Os meninos franceses

Francisco Mallmann

1.

 

Não vivemos em apenas um mundo, mas entre dois mundos pelo menos. O primeiro está inundado de luz, o segundo atravessado por lampejos. [1]

 

Então eu disse que reuniria todas as coisas que os meninos franceses me ensinaram durante esse curto período. Eu disse que faria um diário, um registro, não me lembro bem a palavra que usei, para dizer que eu escreveria todas essas coisas em algum lugar. Porque é um tema meu. É uma pesquisa. Coisas para as quais eu olho. A minha vida, a arte. A autoficção. Autofricção. Uma arte que dá a volta e me encontra de frente. Por trás. Pelos lados. A vida que me estapeia, a arte que me espanca. E eram eles, sempre, no fim das noites e das minhas diárias-pequenas-mortes, que me ensinavam coisas. Não que eu estivesse ali para aprender, somente, mas as aberturas – essas, as que cavei lenta e progressivamente – me fizeram apto a receber algumas coisas (às vezes um tiro, às vezes um beijo).  

Francisco Mallmann (Curitiba, 1993)

possui graduação em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP) e em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Atua na intersecção entre poesia, performance, jornalismo, literatura, dramaturgia, filosofia, antropologia e crítica de arte, investigando  junto a

coletivos artísticos em Curitiba, dentre os quais a Selvática Ações Artísticas. Atualmente, especializa-se em Antropologia Cultural pela PUC-PR e é mestrando em Filosofia pela mesma instituição. 

 

Eu sou apenas um poeta, um narrador solitário que cumpre num canto a sua tarefa, dedicando-se a ela por inteiro. [2]

Foto 1. Acervo do autor.

Um longo cabelo do jeito que sempre desejei e nunca fui capaz de ter. Ai! É que eu me canso quando chega àquela altura em que se torna possível colocar o cabelo atrás da orelha. É esse o momento em que eu pego uma tesoura e faço um estrago. Transformo meu rosto, porque corto meu cabelo. Com um desejo infinito de mudar a cabeça e “oh! vejam só! ele tem um novo corte!”. Mas ele, um dos meninos, tinha um longo cabelo. Dizia coisas, sem camisa, sobre como todos nós deveríamos conhecer

todo o universo antes de proferir qualquer conclusão. Isso certamente vai para a cena. Eu não conseguia entender se ele falava metaforicamente ou se dizia exatamente isso: que todos deveriam conhecer tudo antes de falar. Depois de algum tempo entendi que ele estava falando sobre drogas. Ri da minha ingenuidade. E comprovei, mais uma vez, a barreira da língua. Ele decidiu tirar a roupa e me mostrar como é importante dançar nu, de vez em quando. “É sempre tempo para mais uma dose”, ele grita enquanto se enrola em um lençol. Eu comentei sobre as minhas enxaquecas? Você finge não saber, mas também há dor de cabeça nos trópicos. 

Então ficamos embriagados pelo instante, desfrutamos sem escrúpulos dos mais ínfimos prazeres que surgiam diante de nós, nossa angústia era tanta que nos transformou, durante algumas horas por dia, que coisa extraordinária, em jovens normais. [3]

 

Fiz um combinado com um deles (Vincent, o nome). Nenhuma declaração de amor seria feita em língua estrangeira. Tudo deveria ser dito em nossa língua materna: “o lugar em que primeiro tudo fez sentido”! Nunca consegui entender recado nenhum na primeira leitura. Tive dificuldades em entender seus poemas. Precisei fazer perguntas sobre gramática. Eu não tinha o vocabulário necessário. Isso sempre me fez achar que o amor que eu recebia era pouco. Eu falei isso em um telefonema um dia: “eu acho que aquilo de não poder dizer eu te amo na língua do outro fez sempre a gente achar que não era totalmente amado”. A ligação caiu. E nem adiantava. Foi assim, durante o tempo que foi. Sempre eu te amo, nunca je t’aime. Sempre uma olimpíada, fazer o outro compreender o amor estrangeiro. E eu acho que a tontura, porque bebi-demais-comi-pouco-não-dormi-o-suficiente-e-tal, sempre me fez ver as coisas do avesso. 

A única diferença entre imagem e ideia é que, num caso, a expressão do objeto é confusa e, no outro, clara; a confusão deve-se ao fato de todo movimento envolver nele a infinidade dos movimentos do universo e ao fato de o cérebro receber uma infinidade de modificações às quais só pode corresponder um pensamento confuso, envolvendo a infinidade das ideias claras que corresponderiam a cada detalhe. As ideias claras, portanto, estão contidas nas ideias confusas. [4]

Foto 2. Acervo do autor.

 

E houve o egoísmo, em forma bruta, claro. Eu cheguei falando inglês e faltou muito pouco para que cuspissem em mim. Eu me lembro que escrevi no verso de um guardanapo “é isso a geopolítica, então”. Tudo o que você me diz, de repente, me faz lembrar que eu vim do sul. América do Sul é como chamam. Você não acredita na minha formação. Você não acredita na minha introdução literária. Quando eu faço um resumo, você não lê. É absurda essa relação, eu ficava repetindo. Você não pode permanecer em um lugar em que não te levam a sério. Você não pode ficar tentando agradar alguém que, desde o início, desde sempre, já sabe o quão insuficiente é tudo o que vem de você. “Eu não vou ser suficiente” eu escrevi no espelho do banheiro. Georges apagou. Um pano e álcool. A caneta não era tão permanente assim. Eu gostaria de produzir essa tensão no palco – uma relação, envolvendo nacionalidades, entre alguém que tenta arduamente produzir algum efeito e alguém que considera tudo inútil. 

Mas se, por exemplo, ultrapassarem os limites da representação? Isto é, se se deixarem levar até destruírem tudo e tudo substituírem? Sim, sim, sei, há sempre o detalhe falso para lembrar que a um certo momento e num certo ponto do drama, eles devem parar, e até recuar... mas se, levados pela paixão, não reconhecem mais nada e saltam sem hesitar para... (...) a realidade (...) eles serão os mais fortes. [5]

 

andar por uma rua escura com um estranho sem a roupa necessária para o frio sem informações suficientes para chegar ao seu destino com fome talvez um tanto bêbado e sentir uma vontade imensa de beijá-lo e sentir um desejo incontrolável de permanecer ali com esse homem acompanhado pela solidão desse homem que se nega a ritmar seus passos com os meus será um sinal a falta de disponibilidade dele a falta de sensibilidade em não perceber que eu anseio que eu aguardo que ele possa me acompanhar porque eu espero que ele me pergunte as horas ou mesmo qual o metrô mais próximo para então perceber que era isso o que eu precisava andar por uma rua escura e ter de dizer que estou perdido que eu estava esperando ouvir a voz dele e que era isso o que eu precisava uma pergunta direcionada a mim eu precisava disso de algumas poucas palavras tarde da noite no frio em uma cidade que eu finjo conhecer mas que não poderia ser mais alheia à minha presença

Isto que os homens denominam amor é bem pequeno, bem restrito, bem frágil comparado a esta inefável orgia, a esta solta prostituição da alma que se dá inteiramente, poesia e caridade, ao imprevisto que se apresenta, ao desconhecido que passa. [6]

 

Eu acho bonito o jogo de palavras. Eu acho bonito como dar uma opinião insignificante se torna, de repente, um tratado sobre algum assunto. Um manifesto! Que lindo, eles fazem manifestos cotidianos. Eles fumam compulsivamente. Eles não precisam se banhar depois do sexo. Eles são autossuficientes. Sapatos, camisas brancas, relógios de pulso. Um cabelo escuro, sujo e desarrumado. Eu adoro você, Alain. Eu não deveria ter trazido meus chinelos, eu não deveria ficar fotografando tanto. Chega de deslumbramento. Você precisa traçar rotas lúcidas. Você precisa parar de se distrair. Você precisa estudar a língua. Você precisa contar suas moedas. Você precisa parar de se perder nas ruas estreitas. Autocrítica, você precisa. Uma distância. Você viu filmes demais. Você leu os romances errados. As poesias, também erradas. Você estetizou de um jeito idiota. Você é idiota. Eu estou completamente equivocado. Você acha que está apaixonado, mas assim que chegar no seu país vai entender que não era nada disso, vai entender que entendeu errado. Todas as coisas que te dão segurança, isso tudo, é inútil, você vai entender. Ter trazido seu pai, a foto dele no bolso, carregar para todas as partes, isso é inútil. Pequenos amuletos, papéis de carta, fotos antigas, cadernos sem linhas, canetas coloridas. Tudo isso. Necessário e inútil. 

Foto 3 (esquerda) 

Foto 4 (direita)

Acervo do autor.

 

Limito-me a fotografar uma coincidência. [7]

Eu deveria ter dito na hora. Mas fiquei ensaiando no espelho. Porque na hora eu chorei. Eu não sou branco. Eu nunca quis ser branco. Eu não sou negro. Eu nunca quis ser negro. Mas eu levei muito tempo para querer ser quem eu sou, dessa cor, desse tamanho, desse jeito. Quando você me aponta os dedos para dizer que não entende o que eu sou, eu não tenho o que te dizer. Essa responsabilidade, eu não sei se é uma responsabilidade, não é minha. Eu não devo explicações sobre a cor que a minha pele tem, sobre como meu corpo cai ao chão, sobre o jeito que eu me desloco até a porta de saída. Sobre as metamorfoses que o frio desse continente causa em mim. Sobre o meu embranquecimento e sobre todas as nomenclaturas que cabem aqui. Sobre ser latino-americano, sobre ser sul-americano, sobre ser brasileiro, sobre ser do sul-do-brasil, sobre ser estrangeiro, sobre ser um estrangeiro-homossexual, sobre ser um viajante-sem-destino, sobre ser-transitório, sobre não estar em casa. Sobre não ter uma. Falar compulsivamente, durante uma hora, sobre quem eu acho que eu sou.

[A discursivização de si mesmo] É uma relação de si consigo, tão continuada, tão permanente, tão analítica, tão detalhada quanto possível, relação que só pode ser feita e só é eficaz na medida em que é, de ponta a ponta, sustentada por uma atividade de discurso, por uma atividade discursiva que faz que eu mesmo é que me ponho em discurso à medida que sou, à medida que penso, à medida que o fluxo dos pensamentos se apresenta em mim e que devo fazer sua triagem, fazer sua triagem para saber finalmente de onde vem o que penso, para decifrar enfim o poder de ilusão e de engano que não para de me habitar de ponta a ponta da minha existência. [8]

 

Não é como se não fôssemos jovens, ainda, eu falei para um deles. É só que estamos sofrendo de uma angústia que parece crônica. A gente está andando por todo lugar, às vezes desejando não estar aqui. Os grandes voos, em que momento? Quando? Eu vou te telefonar durante as madrugadas sem sono. Eu deveria avisar. Eu me sinto bem falando com alguém que não entende nada do que eu digo. Não porque eu desejo um interlocutor que não me compreenda. É porque eu sei que é transitório. Eu não vou precisar, desse jeito, me explicar depois. Porque eu vou fazer o contrário. Eu vou dizer que a minha vida está no fim e no dia seguinte eu vou ter certeza de que ainda viverei trinta anos. Eu vou dizer que o próximo cigarro é o último porque eu odiaria descobrir que meu pulmão está podre, mas eu vou descer e comprar dois maços para estocar. Eu vou falar que mais nada faz sentido, mas vou acordar fazendo as conexões mais otimistas possíveis. Eu vou fazer tudo errado. Vou ficar me perguntando se é egoísmo ou amor demais.

Que drama pungente, e que soberbos personagens! Diante desses documentos de uma beleza tão trágica que a vida nos traz, meu coração de romancista vibra numa admiração apaixonada. [9]

 

Foto 5. Acervo do autor.

Eles fazem parte do que eu sou. Eu cresci sonhando com todos esses lindos homens. No começo eu sempre achei que era uma loucura, um erro. Mas depois aprendi que não era nada disso e – meu deus! – eles se tornaram o que eu deveria também me tornar. Uma corrida contra todas as coisas. Uma mentira. Uma ficção. Uma história para dormir. Pobre de mim. Periférico e sonhador. Meio-índio meio-instruído a pegar atalhos. Li Reinaldo Arenas em português, pus para tocar o Cazuza e mandei beijos para o ar, para todas as bichas marginais, para todos aqueles que não se importam com nada disso, para todos aqueles que enfrentam monstros diariamente, para aqueles que são marginais para cacete, aqueles escondidos na parte de trás das

boates centrais, para o veado de uma cidade do interior de um país emergente. Mandei beijos para ele. Para pessoas como ele. Que vivem! Lindamente. Às vezes transitando por ruas de barro e pés descalços tão distantes do velho mundo. Nessa noite eu entendi que essas pedras seculares existem para ser pisadas com a mesma força de quem transita por chãos virgens em lugares tão distantes quanto inimagináveis. Não chorei durante uma semana.

O Brasil permanece como uma forma utópica, talvez mais simbólica, com uma energia simbólica. (...) Vejo nessa forma de carnaval-canibal uma espécie de potencial canibalesco, que é uma força adversa, uma estratégia de absorção antagonista em relação a essa potência mundial. Acredito ainda nessa carnavalização do mundo como um simulacro universal, mas a canibalização como uma reação, uma reversão, uma retomada potencialmente violenta, mas não necessariamente. O Brasil (...) permanece como um ponto de esperança. [10]

 

Testar as pessoas que conheci. Descobrir quais são os momentos, exatos, de desistência. Eu não aguento mais, elas dirão. Chega. Saber disso para saber como e para onde ir. Ou para deixar de saber. Nacionalidades distintas para corações distantes. Eu não entendo nada do que está dito aqui. Eu preciso saber se há contraindicações. Saber se esse comprimido pode me fazer morrer, por exemplo. Uma morte súbita. Longe da estação central. Longe de triunfar. Sem telefone algum ao alcance das mãos. O estrangeiro morre sozinho – não há informações suficientes para concluirmos nada. As lágrimas estão secas. 

Não basta mais denunciar. Doravante precisamos enunciar. Não basta apenas relembrar a urgência. É preciso também saber começar. [11]

 

Mas não morri, assim, em definitivo, nenhuma vez. Todas as vezes foram passageiras. Havia o depois, sim, sempre houve. Mesmo quando fui recusado em rodas de conversas. Mesmo quando não sabia nada interessante para dizer. Mesmo quando a minha presença era inútil e desnecessária. Mesmo quando me era negado o exercício de sociabilidade. Mesmo quando meu corpo foi medido por pessoas que não desejei conhecer. Mesmo quando me disseram que olhavam para o meu rosto mas pensavam no meu pau. Mesmo quando paralisava frente a um nó. Não sei traduzir isso. Não posso voltar mais tarde. Não há para onde correr. Perdi o mapa. Mesmo aí. Eu estava insistindo. Talvez fosse uma questão estrutural. Uma questão burocrática. Formas de desenhar a vida – no papel, olhe só, ela vai bem! Todas as vezes que reencontrava algum sujeito arrogante da noite passada eu gostaria de pedir que alguém intercedesse e nos desapresentasse. Foi um erro, nós assumimos, ter te apresentado a esse imbecil. Retiramos. Debandamos. Te deixaremos sozinho, outra vez, mais uma. E a culpa é sua. Que sempre quer ganhar no grito. É que eu não tenho paciência para o eurocentrismo, amor. Não tenho. Eu sinto o teu bafo colonialista me cuspindo a moralidade na cara. Eu sinto muito. Mas talvez eu tenha que atear fogo nesse apartamento. E gritar, mais e mais alto.

 

Há uma real ligação entre a etnologia e a vontade de centralização e/ou colonização. Os países colonizadores foram sempre verdadeiros negadores de cultura. [12]

Dramaturgia. Eu tenho pesquisado e feito dramaturgia. Para ler alguma coisa? Mas agora? Aqui? Não, eu tenho algo no computador. Talvez eu pudesse ir traduzindo enquanto leio. Mas é difícil. É difícil explicar. Eu acho que. Talvez. Vai ficar um pouco complicado. Assim, ruim. Ter que explicar algumas coisas. Não sei. Culturais, talvez. Eu acho que eu posso simplesmente dizer. Dizer o que eu faço. E mostrar, mesmo em português. É difícil a tradução. Trata-se de transcontextualização. Singularidade. Porque tem um certo desejo de trabalhar com formatos. E também pensar nessa palavra que se registra. Como

imagem. Mas eu acho que também dramaturgia é outra coisa. Foi difícil entender que ela não é certeza de quase nada. Um certo jeito de encarar a dramaturgia não te dá certeza. Especialmente porque ela não é uma só coisa. Dramaturgia. Dramaturgia visual. Texto de cena. Espacialidade. Poética. Há exceções para tudo o que se pode dizer sobre dramaturgia – arte, teatro, vida. Eu acho que. Às vezes eu tendo a achar que está distante do papel. Assim, desse jeito. Normativo. Como se tudo precisasse sair ou voltar para o papel. Porque pode acontecer de. Pode ser que a dramaturgia escrita se afaste daquela traçada pelo corpo. Destinos diferentes. Caminhos distintos. Mas acontece, que, às vezes, palavra é corpo. Você sabe. O corpo é inteiro texto. Escrita-carne. Como é que se pode explicar que a palavra às vezes não suporta? Não atinge – não vai. Eu acho que não. Eu acho que isso pode ser pensado como um exercício que extrapola a escrita solitária e. A sala de ensaio – que é mundo, rua, todos os lugares atravessados. Talvez, então, o nome seja o espaço de criação. Que não tem limites, propriamente. Esse espaço. Ele pode 

Foto 6. Acervo do autor.

ser permeado por uma quantidade enorme de novas relações. Tão múltiplas. De repente, me parece impossível oferecer já fechado um universo. Como se impermeável. Ou pronto. Não. Não está pronto. É um convite. Apresentar um convite, talvez feito de palavras. Talvez não. E aí. Eu acho que o nome é sensibilidade. Repetição. Tentativa. Experiência. Falar a mesma palavra por horas. Não falar nada. Atingir a exaustão com um só som. Fazer com que a materialidade seja verbo. E também o contrário. E depois desfazer. Porque eu penso que. O coletivo. Quando se pode trabalhar coletivamente. São vários os artistas que integram o todo. Com várias percepções e olhares. Sensibilidades várias. Eu acho que a rede de significação que acaba sendo gerada não pode ser restringida a um pensamento em dramaturgia que centralize o papel, durante todo o percurso. O papel em que palavras estão escritas porque. Não. Tudo bem. Não me importo. Pode ser. Pode ser, claro. Sim. Até depois.

Fingir não é propor engodos, porém elaborar estruturas inteligíveis. A poesia não tem contas a prestar quanto à “verdade” daquilo que diz, porque, em seu princípio, não é feita de imagens ou enunciados, mas de ficções, isto é, de coordenações entre atos (...) Dito de outro modo, a nítida separação entre realidade e ficção representa também a impossibilidade de uma racionalidade da história e de sua ciência. [13]

 

Eu não gostaria de ter vindo. Eu não queria estar aqui. Não tenho dinheiro para um táxi. Eu nem sei que lugar é esse. Eu não conheço ninguém. Eu nem sei pedir a bebida que eu quero. Eu não consigo me deslocar aqui dentro. O meu peito está realmente doendo. A minha pressão está baixíssima. Essas lágrimas são totalmente involuntárias. Eu faço força para não chorar, mas é impossível. Ai, que horror. Podendo, eu correria e deixaria tudo para trás. Porque agora sei: não é tanto assim. São só alguns meninos franceses que nem sabem pronunciar o meu nome.

 

2.

todo artista é inconsolável

qualquer tóxico existente

não sinto. 

um menino se afasta. 

ele cria uma história sobre sua infância

e me faz chorar (eu choro demais).

in london estaríamos imunes 

(get out of my mind - tremeliques e o nome da nova droga "sucesso entre os jovens").

terminei de cortar as minhas unhas.

encontrei o cerne

mas não encontrei o livro-código.

espero que me ligue.

que ligue o meu centro ao corpo bruto.

eu pinto as paredes de branco outra vez.

para que a cor não faça doer sua retina.

eu me preocupo, vê?

como chama aquele livro em que os dias passam?

"não existe"

noite passada, concluo.

(estou bem. de repente: gostaria de ter sido. EU)

você nunca lê poesia "homoerótica-sentimental-ingênua"

você nunca me lê.

ontem eu discorri sobre como é político o ato de me abrir inteiro no meio da página branca

mas você não ouviu

forjo fraqueza no embarque

aqui quem conheço é estranho

e em súplica pede meu adeus

finjo carinho para não ferir mais 

(meus dedos, não uso)

chove – não posso fechar as janelas – perdoe 

deixe essa última música 

ela me embala e te distancia

 

(se um dia você for embora, me leva contigo, dindi)

notas

 

[1] DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. p. 155. 

[2ZOLA, Émile. J’accuse: a verdade em marcha. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 164. 

[3ROLIN, Olivier. Tigres de papel. São Paulo: Cosac Naify, 2006. p. 246. 

[4SARTRE, Jean-Paul. A imaginação. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 16. 

[5GENET, Jean. O balcão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970. p. 76. 

[6BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa. Rio de Janeiro: Record, 2009. p. 69. 

[7] VALÉRY, Paul. Discurso do centenário da fotografia. In: Inimigo Rumor, n.20. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008. p. 270.

[8FOUCAULT, Michel. Do governo dos vivos. São Paulo: Martins Fontes, 2014. p. 278-279. 

[9ZOLA, Émile. J’accuse: a verdade em marcha. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 29. 

[10BAUDRILLARD, Jean. apud. EICHENBERG, Fernando. Entre aspas: diálogos contemporâneos. São Paulo: Globo, 2006. p. 59. 

[11MORIN, Edgar. A via para o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. p. 45. 

[12]  CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. Campinas: Papirus, 2012. p. 156. 

[13RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2009. p. 53-54. 

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