Performer-exu:

a encruzilhada entre performances na rua e instituições de poder

[1]

Gunnar Borges

A ESFERA

 

A palavra EXU em iorubá “significa ‘ESFERA’, aquele que detém o começo e o fim de tudo” (MARTINS, 2010. p 128). Quando a esfera está em movimento ela faz uma rotação cíclica, de maneira que qualquer ponto da esfera tocará o chão e retornará ao cume, criando no movimento circular um ponto de origem que toca o chão, afasta-se dele ascendendo ao topo e depois retorna ao seu lugar de origem. Nesse movimento circular da esfera, Exu nos traz a ideia de que tudo está em movimento e que, por mais que um ponto se afaste do seu ponto de saída, em algum momento retornará para seu lugar primeiro, como o próprio movimento circular esférico. A partir dessa imagem, apresento o Modo Epistemológico Exuzíaco – conceito que se entende enquanto prática em movimento e que apresenta a ideia de que Exu, como modo de criação, exalta o paradoxo, isto é, todo ponto de origem contém seu avesso, qualquer ponto de partida passará pelo cume, seu ponto extremo oposto, e retornará ao ponto de origem. Vejamos a seguir mais detalhadamente.

M.E.X.U: Modo Epistemológico Exuzíaco

Modo Epistemológico Exuzíaco é um conceito que sintetiza de modo prático-teórico as operações que construí ao longo dos estudos no âmbito do programa de Pós-graduação em Artes da Cena da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAC/UFRJ). O trabalho se deu em elaborar performances na rua que perturbam e questionam as lógicas sociopolíticas designadas pelas instituições públicas e privadas, que são apresentadas ao longo da minha  dissertação. Modo Epistemológico Exuzíaco – ou M.E.X.U, em sua forma abreviada – é um conceito criado a partir de uma prática performativa. É um conceito em experiência, uma vez que se elaborou posteriormente a uma prática artística. A partir da prática, surgiu a figura de Exu como um agente que unifica e complementa tanto o meu desejo, quando elaborei as performances, como a própria manifestação instaurada na rua no momento em que a ação era executada. Apresentarei antes de tudo um oriki a Exu para abrir os caminhos que ligam a prática da performance desenvolvida neste estudo à dinâmica implicada por Exu. Oriki é uma forma de exaltação dos poderes e feitos dos orixás. Antonio Risério, em seu livro “Oriki Orixá”, apresenta diversas traduções e leituras para as mitologias iorubanas. Ele define o oriki como “uma atenção histórica, antropológica e estética para a cultura iorubá em si mesma” (RISÉRIO, 2012, p. 19.) e acrescenta ao oriki uma potência inspiradora, “ou seja, como uma poética capaz de alimentar de algum modo a produção contemporânea, e não uma relíquia salva de um naufrágio” (Ibidem, p. 19) . Especificamente para Exu, o autor apresenta o Oriki de número um, que diz:

 

Se Exu entra numa terra
Ele já entra em pé de guerra.

A chuva que gela um egum

Não se atreve a cruzar o fogo.

Molha o fantasma encharcado.

 

Exu vai com a peneira

Comprar azeite no mercado.

Exu que empurra sem dó

Gente que se bate com medo.

 

Ele bate no elebó
Que não faz o bom ebó.

Grita para que a crise
Se espalhe e a casa caia.

Amarra uma pedra na carga

De quem fardo leve leva.

 

Pai, não prenda pedras
Que façam meu fardo pesar 

(Ibidem, p. 126)

É por este caráter de criador de desordem, baderna, de quem não entra para pacificar, mas já está previamente em “pé de guerra”, que a figura do performer neste estudo se apropria de Exu. É justamente por “espalhar a crise para que a casa caia” que as ações criadas são empáticas à dinâmica de Exu. As motivações das performances, por sua vez, também vão ao encontro de Exu uma vez que agem para revirar o plano estabelecido e reconfigurar, embaralhar e atrapalhar o paradigma estruturante que as instituições, de um modo geral, configuram na corporeidade, na legislação e no controle da vida em comunidade.

 

Para destrinchar melhor o conceito desenvolvido, vale explicar que compreendo “modo” como a via de acesso ou a operação prática do próprio conceito. Por “modo” pretendo suscitar que Exu seja uma forma de conversação sobre um material  – afetos, leis, desejos, rua, corpo, documento – que compõe a pré-elaboração da performance, conduzindo o artista a criar a partir de uma lógica que revire e embaralhe as conjunturas impostas pelas instituições públicas e também as privadas, que exercem interferência na esfera pública; e que evoque um acontecimento específico e exuzíaco, suscitando perguntas e questionamentos no ato de sua manifestação na rua. Modo é via de acesso, meio, postura do corpo, maneira de ser e estar. É como retirar a lente sobre os olhos que guia a perspectiva analítica do encontro do artista-pesquisador, aqui o performer, com o objeto a ser obrado.

Modo está conceitualmente equalizado à ideia de procedimento. É uma convocação para que o conceito seja compreendido em âmbitos práticos; ele quer e precisa ser experimentado. Nesse sentido, o conceito, para além de uma proposição epistemológica, é uma operação, um estado, uma temperatura, uma vibratilidade para a execução de performances interessadas na problemática que os aparelhos e instituições públicas agenciam no corpo social, para que no ato de seu acontecimento uma rachadura possa ser instaurada no planejamento controlado e normativo dos dispositivos públicos de poder.

Ao lado da noção de modo, temos a epistemologia, que num sentido alargado é atribuída à teoria do conhecimento, ou à teoria do conhecimento científico, se pensarmos em seu sentido mais estrito. Epistemológico torna aqui reflexiva a via de experimentar performances que agregam em sua elaboração a prática de Exu. Ou seja, tornar Exu um modo de aprender e apreender o mundo, isto é, como o conhecimento e o conhecer se comportam. Em outras palavras, implicar a Exu modos de pensar, métodos científicos capazes de gerar construções práticas. Epistemologia junto a Exu quer também fazer dele um objeto de análise, expandindo sua imagem e prática litúrgicas para o campo dos experimentos e saberes artísticos.

Como apresenta o poema iorubano, “Exu é jovem e velho, alto e baixo, alegre e raivoso. Personificação da luxúria, da contradição. Tem a inocência da criança e a licença do ancião em suas rupturas da norma estabelecida. Induz ao erro e à maravilha” (MARTINS, 2010, p. 128). Ele é o orixá que gera a criação justamente por nos lançar à dúvida e à incerteza ao mesmo tempo em que nos oferta novas saídas – por ele somos lançados na encruzilhada dos fatos. Epistemologia em Exu nos convoca a mudar a perspectiva sobre um mesmo fato, uma vez que ele é o lado que contém seu próprio avesso. Exu pressupõe que o bem não está separado do mal e que a contradição pode conter a permanência simultânea dos seus opostos.

Processos como os de colonização, por exemplo, configuraram/configuram modos de usurpação de culturas por processos que aboliram/abolem a legitimidade e a continuidade de uma determinada cultura por meios totalitários de controle. O conhecimento contido em Exu exalta a capacidade de gerar confusão para reverter os paradigmas fixos. Uma vez que duvidamos e questionamos um estrato fixo sobre uma ideia, um processo, um saber, praticamos, a meu ver, a dinâmica de Exu. Somos convocados, por meio da confusão que Exu cria, a repensar atributos outros do pensamento – logo, somos potencializados em nossa capacidade de criar. Exu então trabalha na perspectiva de revelar os processos contrários e antagônicos de tudo aquilo que se apreende em conhecimento e prática de vida.

É evidente que o processo de colonização recusou a encruzilhada na medida em que impôs sobre uma cultura uma única possibilidade de caminho. Não houve na supremacia branca sobre a diáspora africana a possibilidade de existência múltipla de uma cultura, não houve legitimidade das várias formas de pensar. Pelo contrário, o que ocorreu foi o aprisionamento das diversidades da vida por uma imposição única de vida. Não houve espaço para o avesso, o diferente, o outro – e assim Exu foi aprisionado. Luiz Rufino, em “Exu e a pedagogia das encruzilhadas”, ressalta a abolição da prática de Exu pelos processos colonizadores nas constituições civilizatórias do ocidente. Ele diz:

Se a política de cristianização empregada pelo colonialismo transformou Exu em diabo, a ciência ocidental argumentou a favor da tese de que as sociedades que praticavam Exu são inferiores, primitivas, incivilizadas, desprovidas de capacidade cognitiva que os alcem ao progresso como via de esclarecimento, servindo de base para a formação de ideologias racistas e totalitárias. Manter Exu, princípio explicativo de mundo, sobre o aprisionamento da condição de diabo cristão favoreceu/favorece o projeto colonial na face da redenção cristã (bem versusmal) e da dominação do racionalismo ocidental sobre outras perspectivas de conhecimento. (RUFINO, 2016, p. 3)

Apreender Exu enquanto prática do conhecimento é uma tentativa de atritar o pensamento que tenta capturar os saberes de forma hegemônica e controlada em favor de uma prática que reinvente a relação do próprio indivíduo com o seu entorno. Tornar Exu um modo de experimento quer revelar a potencialidade de residir nele um saber específico implicado em construir práticas artísticas, e que o próprio exercício do pensar está apoiado na contradição, no questionamento, portanto em uma maneira exuzíaca de análise.

Por último, dentro da estruturação do M.E.X.U, está o próprio Exu. Dentro da cultura iorubá esse orixá é a fonte criadora de tudo que há no mundo. Exu conduz o nascimento de qualquer matéria e proporciona a mobilidade da ação criativa. Em uma perspectiva cosmogônica, é o primeiro orixá a ser criado e traz na sua forma algo inacabado, possibilitando justamente por essa falha que outras criações advenham. Exu compreende os princípios explicativos de mundo “acerca da mobilidade, dos caminhos, da imprevisibilidade, das possibilidades, das comunicações, das linguagens, das trocas, dos corpos, das individualidades, das sexualidades, do crescimento, da procriação, das ambivalências, das dúvidas, das inventividades e astúcias” (RUFINO, 2016, p.2)

A encruzilhada é a morada de Exu. A encruzilhada é o ponto de encontro entre a multiplicidade de caminhos no entrecruzamento de múltiplas possibilidades de movimento. Estar numa encruzilhada é ao mesmo tempo ter vários caminhos entrecortando-se diante da vista e nenhum caminho a ser objetivamente escolhido. A imagem da encruzilhada materializa a noção de que Exu é a própria manifestação da contradição, ele nos lança à dúvida. Exu não está atrelado a uma coisa somente, mas carrega o fundamento de que a matéria, o pensamento, as leis, a criação, se valem de uma constituição ambivalente. Toda unidade comporta a sua própria contradição e toda forma única é formada por mais de uma de perspectiva.

Tomemos como exemplo um Itan de Exu. “Dois vizinhos muito amigos eram adeptos à prática de Exu mas certa vez se esqueceram de fazer as devidas oferendas e mesmo assim queriam que seus pedidos fossem realizados. Exu se zangou e resolveu vingar-se. Pôs na cabeça um gorro que tinha de um lado a cor vermelha e do outro a cor preta. Logo depois, passou tranquilo e assobiando pelo trajeto que separava a terra dos dois vizinhos, cumprimentando-os amigavelmente. Quando ele sumiu ao final do trajeto, um dos vizinhos perguntou ao outro: 'Quem será este senhor de gorro preto?' O outro replicou: 'Não, o gorro era vermelho!' E ficaram discutindo a fim de comprovar suas verdades até o fim do dia, quando já estavam os dois muito zangados, deitados no chão, roucos de tanto gritar e machucados de tanto brigar.” (MARTINS, 2008, p. 21).

 

Nesse Itan é possível constatar que a artimanha de Exu é a incitação da contradição e da dúvida. Ele coloca na cabeça duas cores diferentes, ou seja, a parte unificada e total carrega sobre si uma oposição: traz de um lado uma cor, uma ideia, uma verdade, e do outro lado outra cor, outra ideia, outra verdade. Duas cores, uma de cada lado, de maneira a incitar que sobre ele duas perspectivas distintas coexistem. A dinâmica exuzíaca comporta assim a oposição constituinte das coisas. Sua forma questiona a unidade total da matéria e opera sobre a condição das coisas de serem o que são – e ao mesmo tempo não serem. Exu é amoral, sem caráter, pois com ele não há bem separado de mal, verdade de mentira, ele é as duas coisas ao mesmo tempo, tal como o movimento e a imobilidade que a encruzilhada representa. Sua dinâmica quer desdobrar a ideia de dentro-fora, habilitando a coexistência do fora no dentro e que o dentro contenha também o fora. Exu é o próprio paradoxo.

 

O antropólogo Raul Lody diz que Exu é “o primeiro porque inaugura e está em tudo; na natureza e no próprio corpo do homem. Por isso falar do orixá é também falar do universo, dos elementos que se relacionam nos imaginários do cotidiano e dos demais rituais sociais” (LODY apud MARTINS, 2008, p.8). Partindo dessa definição, implicamos a Exu a instância de protomatéria criadora de tudo que há no universo. E se ele é a ação primordial de criação que implica a coexistência do avesso, do oposto e do contrário, podemos entender então que toda matéria carrega em si um paradoxo. Exu enquanto condição paradoxal da criação de tudo destitui a polarização de sentido e a separação das coisas.

A história “A pior coisa do mundo” conta que quando o maior orixá de todos, Obatalá, chegou ao mundo, não tinha conhecimento sobre nada e tinha muita curiosidade em explorar as coisas do mundo. Ele pediu a Exu, seu empregado, que lhe servisse no almoço aquilo que houvesse de melhor sobre a face da Terra. Exu então foi ao mercado, comprou uma língua bovina, assou e serviu-a a Obatalá. Quando a refeição acabou, Obatalá disse:

– O prato que me serviste é realmente delicioso; jamais, em minha vida, experimentei algo tão bom!


Envaidecido, Exu retrucou:

– Realmente, a melhor coisa do mundo é a língua!


Após a refeição, Obatalá pediu a Exu que lhe servisse a pior coisa que pudesse existir no mundo. No dia seguinte, Exu retorna ao mercado e comprou novamente uma língua de boi. Fez o mesmo procedimento de preparo e serviu ao seu amo. Depois de comer, Obatalá repreendeu Exu:

– Pedi que me servisse a pior coisa do mundo e, mais uma vez, me serves língua. O sabor é exatamente o mesmo da que me foi servida ontem e gostaria de saber como pode uma coisa ser, ao mesmo tempo, a melhor e a pior coisa do mundo. Ou será que se trata de mais uma de tuas brincadeiras?

Com ar sério, Exu começa a explicar:

– A língua é, sem dúvida, a melhor coisa do mundo e, contraditoriamente, pode ser a mais perigosa e ruim de todas. Quando é usada para coisas boas, orientar corretamente, cantar a boa música, recitar poesias, falar de amor e ensinar bons costumes é, então, a melhor coisa do mundo. Quando, ao contrário, é utilizada para caluniar, mentir, fomentar discórdia e guerra, torna-se letal. Ela é a melhor e a pior coisa do mundo, tudo depende da forma como é usada. (MARTINS, 2008, p. 37)

A partir desse Itan, percebemos em Exu a capacidade de uso e de manipulação do discurso e da fala. Exu está contido na comunicação uma vez que apresenta a possibilidade da fala ser um ato integrado ao ato da escuta – duas ações divergentes que se complementam no seu processo de construção. É por essas vias que Exu oferece a possibilidade da fala ter variados tipos de compreensão, usos e sentidos. É sob ele que a fala pode conter narrativas manipuladas, histórias inventadas, discursos direcionados. O M.E.X.U se utiliza então dessa forma de comunicação exuzíaca para construir e extrair seus pontos de interesse justamente na sua capacidade de infiltrar e embaralhar os sentidos. Em minha ação performativa “Ode a Brecht”, por exemplo, as palavras do tratado ético da empresa Odebrecht foram bagunçadas em sua ordem e construção frasal para que a partir dessa operação o avesso do que a empresa prega como sua postura ética fosse revelado. Da mesma forma, em “FESTIM”, o mesmo convite para almoçar em praça pública foi feito ao Gomes, morador de rua, e a uma oficial da Polícia Militar. Tratava-se de uma mesma ação, mas os pontos de interesse de cada eram diferentes. E, finalmente, “Lucha Libre” leva ações que pessoas realizavam em espaços íntimos e confinados, dados como expressões de liberdade, para serem executadas em espaço público. Aqui o embaralhamento se dá ao executar na rua o que se faz no espaço privado, a fim de bagunçar o limite do que é legitimado como permitido ou proibido para um corpo semi-nu em movimento na rua.

A fala que incorpora Exu carrega sobre si a condição múltipla de sentidos e interpretações sobre um mesmo ponto, recusando a condição de verdade única justamente por afirmar ao mesmo tempo em que também nega. Assim, nos revela a porção de espaço contida no tempo, de corpo junto à mente, o encontro entre o certo e o errado. Exu revira a ordem. Exu reconfigura o sentido. Exu não admite a totalidade, verdade única – ele é e não é a coisa ao mesmo tempo. Não há sobre Exu o equilíbrio sem a tensão, não há o acerto sem a falha. Ele diversifica a possibilidade de fala, invocando a singularidade dentro da multiplicidade, porque diante do paradoxo existe a oposição de sentidos, que convoca a dúvida, que convoca ao pensamento, que, por sua vez, gera criação.

Onde reside Exu estão os processos interrogativos nas suas lógicas de subtração e adição, na lógica incessante e ilimitada de algo ser por inteiro ao mesmo tempo em que tem uma parte subtraída dele próprio: o todo que contém o singular. Deleuze, em “Lógica do sentido”, entende o paradoxo como uma extensão ilimitada de um devir. Se percebemos Exu como a própria dinâmica paradoxal de criação, ele pode ser apreendido também como um devir-ilimitado, pois

torna-se o próprio acontecimento, ideal, incorporal, com todas reviravoltas que lhe são próprias, do futuro e do passado, do ativo e do passivo, da causa e do efeito. O futuro e o passado, o mais e o menos, o muito e o pouco, o demasiado e o insuficiente ainda, o já e o não: pois o acontecimento, infinitamente divisível, é sempre os dois ao mesmo tempo, eternamente o que acaba de se passar e o que vai se passar, mas nunca o que se passa. O ativo e o passivo: pois o acontecimento, sendo impassível, troca-os tanto melhor quanto não é nem um nem outro. (DELEUZE, 2015, p.9)

Por mais que a lógica do pensamento esteja implicada em polarizar os fatos, criar distâncias e equações entre os pontos para ser capaz de criar uma análise, existirá sempre um ponto em que elas serão indivisíveis, como as reviravoltas que Deleuze propõe. Nesse ponto de encontro e interseção está Exu, aquele que “matou um pássaro ontem, com uma pedra que somente viu hoje” (VERGER, 2002, p.41), evocando que dentro de uma lógica única existirá a sua versão negativa, e que essas partes estão em lógicas de interdependência para se afirmarem enquanto unidade, uma vez que uma parte precisa do seu negativo para se afirmar. Exu enquanto uma instância paradoxal quer destituir a exatidão dos fatos. Na sua capacidade de conter inúmeras hipóteses diante de um fato, torna obsoletas as estruturas fixas demais nos seus modos de se validarem enquanto formulações estáticas e fechadas.

Pensemos nesta adição simples: 1 + 1 = 2. Repense agora desta forma: uma quantidade quando encontra outra quantidade forma uma nova dimensão das partes, antes separadas e agora juntas para se fazerem aderidas. Mas sabemos que, se Exu não suporta um pensamento único, poderia pensar também que 1 + 1 = 1, ou seja, que uma parte quando encontra outra parte não forma outra dimensão quantitativa diferente, mas sim uma única parte unida nos pedaços antes desabitados, que agora usufruem o privilégio de estarem fundidos em um todo mais potente.

Exu não contém um universo singular, mas vários multiversos particulares – especificidades que não são capazes de serem retidas em lógicas de retidão –, pois sua dinâmica atua dentro e fora sem separação exata, sendo assim uma instância ilimitada que captura todas as coisas. Refiro-me aqui sobre a implosão que secciona aquilo que aparenta daquilo que realmente deseja, ou que isto é aquilo, ou que isto mais aquilo formará uma equação possível de ser absoluta.

Nesse sentido, M.E.X.U torna-se um procedimento que considera o paradoxo como matéria fundamental da criação. Criar sobre a lógica exuzíaca é não expor somente uma perspectiva sobre o ponto de interesse, pois ele não suporta a defesa ou denúncia de um lado somente, nem a apresentação da resolução ou da origem de um problema isoladamente. O Modo Epistemológico Exuzíaco não se vincula somente à denúncia, nem quer resolver os problemas. Ele expõe artisticamente as duas coisas ao mesmo tempo, abrindo caminhos para que o paradoxo seja legitimado. M.E.X.U é maneira de criar que isola a própria condição de escolha do artista-pesquisador sobre seu objeto de criação, pois o convoca à exposição do trabalho nas suas formas ambivalentes para que as contradições estejam à mostra, sem indução ou legitimidade das partes isoladas.

Em uma lógica oposta, trabalhar a fim de assegurar um valor, um pensamento único, um ideal somente, pode não deixar que a realidade exista nas suas contradições nervais. Retirar a possibilidade de expor a constituição antagônica da questão da qual se deseja criar é retirar a reflexão que podemos ter sobre uma criação, ou seja, extinguir a dinâmica exuzíaca que contém. Criar performances para o corpo público sem Exu, especificamente aqui agindo sobre os processos institucionais, é abolir o paradoxo, ou retirar a potência questionadora do pensamento, ou excluir a possibilidade da falha ser potência, ou aprisionar o voo de um devir- ilimitado. Criar performances para instituições aliado a Exu, por outro lado, é adentrar qualquer local, documento, parte, imagem, instituição ou pessoa que componha as normas e paradigmas do exercício de poder sobre a rua e bagunçá-los, a fim de criar a confusão e a dúvida.

Se duvidamos, estamos praticando Exu. Se praticamos Exu, estamos elaborando paradoxo. E se elaboramos Exu na perspectiva da criação de performances na rua, pergunto: como fazer do espaço público um encontro entre alteridades? De que maneira bagunçar a lógica dos dispositivos de controle para que se suscitem perguntas sobre como agir e como portar-se na rua? Como gerir criações que compliquem a interferência do privado no público? Como criar ações, obras, peças que percam sua capacidade de serem enquadradas como arte? Como criar interseção entre um gesto de militância e uma formulação estética? Como criar na rua espaços que revirem os paradigmas de moral e ética? Como criar misturas entre aquilo que previamente não é passível de coexistir? O que acontece se entendemos que leis, documentos, regras e instituições são materiais de composições artísticas?

As ações que se implicaram nesses preceitos e originaram o M.E.X.U foram três. A primeira delas é “Ode a Brecht”, na qual o material performado foi o documento de princípios éticos da empresa Odebrecht, que revela uma sucessão de regras que a empresa utiliza para reger seu funcionamento, a partir de um ideal de relação com a cidade que é ao mesmo tempo irreal e hipócrita. A operação exuzíaca no documento partiu, então, por embaralhar as palavras do documento apenas alterando sua ordem, sampleando no microfone as frases e regras, de maneira que apenas com a alteração da ordem das palavras, surgisse o contrário do que o documento prega, revelando os processos antiéticos a partir dos quais a instituição opera. A segunda ação é “FESTIM (ação promotora de encontros improváveis)” que, no desejo de legitimar o encontro das contradições que Exu carrega, levou uma policial militar e um morador de rua para almoçarem juntos numa mesa em praça pública. Por fim, “Lucha libre (exercícios de liberdade para espaços de controle e vigilância)” levou para diante de uma cabine de polícia um corpo seminu que executa uma compilação de gestos e ações originados de pessoas comuns, que realizam-nos em seus espaços privados como atos de liberdade. Exu aqui quer complicar a ordem do que é permitido ou proibido a um corpo fazer na rua. 

 

 

 

 

Vejamos um exemplo das peripécias de Exu contido no Itan “O fazendeiro avarento” que aqui apresento resumidamente:

Havia um fazendeiro que costumava explorar e maltratar seus empregados, coube a Exu, que não gosta deste tipo de gente, puni-lo de forma exemplar. Um belo dia Exu chegou à fazenda do tal homem severo e mesquinho e lhe fez uma proposta:

– Sustentas tantas pessoas ociosas que não sei como consegues sobreviver! Pelo que pude ver, tens mais de trinta vadios trabalhando em tuas eiras e quero que saibas que, pela metade do total que lhe pagas, serei capaz de realizar o dobro do trabalho feito por eles.

A ganância fez com que o homem não raciocinasse e, motivado por ela, logo respondeu:

– Se é verdade o que me dizes, gostaria de te contratar para os meus serviços. Caso aceites, dispensarei agora mesmo este bando de mandriões!

– Claro que é verdade! – confirmou Exu. – Manda-os embora e começarei a trabalhar logo que cumpras com minha única exigência. Quero receber adiantado metade do valor do meu trabalho. A outra parte me pagarás somente no final da colheita.

O fazendeiro, que possuía muito dinheiro, dispensou todos os empregados e entregou a Exu o valor combinado. Exu, já de posse do dinheiro, em vez de pegar no trabalho, trepou num galho de uma árvore de onde ficou admirando a paisagem. O patrão perguntou:

– Então, não vais trabalhar?

– Aguarda um pouco, estou esperando a inspiração! Horas depois o patrão voltou a cobrar:

– E agora, já te sentes inspirado?


E nada do Exu trabalhar. O fazendeiro mandou convocar o governador e seus guardas para punirem Exu. O governador que há dias procurava pelo seu cavalo, pediu explicações de pressa para o fazendeiro, alegando estar sem tempo. O fazendeiro logo relatou que Exu não saía de cima da árvore e se recusava a fazer o acordo que eles haviam fechado pouco tempo atrás. Quando o governador indagou Exu, ele respondeu que o governador deveria correr até sua casa pois sua mulher iria parir o filho e que, caso ele não estivesse presente, o bebê morreria. O governador, surpreso com a adivinhação e previsão de Exu, alegou ter medo de não chegar a tempo em casa, já que estava distante e sem seu cavalo. Foi quando Exu solicitou que um dos guardas averiguasse os cavalos do fazendeiro para emprestar ao governador. O guarda voltou com o cavalo do governador em mãos que o fazendeiro havia comprado por um preço irrisório no comércio ilegal. O governador tratou de desterrar o fazendeiro e deu as terras para Exu que ainda ordenou o pagamento da última parte do seu serviço. (MARTINS, 2008, P.43)

Exu mistura para confundir, assim segue sua lógica de justiça, afirmando que os opostos e as contradições são separações abstratas da capacidade logocêntrica humana. O fundamento da matéria não se separa: é a própria conectividade dos opostos. Exu afirma que a paragem contém o movimento, que movimento é também fundamentalmente uma paragem. Ele cria a confusão e embaralha os fatos para que a ética, o questionamento e a criação sejam suscitados.

 

referências bibliográficas

Gunnar Borges é mestre em Performance Arte pelo Programa de Pós- Graduação em Artes da Cena da UFRJ, com graduação em Direção Teatral pela mesma instituição e em Artes Cênicas pela UNIRIO. É também bailarino nos estudos técnicos em balé contemporâneo pela Escola Angel Vianna e performer.

É membro da Miúda – núcleo de pesquisa em artes, além de integrar o Teatro Inominável e dirigir o projeto Nómada, onde promove criações site-specific. Participou do MODO AND_LAB, Arte-Pensamento & Políticas da Convivência em Lisboa. Participou do Indisciplinas: a arte frente ao urgente, na Casa França Brasil. Compõe um repertório de mais de 30 espetáculos como ator, 6 performances e 10 direções. Atualmente assume a direção do espetáculo Trajetória Sexual, em circulação pelo país 

[1] Este trabalho é um trecho editado da  minha dissertação de mestrado, desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAC/ UFRJ), sob  orientação de Adriana Schneider, e defendida em março de 2018. 

FESTIM, 2016

Foto: Francisco Costa

Lucha Libre (exercícios de liberdade para espaço de controle e vigilância)

Foto: Anna Clara Carvalho

MARTINS, A. Lendas de Exu. Rio de Janeiro: Pallas, 2008.

______. O sacerdócio na umbanda: compêndio do Templo do Vale do Sol e da Lua. Rio de Janeiro: Templo do Vale do Sol e da Lua, 2010.

RISÉRIO, A. Oriki orixá. São Paulo: Perspectiva, 2012

RUFINO, L. Exu e a pedagogia das encruzilhadas: sobre conhecimentos, educações e pós- colonialismo. Seminário dos Alunos PPGAS-MN/UFRJ. Rio de Janeiro, 2016. Disponível em: <http://www.seminariodosalunos.com/wp-content/uploads/2017/03/RUFINO-Luiz.-Exu- e-a-pedagogia-das-encruzilhadas.pdf/>. Acesso em: 11 nov. 2017

DELEUZE, G. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 2015.

VERGER, P. F. Orixás. Salvador: Ed. Corrupio, 2002.

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