Ponte das meninas

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Fotomontagem, 2013.

Com Janini, Flávia 1 e Flávia 2.

Lapa, Rio de Janeiro 2006-2013.

Crédito das imagens: Alan Castelo, Jonas Amarante e Vinicius Nascimento.

Em 2006 conheci Janini, fizemos fotos no Hotel Passeio, no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Nunca mais a vi. Em setembro 2012 conheci Flávia, mostrei a foto de Janini comigo para ela e tivemos este diálogo:

 

Flávia: Nossa maravilhosa, essa peruca dela era aqui ó (apontando a altura da cintura) continuou do mesmo jeito?

Fernando: O que?

Flávia: Continuou do mesmo jeito essa peruca dela?

Fernando: Então, na época era uma peruca loira. Ela usava uma roupa, como se fosse uma meia calça arrastão no corpo todo.

Flávia: De marquinha de biquíni, marquinha de biquíni e tudo.

Fernando: Mas aí a Janini, você disse que uma vez que ela...

Flávia: Me ajudou muito, uma vez não, várias vezes. Essa pessoa aqui, nossa! O que eu posso falar dela... Eu um dia, uma travesti entro no tapa aqui, ela entrou no meio, bateu tanto na travesti que falei assim: chega. Se vê o que é uma amiga. Muito tempo atrás, não foi nessa época agora, por isso que eu to te falando, as minhas amigas mesmo, daquela época, não estão aqui. Hoje em dia tem, essas coisinhas aí hoje, essas novinha que se sente. Tô velha tudo bem, meu auge já acabou, eu não vou competir com uma de dezoito anos, mas, nem por isso eu vou baixar a cabeça pra elas, vou continuar a vida. Essa pessoa aí, me ajudou bastante. Posso dizer que foi uma amiga minha.

Fernando: Eu ouvi dizer que ela está na Europa .

Flávia: Europa. Eu não sei, mas acho que ela deve estar na Itália.

Fernando: Eu fiz um vídeo com ela em 2006, num hotel que tem por aqui...

Flávia: No “Passeio”?

Fernando: É. No “Passeio”.

Flávia: O “ó”!

Fernando: Mas é interessante o lugar, tem uns desenhos nas paredes.

Flávia: É diferente, tem umas mulheres, tem umas sereias.

Fernando: A gente fez uma série de fotos lá. E ela me maquiou, está vendo?

Flávia: Ela adora maquiar os outros, já me maquiou várias vezes... Uma pessoa maravilhosa, tanto montada... Montada não que ela era travesti mesmo. Tanto de noite como de dia, era a mesma pessoa, ela não mudava, entendeu? É isso que eu sinto falta, daquelas travestis de antigamente... Ela tinha beleza por dentro e por fora, e isso ela me mostrou que tinha. Porque quando eu cheguei no Rio de Janeiro eu era muito nojentinha, eu era novinha, hoje eu to com 37, eu tinha 32 (risos). Eu era novíssima... Ela me ajudou, falou bicha vai assim, assim, assim... Essa foi uma pessoa que eu posso falar... É a única! Até hoje... Ela se cuida...

Fernando: Tem outras travestis aqui ainda, dessa época?

Flávia: Raramente, Luísa, Suzana. São poucas, são poucas... Porque quando eu tive bêbada caída no chão ela foi a única que foi lá, levanta viado, entendeu? É por isso que eu, às vezes eu choro. Eu choro porque não existe mais travesti assim. Se eu cair agora sabe o que elas vão fazer? Vão pisar em mim. Mas eu não vou chorar (risos). Bola pra frente, não é verdade? Aí, adorei, como é que eu vou guardar agora a foto? Aí! Arrasou gente!

 

Em setembro de 2013 soube da notícia da morte de Flávia, andei pela Rua Agusto Severo, na Glória, com a foto em que estou mostrando para Flávia a foto de Janini, mostrei a foto para várias travestis, uma delas, que também se chama Flávia me contou essa história:

 

Flávia: Eu me inspirei nela, porque ela é um nome lá na cidade onde a gente mora, em Sergipe. Entendeu? A Flávia deixou o nome dela. Conheci ela quando ela foi para Europa, quando eu cheguei na cidade de Aracaju, aí o pessoal comentava que eu parecia com ela. Aí depois quando ela voltou da Europa eu conheci ela. Aí eu mudei meu nome pra Flávia. É por isso que hoje em dia meu nome é Flávia, Flávia e todo mundo comenta que eu pareço com ela, mas eu fico um pouco triste né? Desta história.

Fernando: E você depois reencontrou ela?

Flávia: Não, não reencontrei mais, porque eu também fui pra Europa.

Fernando: Ah é? Onde é que você esteve?

Flávia: Eu trabalhei em Milano, trabalhei em Bérgamo e Toscana. Fiquei oito anos na Itália, aí pronto, depois que eu voltei eu fiquei sabendo aqui esses dias quando eu cheguei, que tem um mês que eu cheguei. Aí eu fiquei sabendo que ela tinha sido morta. Mas não sabia de que né? O pessoal só comentou que ela tinha sido morta.

Fernando: E nessa época em Maceió vocês conversavam?

Flávia: Não quando eu cheguei em Maceió, a gente não se conheceu em Maceió não, a gente se conheceu em Aracaju, porque ela cresceu em Aracaju igual a mim. Entendeu? Eu sou de Maceió, mas eu me criei em Aracaju.

Fernando: E você lembra de alguma coisa...

Flávia: Eu lembro que comentavam. Você vai na minha cidade tem todas as fotos dela, em qualquer associação de “trans” que você vai tem ela, a inspiração que era ela na cidade, que ela era uma das que deixou nome. Ela deixou o nome na cidade, se você for lá em Sergipe você vai saber quem é a Flávia, tem associação de “trans”, tem a UNIDAS, tem a ASTRA que todo mundo gosta dela. Mas não sei explica assim... a notícia quando chegou lá.

Fernando: E ela soube que você estava se inspirando nela...

Flávia: Ela soube, eu contei pra ela né? Tanto que meu nome era Savana não era Flávia, era Savana aí eu mudei pra Flávia. Que muito comentaram, você parece com a Flávia, você parece com a Flávia. A gente trabalhava muito junta, né? O mesmo jeito de se vestir, a gente se vestia igual.

Fernando: E ela gostou, foi simpática...

Flávia: Gostou. Ela era educada, entendeu? Era só... era um pouco estranho quando ela bebia porque ela tinha um problema com a bebida né? Mas também... Não sei, é problema da vida a gente não sabe o que acontece né? Ela tinha alguma coisa pra contar.

Fernando: E tem mais alguma história que você lembre?

Flávia: A história é que ela deixou o nome na cidade. Se ela morreu, como estão comentando que ela morreu, ela ficou o nome na cidade. Se você for lá em Sergipe você vai saber muita história dela. Todo mundo gosta dela na cidade.

Com Janini. Foto: Alan Castelo.

Com Flávia 2. Foto: Vinicius Nascimento.

Com Flávia 1. Foto: Jonas Amarante.

 

Ponte das meninas. Foto: Divulgação.

Ponte das meninas na exposição Vênus nos espelhos, UNIRIO, 2013.

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