PERPÉTUO

Daniele Cristyne

O que foi feito do corpo da filha da morta?

Foi exumado?

Eu não consegui ver direito, mas parece que colocaram o corpo dela muito pra baixo.

Como se o outro não estivesse mais lá.

A filha da morta.

A filha que morreu antes da mãe.

Eu vi quando fui jogar a flor.

Na hora do enterro.

Mas eu não vi direito porque só joguei a flor e fui embora.

Tinha muita gente.

Tiveram que quebrar um pedaço da tumba pra caber o caixão.

Eu vi de longe uma mulher rindo e conversando.

Como se fosse engraçado.

Ter de quebrar um pedaço da tumba pra caber o caixão.

Como se fosse engraçado.

Rir dos mortos na sua própria casa.

 

 

 

Esta noite.

Mais tarde.

Quando todos os outros estiverem dormindo.

Não é que eu seja uma pessoa que sabe muito das coisas.

Mas eu sei como é feita uma exumação.

Eu já vi.

 

 

 

Diário nº 1

 

 

Esta noite.

Mais tarde.

Talvez então se possa ouvir algum silêncio. As pessoas que arrastam cadeiras estarão dormindo. Estarão arrastando seus sonhos pelas terras escuras da noite. Estarão cantando suas alegres canções para outros, que sorriem. E eu poderei finalmente ouvir o silêncio dentro deste quarto. Esta casa possui quartos silenciosos. Não é como a outra, onde o barulho parecia forçar sua passagem através das frestas. Não. Nesta aqui há barulho somente quando as pessoas não estão dormindo. Mais tarde. Esta noite. As pessoas estarão dormindo e o barulho não virá de fora da casa. De pessoas que gritam fora da casa, de pessoas que aceleram suas motocicletas fora da casa, dos sinos da igreja tocando e meu Deus por que o Senhor precisa ouvir as horas a cada quinze minutos? Não.

Esta casa não.

Esta noite.

Mais tarde.

Todos os outros estarão dormindo e o barulho não virá de fora. Não. Esta casa é afastada da convivência de pessoas que gritam, aceleram suas motocicletas e dos sinos da igreja. Não. As pessoas aqui não gritam. As pessoas aqui arrastam cadeiras e cantam, mas apenas quando não estão dormindo. Ora. Claro. Não. Claro. As pessoas não poderiam fazer barulho enquanto dormem. Poderiam. Gritar. Não. As pessoas aqui não gritam.

O meu marido já exumou três corpos.

A mãe. A terceira mulher dele. E um outro, que eu não me lembro.

Eles colocam num saco.

Os ossos.

Os ossos que sobram.

Os maiores.

Tem uns que viram pó.

O crânio não.

O crânio fica inteiro.

Como se eu ainda pudesse continuar a sorrir.

A mãe dele. 

Quando abriram a cova.

A tampa caio pra dentro do caixão.

Não era cimentada por baixo.

A cova.

Fica tudo cheio de bicho.

Ele pegou as roupas dela.

Fez uma trouxa.

Fez um buraco na terra e colocou lá dentro.

Ou como se eu tivesse eternamente essa cara de  susto.

A terceira mulher

ele foi tirando

osso por osso

de dentro do caixão.

Foi montando.

O corpo.

Na grama.

Ao lado do túmulo. 

Osso por osso.

Tinha muita gente querendo ver.
A exumação do corpo da terceira mulher.

O meu marido teve que ficar de olho.

Osso por osso.
Pra que ninguém roubasse nada.

Não entendo como vim parar aqui de botinas ainda no pé.

Teve ainda um outro corpo.

Mas esse eu não me lembro. 

56733

Não fazia tempo que tinha morrido.

Cinco anos.

75011

 

Meu marido quis tirar pra colocar na outra parte do cemitério.

Uma que não tem que ficar pagando.
De cinco em cinco anos.
Pra ficar o corpo. 

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Os ossos ainda não tinham virado o pó.

O esqueleto inteiro.
A gente demora.
Pra apodrecer.

Esse ainda tinha uns cabelos grudados na cabeça.

 

 

 

 

60239

 

 

 

 

Não ia caber num saco pequeno.

O corpo.
O outro.
Esse que eu não me lembro.

Os ossos.
Ele dobrou o corpo no meio.
Os pés aqui.
Na altura do ombro.
Colocou dentro de um saco de adubo.

Depois enterrou de novo. 

45682

23659

22364

74207

56985

54892

43659

69853

54985

13654

59632

TODOS OS NOMES SERÃO ESQUECIDOS

Hoje em dia quase não enterram mais.

Eles queimam.

Eles dizem cremar. Mas é queimar.
É a mesma coisa. 

Diário nº 2

 

Esta noite.

Mais tarde.

Quando eu tinha 7 anos começaram a nascer umas feridas na minha cabeça. Minha mãe dizia pra eu não coçar. Feridas coçam. Minha mãe amarrava minhas mãos no braço da poltrona quando ela não queria que eu coçasse a cabeça. Ela não queria que eu coçasse nunca. Ainda bem que não dá pra deixar uma criança amarrada na poltrona o dia inteiro.

 

Eu cresci. As feridas cresceram. Minha mãe não estava mais aqui pra amarrar minhas mãos no braço da poltrona. Eu comecei a coçar as feridas.

 

Essas feridas que nascem na minha cabeça não são duras, como as que a gente tem quando machuca o joelho. Elas são macias. Elas pedem pra ser coçadas. Elas não doem, como as que a gente coça e arranca do joelho. Mentira. Elas doem um pouquinho. Depois de um bom tempo coçando e arrancando as feridas da cabeça, começa a doer, começa a sangrar, mas é só um pouco. Mentira. As pontas dos dedos ficam vermelhas. Daí começa a doer. Daí começa a doer de verdade. Mas é ainda uma dor de alívio. É uma dor que precisa existir. Mentira. 

Eu lembro direitinho quando o pai morreu.

Eu tava lavando louça.
Minha irmã na cama olhando o pai.
De repente ela me chamou.

Venha cá ver. O pai tá diferente.

Eu larguei a louça e fui correndo.

E olhei.
O pai tava diferente.

Eu disse pra minha irmã pra ela não chamar pelo pai.

Quando a pessoa tá morrendo, não pode chamar por ela.

Se chamar, ela volta.

 

Depois custa a morrer.

Eu disse pra ela não chamar pelo pai.

Eu fui correndo buscar a mãe.
Não lembro bem onde ela tava.
Ela tava lá no quintal.

Colhendo figos.
Dei duas voltas na casa até encontrar.
E eu disse mãe: vem que o pai tá querendo se despedir.
Quando a pessoa tá querendo se despedir, não pode chamar por ela.

Se chamar, ela volta.

Depois custa a morrer.

Gosto de pensar que as feridas na minha cabeça são ideias. Ideias que eu tenho. Quando a cabeça começa a coçar é porque as ideias estão querendo sair. Me dá prazer ver uma ideia assim, recém arrancada da minha cabeça. Ter a ideia nos dedos. Depois da primeira surgem outras, cada vez melhores. Às vezes são tantas que eu não sei nem o que fazer com elas. E eu começo a jogá-las fora. No chão, no tapete, pela janela, pra que ninguém veja. Algumas caem nos meus ombros ou nos braços da poltrona. Essas eu deixo aqui para depois poder encontrá- las com falsa surpresa.

Oh, uma ideia!

Todos os dias eu faço isso.

Todos os dias eu tenho ideias novas. 

VOCÊ FALA TANTO E NINGUÉM TE OUVE

Eu estou contando histórias sobre a minha família.

Eu estou contando histórias sobre mim.
Eu estou contando histórias
sobre a possibilidade

de encontrar
De alguma forma eu não fui a primeira a morrer

De alguma forma eu serei a última
A que herdou todas as histórias

VOCÊ NÃO PARA DE FALAR DE QUEM MORREU

Isso é o que deu origem a tudo ao seu redor

VOCÊ NÃO CONSEGUE SE CALAR NEM POR UM MINUTO

Eu estou contando histórias sobre a minha família

VOCÊ PRECISA SE APEGAR AOS OBJETOS MATERIAIS

Eu não posso esquecer ninguém.

NINGUÉM

A filha da morta. 

NINGUÉM

A mãe.

NINGUÉM

A terceira mulher.

NINGUÉM

O outro corpo que eu não me lembro.

NINGUÉM

O meu pai.

VOCÊ E SUA FAMÍLIA BRIGAM POR OBJETOS DEIXADOS PARA TRÁS

MALAS
GORROS DE LÃ
UM RELÓGIO QUE N
ÃO FUNCIONA
CASACOS
UMA ESPINGARDA
UM DIÁRIO ESQUECIDO
A CASA
AS PROPRIEDADES
O ESPÓLIO

Eu não posso esquecer ninguém.

A filha da morta.
A mãe. 

A terceira mulher.
O outro corpo que eu não me lembro.

O meu pai.

VOCÊ ESQUECEU ALGUMA COISA

Eu vou abrir todas as malas e procurar. 

O barulho é insuportável. Por favor, faça com que pare. Meus ouvidos não irão aguentar.

NÃO HÁ NADA QUE EU POSSA FAZER, VAI PASSAR, VOCÊ VAI VER

Minhas mãos não irão aguentar.

VAI PASSAR

Não vai passar.

VOCÊ VAI VER

Todos os dias acontece isso. Todos os dias eu tenho ideias novas.

PARE DE FALAR BOBAGENS, FIQUE QUIETA NESSA POLTRONA OU VOU ACABAR

MACHUCANDO SUAS MÃOS

Está ouvindo?

FAZ QUE NÃO COM A CABEÇA REPETIDAS VEZES

Por que você me deixa aqui? 

ENCOLHE OS OMBROS

Você vai embora depois que terminar?

RESPIRA PESADO

Eu vou achar outro jeito. Nem que eu precise esperar a noite chegar. Nem que eu precise esperar você voltar e me tirar daqui.

EU CUMPRO COM MINHAS OBRIGAÇÕES DE MÃE

Todas as noites eu chego à minha exaustão.
Todas as noites eu tento fazer com que o barulho pare.

A ALUCINAÇÃO É UM DISTÚRBIO MUITO COMUM NOS DIAS DE CALOR

Esta noite.
Mais tarde.
Quando você não estiver aqui pra amarrar minhas mãos no braço da poltrona.

Elas terão o peso de um prato que se devora em silêncio.
Para um olho que não necessita de luz para ver. 

Um

 

Dois

 

Três

 

 

Quatro

 

 

Cinco

 

 

Seis

 

 

Sete

Ainda não sei qual vou abrir primeiro.

AQUI JAZ (____________________), MUITO CONTRA SUA VONTADE

Um

DORME QUERIDA O SONO PROFUNDO

LIVRE DOS MALES DESTE MUNDO

ENQUANTO TUA ALMA SE ELEVA

LONGE DESTE ABISMO DE TREVAS 

Dois

(____________________), EM PLENA JUVENTUDE PROCURANDO A GLÓRIA DO AZUL DESFEZ-SE EM SAUDADES NA ALMA DOS SEUS QUERIDOS 

Três

TEVE A ENERGIA DAS ALMAS NOBRES, A BONDADE DOS LÍMPIDOS DE CORAÇÃO; ESCUDO: O CARÁTER. A ADVERSIDADE NÃO O ABATEU; ACOLHEU-O A MORTE. FOI BOM; REPOUSA. 

Quatro

(____________________), AQUI ONDE DESCANSA O SEU INVÓLUCRO, VIEMOS DEPOSITAR UMA LÁGRIMA DE SAUDADES, VERTIDA DO ÍNTIMO DE NOSSA ALMA. 

Cinco

NÃO HÁ PALAVRAS NEM LINGUAGEM HUMANA QUE TRADUZAM A DOR QUE MARTIRIZA NOSSOS CORAÇÕES. 

Seis

 

 

 

(____________________), AMADA, PRANTEADA, INESQUECÍVEL

Sete

DEIXA-ME DORMIR EM PAZ A NOITE ETERNA 

Ainda não sei qual vou abrir primeiro. 

VAMOS ENROLAR SUA CABEÇA

 

Não.

VAMOS VER SE AS FERIDAS PARAM DE CAIR

Eu não quero que elas parem de cair.

AS FERIDAS NÃO IRÃO MAIS SE ESPALHAR PELO CHÃO DA CASA

 

 

 

Eu não quero.

UM DIA QUANDO VOCÊ FOR EMBORA AS FERIDAS VÃO PARAR DE MARCAR SUA PRESENÇA

 

 

Vamos brincar de outra coisa.

 

 

E ELA VAI ESQUECER

 

Chega.

ELA VAI SEGUIR OS SEUS RASTROS POR UM TEMPO, DEPOIS ELES VÃO ENFRAQUECER

 

 

Chega!

DEPOIS VOCÊ VAI DESAPARECER POR COMPLETO

Espere... Não estou me sentindo bem.

DEITE AQUI NO MEU COLO

Acho que vai ser mais cedo do que eu pensava.

 

VOCÊ TOMOU ALGUMA COISA

Sim.

NÃO

Me deixe ir.

É CEDO DEMAIS

Estou feliz que você esteja aqui comigo agora.

NÃO

ESPERE
EU VOU CHAMAR ALGUÉM

Pare. Você estragou tudo. Isso não está no roteiro. O que você está fazendo?

CHAMAR ALGUÉM PARA EVITAR

Não. É assim que eu quero ir. Estava tudo combinado. Você tem que ficar me olhando ir. Me aninhar no seu colo. E só chamar alguém depois de muito tempo, quando for irregressível. Você nem me deu um beijo de despedida. Você estragou tudo de novo. 

EXUMAÇÃO É BASICAMENTE A RETIRADA DOS RESTOS MORTAIS
PARA AVERIGUAR A CAUSA MORTIS
PARA TRANSFERIR A OSSADA DE LUGAR
OS CEMITÉRIOS ESTÃO LOTADOS
HÁ MUITA GENTE MORTA
EXUMAÇÃO É BASICAMENTE A RETIRADA DOS RESTOS MORTAIS
UM
IDENTIFICAÇÃO DA SEPULTURA
VERIFICAÇÃO DA PLACA NUMÉRICA NO CANTO DO TÚMULO
DOIS
IDENTIFICAÇÃO DO CAIXÃO, COR E TIPO DA MADEIRA, ORNAMENTOS

VERIFICAÇÃO DO ESTADO DO CAIXÃO, INTACTO, ARROMBADO, RACHADO, O CORPO TOMADO PELA ÁGUA OU PELO BARRO
TUDO DEVE SER REGISTRADO E FOTOGRAFADO
TRÊS
ABERTURA DO CAIXÃO
VERIFICAÇÃO DA VÁLVULA DE SEGURANÇA
CASO NÃO SEJA POSSÍVEL O USO DE MARTELOS, É USADA UMA MÁQUINA DE CORTE QUATRO
REMOÇÃO DA TAMPA DO CAIXÃO
INÍCIO DO PROCESSO DE EXUMAÇÃO DO CORPO
UTILIZAÇÃO DE VENTILAÇÃO DE AR OU SPRAY PARA DIMINUIR O ODOR
O CADÁVER É FOTOGRAFADO DENTRO DO CAIXÃO
CINCO
REMOÇÃO DE QUALQUER PERTENCE QUE ESTEJA DENTRO DO CAIXÃO: LETRAS, PLACAS, IMAGENS DE SANTOS, CRUXIFIXOS, COROAS DE FLORES
SEIS
REMOÇÃO DAS ROUPAS
SETE
REMOÇÃO DO CORPO, DOS RESTOS MORTAIS PARA LOCAL ESPECÍFICO 

Famílias relatam que o dia da exumação é considerado um dia de funeral.

O som dos martelos pesados na laje.
Os restos humanos.
O caixão.

Algo terrível de se ver.

Não são servidos lanches e bebidas.

Há uma atmosfera particular.

 

 

 

 

Diário nº 3

 

Esta noite.

Alguma conclusão.

 

 

 

Outro dia estúpido. Outro dia estúpido. Você já viu o suficiente? Talvez. Parar enquanto o corpo está calmo. Eu sei que você vai me perdoar por minha honestidade. Agora. Enquanto está escuro. Enquanto as luzes não vêm. Por favor, não deixe as luzes acesas.

A última fotografia que tiramos foi numa comemoração de natal.

A família costumava se reunir.
Desta vez deveriam ir todos.
Não foram.

Sempre fica um buraco.
Uma parte.
Uma ausência na imagem.
Você olha a fotografia, mas não vê quem está nela. 

O TÚMULO APONTA O LUGAR ONDE O MORTO ESTÁ ENTERRADO A PEDRA
RESISTENTE AOS REVESES DO TEMPO
A INSCRIÇÃO LAPIDAR
O DOCUMENTO QUE SOBREVIVE À MORTE
GARANTIA PERPÉTUA DE PÓS-VIDA NA MEMÓRIA DA POSTERIDADE 

Fomos organizados em torno do pai e da mãe.

Primeiro os filhos.

Depois os maridos, as mulheres.
Depois os netos.
Depois os maridos e as mulheres dos netos.

Depois os bisnetos.

O cachorro também participou.

Você olha a fotografia, mas não vê quem está nela.

A filha da morta.
A mãe.
A terceira mulher.

O outro corpo que eu não me lembro.

Somos uma família de mortos.
Uma plateia cheia de gente morta.
Que olha pro mundo tentando tirar alguma energia dele.
Seguramos velas queimadas para lembrar que as luzes não ficam acesas para sempre. 

Diário nº 4

 

Esta noite.

Antes.

O silêncio é quase completo agora. Ouço apenas a minha respiração. Mentira. Preciso dizer. Mentira. Preciso dizer algumas coisas. As feridas pararam de coçar. Minha cabeça dói e se perde na ausência do barulho. Preciso dizer. Minha voz se perde. Preciso. Minha língua fica manchada de palavras desencontradas. Mentira. Minha língua se transforma numa massa pegajosa. O gosto do tempo se mistura a fotografias que ainda não foram reveladas.

A IDEIA É UMA INTERRUPÇÃO DA NORMALIDADE

NÃO ENTRE
CONCENTRAÇÕES LETAIS DE MONÓXIDO DE CARBONO

Esta noite.
Agora.
Engolir sementes até se engasgar. Caçar formigas que insistem em correr. O corpo pula pra fora e se precipita. O corpo esférico arremessado no centro do alvo. Preparado químico, líquido, gasoso.

ESTA NOITE

VESTIDA DE FULIGEM

IRÁ ME ENCONTRAR

É mentira!
O coração dela ainda estava batendo. 

EIS O DEUS QUE TUDO CONSOME

POR ONDE PASSA, A PODRIDÃO ARRASTA

TRANSFORMANDO O MAL HUMANO

EM PUREZA VASTA

EIS O MEU NOME – VERME
E MINHA BOCA NEFASTA

ALMOÇANDO A CARNE PÚTRIDA

DE UMA CARCAÇA GASTA

EIS AQUI O SEU TEMPO FINDO

O IMPLACÁVEL DESTINO

ONDE FAREI DE TUAS VÍSCERAS

MEU BANQUETE DIVINO 

Depois de revirar todas as malas.

Finalmente encontrei alguma coisa.

EXUMAR É RETIRAR OS RESTOS MORTAIS

EXUMAR É TIRAR DO ESQUECIMENTO

Esta noite.
Mais tarde.
Quando todos os outros estiverem dormindo.

Diário nº 1

O outro corpo.
O outro corpo que não me lembro.

Os ossos que não tinham virado pó.

Os cabelos grudados no crânio.
As feridas na cabeça.
Não.

Isso foi antes.
Eu falhei tanto.
Eu ignorei todos os sinais.
Eu quis contar histórias sobre tantas pessoas.
Eu esqueci de perguntar como você estava se sentindo.

Eu.

Sempre fica um buraco.
Acho que começo a me lembrar. 

Largada aqui como uma maçã mordida no fundo de uma gaveta. Era esse o fim que eu queria?

Eu estou aqui agora.

Eu tentei. Você nunca perguntou nada.

Eu demorei tanto pra entender.

O teu medo e o teu silêncio.
Eu falhei.

Você me deixou sozinha. Você perdeu todos os rastros que eu deixei.

Eu estou aqui agora.
Eu procurei nos lugares mais antigos da minha memória.

Já passou tanto tempo.

Você não mudou nada.

Você está aqui agora.

Podemos sorrir? 

Esta noite. Você está aqui agora. Olhe para cima. Olhe para cima agora. Você vai desmanchar. O seu corpo vai apodrecer. Tudo o que está acima de você vai cair. Você estará presa para sempre. As portas estarão trancadas. Você não poderá mais sair.

Eu estou aqui agora.

Podemos apodrecer juntas.

E sorrir.

AS DUAS SE ABRAÇAM E VIRAM TERRA

 

 

 

 

 

 

 

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