O pornô político de Bruce LaBruce

Rodrigo Gerace

Bruce LaBruce. Foto: Saad Al-Hakkak.

Ele nasceu Justin Stewart, em Southampton, Ontário, no ano de 1964. Mas logo após concluir o curso de cinema na Universidade de York, em Toronto, adotou o nome artístico Bruce LaBruce para projetar um trabalho autoral permeado de referências que vão de Kenneth Anger a Andy Warhol, do hardcore ao gore, do punk ao cinema político independente. LaBruce passou a juventude como quem vive num filme de Warhol & Morrissey, se interessando por tudo: dos enlatados televisivos aos cultmovies, da pornografia ao underground de Peter Hujar e David Wojnarowicz, de Pasolini ao sadomasoquismo, da sociologia de Herbert Marcuse aos fanzines anarquistas.

Assim, desde cedo, engajado na política da sexualidade, LaBruce produziu magazines homo-punks que faziam ode ao movimento queercore, de subversão aos valores sociais, estéticos e sexuais normativos tradicionais. A sexualidade é pensada então num âmbito plural, sem categorias, gêneros ou identidades pré-definidas, funcionando como uma transgressão dentro do próprio universo pornográfico tradicional. Nesta perspectiva LaBruce reinventa a ordem das coisas para criar um novo universo pornográfico transgressor em que sexo é representação explícita, mas também metáfora de comportamentos, afetos e condições sociais de nossa época.

Rodrigo Gerace (São Paulo, SP) é sociólogo formado pela UNESP, com mestrado e doutorado em Cinema pela UFMG e Universidade Nova de Lisboa. Pesquisador, crítico e professor de cinema, escreveu a dissertação O cinema de Lars Von Trier: dogmatismo e subversão e, recentemente, publicou sua tese Cinema-explícito: representações

cinematográficas do sexo (2015), pela Editora Perspectiva e Edições SESC.

Como cineasta, produziu diversos curtas-metragens experimentais como Slam (1989), Home movies (1989), I know what it’s like to be dead (1988), Boy/Girl (l987), longas como No skin off my ass (1991), Super 8½ (1994), Hustler White (1996), Skin Flick (1999), The Raspberry Reich (2004), Otto: or, Up with Dead People (2008); L.A. Zombie: the movie that would not die (2010); Gerontophilia (2013); entre outros. Como escritor, publicou The Reluctant Pornographer e Ride Queer, e colabora ainda hoje em publicações periódicas na Vice e Butt Magazine. Eventualmente, no ofício de fotógrafo, realiza exposições individuais em galerias renomadas de Milão, Toronto, São Francisco, Los Angeles, Nova York e Berlim, sendo muitas delas censuradas.

 

LaBruce procura com sua pornografia estilizar um novo modelo de representatividade do sexo no cinema, não-corporativo, radical. A associação do desejo sexual com a morte enquanto metáfora do Eros e Tanathos contemporâneo, tem respaldo, segundo ele, no público conservador que aceita mais a violência extrema do que o sexo: “A violência, e por extensão, a morte, é a nova pornografia. A urgência sexual foi transformada num apetite voraz por violência e carnificina. Sendo assim, ela pode ser considerada como uma mera expressão do “zeitgeist”: vivemos numa sociedade cada vez mais baseada no medo” – declarou.

 

Pornográfico, performático, vanguardista, controverso, indie e político, seu cinema destrói a representação mainstream do desejo sexual ao atrelar novos pressupostos ideológicos e sentidos para o corpo e o sexo enquanto política do desejo. De algum modo, LaBruce subverte a equação pornográfica tradicional: embaralha as próprias regras de transgressão pornográfica para voltar-se à sua ontologia: qual a função política da obscenidade hoje?

 

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A seguir, entrevista inédita com LaBruce, feita por email, em 13/12/2010, após a estreia de L.A. Zombie. Ela integra um capítulo especial dedicado ao cineasta no meu livro Cinema Explícito: representações cinematográficas do sexo (Perspectiva, Edições Sesc, 2015). Trata-se do primeiro livro no Brasil a investigar a obra de LaBruce.

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Em seus filmes, os personagens possuem forte carga sexual. Alimentam-se de desejo, corpos, sangue e vísceras. Neles, o desejo é quase totalitário, urgente.  Ao mesmo tempo em que é concreto e pragmático, também é metafórico. Como é trabalhar a pornografia sob o pretexto sexual e político?

Bruce LaBruce: Vim de uma geração que pensou a ideia da revolução sexual não apenas como algo idealizado, mas também possível. O movimento gay, em especial, desenvolveu-se a partir de uma sexualidade incrivelmente forte, feroz, sem barreiras. Foi um período histórico bastante estimulante e excitante, mas que não tinha muita base. Daí a AIDS veio e deu uma bela freada, pra dizer o mínimo, em todo esse momento. Para muitos artistas e cineastas queer que apareceram no período, a regra era dar uma representação franca e explícita à sexualidade, e isso era naturalmente político. Revelar o ato homossexual, ainda mais no meio altamente politizado e hétero do movimento punk, foi meu modo de ser completamente aberto sobre minha sexualidade – de forma agressiva e indecorosa. Infelizmente, como disse Fran Leibowitz, a AIDS matou todos os caras legais. Tivemos muitos artistas com obras radicais e explícitas (Peter Hujar, David Wojnarowicz, Robert Mapplethorpe, Jack Smith, Fred Halsted) que morreram em decorrência da AIDS. Esta ameaça à população gay inaugurou uma onda de conservadorismo no movimento que está chegando agora ao ápice. Tento resgatar essa tradição da vanguarda gay de fazer arte pornográfica e pornografia artística.

 

A pornografia visual já teve seu poder subversivo no cinema underground dos anos 50/60 e no mainstream dos anos 70. Pensa ainda a pornografia como subversiva ou acha que ela está mais conservadora por disseminar-se em tudo hoje em dia, constantemente normatizada no mainstream?

 

Bruce LaBruce: Acredito que a pornografia é o último bastião da radicalidade gay. Não importa se de forma banal ou desavergonhada, vejo os astros pornô gays como os últimos guerreiros indóceis da revolução sexual. Chupar um pau ou foder um rabo são ainda representações tabu no mainstream, e é nisso que me interessa trabalhar no pornô. Sempre me interessou estar no proibido, representar o que é dito como não representável. Eu amo um tabu! A indústria do pornô está se tornando cada vez mais mainstream... Por outro lado, a pornografia amadora na internet criou um novo tipo de cenário underground. Pois ela é mais acessível, mas ainda é algo que se “deve” buscar e assistir de modo privado. São os NSFW (Not Safe For Work, como são chamados nos fóruns de internet os sites de duplo sentido que contém material explícito).

 

Em geral, cenas de sexo explícito nas artes ainda incomodam muita gente. Por que acha que a maioria das pessoas têm uma visão negativa do sexo explícito? Acha que a pornografia se restringe apenas ao sexo explícito? O que considera como uma imagem pornográfica ou erótica; esta distinção é simbólica?

 

Bruce LaBruce: O principal fator que distingue a pornografia da arte ou do popular é a penetração. É a linha da qual não se deve passar. Eu a chamo de linha do “buraco do cu”. Há uma percepção distorcida e bizarra de que se essa representação for disponibilizada às massas, entraremos em colapso cultural através de uma anárquica orgia de grande permissividade sexual. Assim as pessoas são condicionadas a reprimir sua sexualidade de forma mais severa que o necessário apenas para preservar o princípio de deixar tudo como está. Herbert Marcuse chamou isso de “sublimação repressiva”. A energia sexual é uma energia revolucionária, e os agentes dominantes da cultura não querem que as massas tenham acesso a ela. O que a cultura popular fez para substituir a vontade de sexo explícito foi a larga e indiscriminada difusão e disponibilidade de imagens de violência explícita. Neste sentido, a violência (e por extensão, a morte) é a nova pornografia. Muito da violência explícita envolve também situações sexuais ou é escancaradamente apresentada como substituta da sexualidade – a faca que penetra, as orgiásticas cenas de morte com sangue jorrando. É uma maneira até ingênua de se desviar da proibição à representação sexual na cultura popular, e talvez bastante perturbadora. Claro que não vou me opor ao uso explícito da violência em filmes ou na arte em geral, mas a maneira com que isso é trazido e vendido pela indústria da mídia nos diz muito sobre como é feito o controle do imaginário popular contemporâneo. A urgência sexual foi transformada num apetite voraz por violência e carnificina. Sendo assim, ela pode ser considerada como uma mera expressão do “zeitgeist”: vivemos numa sociedade cada vez mais baseada no medo em que o “velho do saco” da vez são os terroristas, insurgentes e imigrantes. Sobre a distinção entre o erótico e o pornográfico, para mim é apenas uma questão de não entrar no ato sexual. O erótico é supostamente defensável moralmente pois seu maior foco não é o sexo em si mas como ele é preparado, arranjado. O erótico é a pornografia envolta por uma vitrine. A pornografia é mais direta, mas acho que ela também pode ser justificada como arte de muitas maneiras. Na verdade, decidi há pouco tempo que toda pornografia é arte. Afinal ela é um processo criativo.

 

Desde o final dos anos 90, dezenas de filmes do mundo todo abordaram o desejo sexual de modo mais explícito, como nos filmes de Lars von Trier, Catherine Breillat, John Cameron Mitchell, Bruno Dumont, Patrice Chéreau, Vincent Gallo, Michael Winterbottom, Larry Clark, e a recente produção de Christophe Honoré, que também trouxe o ator pornô Sagat. O que pensa sobre o sexo explícito no cinema contemporâneo? Uma tendência?

Bruce LaBruce: A “pornificação” da arte contemporânea não é novidade. No passado você podia ver o mesmo em Jean Genet, Jack Smith, Andy Warhol, John Waters, Oshima, Bertolucci, Pasolini, Bellocchio, Makavejev, etc., etc. Na verdade me surpreende o fato de que não haja mais cineastas usando sexo explícito considerando o quanto ele está naturalmente disponível no mundo. Muitos cineastas considerados mestres expressaram a vontade de experimentar a pornografia – de Hitchcock a Kubrick e Verhoeven. Acho que qualquer cineasta ao menos pensou em usar sexo explícito, pois senão como poderia haver completa fidelidade com a vida? O fato de que ele segue sendo um forte tabu faz com que seja ainda mais necessária a sua representação. O mundo não está se encaminhando para um modelo linear de consciência ilimitada. Na verdade, penso estarmos entrando num período regressivo de superstição e fundamentalismo religioso. Isto mostra uma urgência maior para artistas e cineastas para se expressarem abertamente e sem auto-censura.

 

Como definiria seus filmes?

 

Bruce LaBruce: Um outro cinema. Gosto disso.

© 2019 por Revista Ensaia

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