdadeira arma de guerra. Conversando com um jovem que milita e trabalha com política indianista, em sua casa a beira do Rio Tapajós, ele contou o caso de cientistas que fizeram o estudo por diversos meses em território Munduruku, para apresentar a biodiversidade local e os efeitos catastróficos que a construção da usina de São Luiz do Tapajós teriam. Durante a apresentação dos resultados de sua pesquisa, um índio Munduruku questionou: “Muito interessante esse estudos. Mas você ficou quanto tempo analisando o rio? Oito meses? Um ano? Falta muita coisa aí, por que você não perguntou para nós, que estamos vendo esse rio há dez mil anos?”.

V

“Assim, índio como nós, tudo misturado, puro não, né?”, afirmava Seu Bata, morador da Floresta Nacional do Tapajós, a respeito das demais pessoas que viviam nas cercanias de onde morava, enquanto caminhávamos um tanto atordoados, na densidade da floresta e pela quantidade de informações; trilha a ser percorrida, troncos para não tropeçar, animais e plantas para ver. Guia para caminhadas, a relação que Iracildo (este é seu nome) tem com a floresta é de deixar qualquer habitante da cidade sentindo-se como um ignorante: o conhecimento dos poderes de cura de cada planta, a prática de um corajoso caçador que se vangloria de sua bravura, o receio de que maus olhados e encostos pudessem deixar suas filhas doentes. Pouco a pouco fomos percebendo que estávamos ouvindo o conhecimento e a forma de ver o mundo de um pajé.

 

Estava relutante entre colocar esse último trecho ou não, mas acredito que tal experiência, e a que segue, não sejam meramente anedóticas. Elas dizem algo a respeito do que a antropologia vem chamando de uma inconstância: uma certa instabilidade, uma recusa à  ideia de pureza tal como se apresenta no pensamento cultural ocidental. A famosa e controversa frase de Eduardo Viveiros de Castro, “no Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é’’, em entrevista concedida à edição do livro Povos Indígenas no Brasil, ganha outra dimensão.

Foto: Ana Mendes.

Nosso imaginário permanece, por mais críticos que nos queiramos, colonizado por uma concepção de cultura demasiado purista e estável (que está na raiz, aliás, de inúmeros conflitos políticos e genocídios realizados no ocidente ou por ocidentais em nome da civilização contra a barbárie). Em um processo de descolonização do conhecimento, é a essas outras formas de conceber a realidade e aquilo que entendemos por identidade cultural que devemos estar atentos. 

 

O cacique do baixo tapajós que pedira para não ser identificado por temer a sua vida (o mesmo cacique que afirmou que morreria lutando) veio conosco no barco de Santarém a Itaituba. Ele diz reconhecer-se como índio há cerca de vinte anos, e há treze é considerado uma liderança. Morava com a sua família à beira do Rio Tapajós quando os madeireiros ilegais atearam fogo nas casas e mataram as famílias que ali viviam. Fugido para a Reserva Extrativista do Tapajós-Arapiuns com mais algumas poucas pessoas que sobreviveram, lá reconstruiu a sua vida.

 

A Quarta Guerra Mundial é caracterizada por um invólucro de legalidade (são muitas vezes empresas multinacionais os principais atores da transformação) e pela intensidade com que os atos violentos acontecem: a cada mês, madeireiros e fazendeiros ameaçando famílias, membros do governo propondo mudanças no local, mineradoras retirando do fundo do subsolo metais pesados. Se para uns o tempo político que ainda pressupõe recursos infinitos e um modelo econômico sem tempo são a legitimação para expandir para todo o mundo  o seu modo de viver e pensar, para outros, um tempo inconstante, não-linear, ‘’voltar a ser índio’’, ou ‘’nunca deixar de ter sido’’, é mais do que identificar-se com uma nomenclatura cultural, e nada tem de falsificação: é dar nome ao vivido como uma estratégia de sobrevivência de guerra, em uma luta travada diariamente.

© 2019 por Revista Ensaia

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