revista ensaian.3_junho2017/ TEXTO PARA SER LIDO EM VOZ ALTA EM UMA BIBLIOTECA

Toda ordem é uma situação oscilante

​à beira do precipício

[1]

 

Luana Navarro

Imagine uma guerra em que não há feridos, não há bombardeios, não há soldados nas ruas nem tanques cruzando a cidade. Só incêndios em bibliotecas, públicas e privadas. Qualquer conjunto de mais de 8 livros é queimado e as cinzas são recolhidas e enterradas em terras distantes.

 

A biblioteca municipal daquela cidade ficava embaixo da câmara dos vereadores, a cidade cresceu, passou de 27 para 35 mil habitantes. Mudaram a biblioteca do centro para o alto de uma ladeira. 

 

Quantos livros queimam agora na Síria?

 

Nossa memória já não existe, diz um professor no Iraque.

 

TODA BEIRA É UMA SITUAÇÃO OSCILANTE DO PRECIPÍCIO

 

Certa vez o irmão a defendeu do namorado agressivo com um livro. Tristes trópicos voou em direção à cabeça do agressor. Livro é arma.

 

Em dezembro de 2003, Romano Prodi, presidente da Comissão Europeia, quase morreu quando abriu um livro-bomba recheado de pólvora.

 

Barack Obama discursava para 20 mil pessoas quando um homem sem roupas arremessou um livro em sua direção.

 

O Vasco da Gama, time de futebol, perdeu um de seus principais jogadores para o confronto contra o Santa Cruz. Enquanto brincava com sua filha, o meia Douglas teve o olho atingindo por um livro e acabou ficando com a visão embaçada.

 

Eduardo Cunha recebeu este ano uma caixa sedex cheia de cocô, na descrição do objeto constava: livro.

 

Lee Oswald atirou em Kennedy a partir de um depósito de livros.

 

Em 20 de dezembro de 2009, um jovem de 21 anos foi ferido gravemente por um tresloucado personal trainer e seu taco de beisebol. O agredido que infelizmente veio a falecer, estava agachado na seção de arte da livraria cultura em São Paulo. De certa forma, ele morreu por amor aos livros.

Luana Navarro (1985) desen-volve trabalhos com fotografia, vídeo, performance, textos, leituras em voz alta e publicações. Em 2016 organizou e lançou as publicações Corpo sem sinônimo e Biblioteca para corpos em expansão. Também em 2016 concluiu o mestrado 

 em Processos Artísticos Contemporâneos na UDESC, em Florianópolis, com a pesquisa intitulada Quando o corpo acontece. Vive em Curitiba. (www.luananavarro.com)

Prefeitura Municipal de Papanduva. Foto: Luana Navarro.

Chile, 1973. Foto: Pablo Di Boylio.

No ano em que eu nasci Dominique Gonzalez-Foerster executou um trabalho chamado biblioteca. Uma estante feita de madeira, tijolos e livros. Os livros estão na parte lateral onde deveriam estar os tijolos. Os tijolos estão sobre as prateleiras. Troca-se livros por tijolos. Troca-se tijolos por livros.

 

De que maneira os livros se acumulam?

 

E se os livros não fossem organizados por temas, ordem alfabética, idioma, editora, gênero, autor, tradutor, ano?

 

Quantos tijolos são necessários para construir uma pequena casa?

 

No interior do Ceará há um menino que dança sobre tijolos.

Cada tijolo é um salto alto.

Cada tijolo é um salto para.

Tijolos constroem corpos.

 

Em março de 1997, os bibliotecários da Escola Hertford mandaram destruir 30 mil livros sobre temas homossexuais. Durante oito horas de trabalho 35 voluntários enterraram livros.

 

À BEIRA DO PRECIPÍCIO PODE HAVER UM TIJOLO FROUXO

 

Em 2003 a Biblioteca Nacional em Bagdá, no Iraque, foi queimada. Seguido ao incêndio crianças saquearam o que restou. Uma delas pegou um livro ainda em chamas de uma autora iraquiana que não conhecemos e que nunca leremos. Ela, a criança, jogou o livro de volta ao chão e pisou repetidas vezes até que o fogo fosse apagado por completo, na sequência levou para casa, mesmo faltando algumas páginas.

 

Abre parênteses, a história a seguir não faz parte do livro da autora iraquiana, mas de um livro ainda não escrito chamado A mulher comprida.

 

Os carros trafegam apenas na direção contrária, nenhum carro ultrapassa ou é ultrapassado. Um homem, um menino e uma mulher estão em deslocamento.

 

O pai guia o carro, a mãe verifica o mapa. A criança olha para fora da janela e segura fielmente um boneco azul.

 

O pai, que às vezes é apenas homem e não é pai, nota ainda não terem ultrapassado nenhum carro, caminhão ou moto. Ele olha pelo retrovisor e vê a paisagem de uma cidade do interior se distanciando. Ele, o pai, olha novamente pelo retrovisor e vê a imagem do menino que encobre parte do espelho, ele pensa ter visto ao longe uma moto. Ele vê a cabeça do menino por trás e pensa que a cabeça do menino parece a cabeça de seu pai, que quando velho perdera os cabelos.

 

Ele, o homem, olha pelo retrovisor direito e vê apenas a linha amarela da estrada e um punhado de árvores que ficam para trás. Ele ajusta o espelho do retrovisor direito. Segura firme o volante e se dá conta de como o céu está azul. À sua frente uma paisagem de distintos verdes se aproxima.

 

A plantação de camomila passa pela janela e o menino, que é menino e às vezes super-homem, não sabe se o que vê é amarelo ou verde. O menino que às vezes é super-homem é também uma dançarina de cabaré. E o menino, dançarina de cabaré, imagina como seria correr na plantação de camomila vestindo a camisola da mãe e os colares de bolas da avó.

 

Mais tarde o menino que não foi dançarina de cabaré, esquecerá o próprio nome em uma roda de apresentação durante um curso de informática. O menino que esquece o próprio nome cairá em silêncio profundo, mais tarde.

 

A criança está enjoada, a criança quer parar o carro, mas crianças não podem parar carros. O pai freia, a mãe arranca o pequeno para fora que vomita imediatamente. A mãe se lembra uma vez mais porque não gosta de viagens longas de carro. Para distrair o menino ela propõe um jogo. A cada cavalo visto pelo trajeto o menino ganha 25 centavos. O menino não dorme nem vomita mais.

 

A mãe, que é mulher, não consegue dirigir em estradas, o movimento contínuo lhe causa uma apreensão que transborda em espasmos nas pernas, qualquer carro fora da linha amolece seu corpo inteiro. Ela preferia estar sentada sem sair do lugar, quem sabe apertando botões ou atendendo telefonemas. A mãe, mulher, esqueceu que pode querer outras coisas e às vezes fica cansada de ouvir coisas do pai, não do seu, mas do pai do menino. O pai do menino quando pensa que é homem gosta de num tom de brincadeira dizer à mãe você não precisa mostrar pra gente o seu sofrimento.

 

Nessa estrada, definitivamente não há caminhões com placas e dizeres engraçados, nem mensagens pra jesus, nem nome de filho escrito na traseira, nem referências a bebidas e noitadas em bordéis.

 

Os carros trafegam apenas na direção contrária, nenhum carro ultrapassa ou é ultrapassado. Um pai, um filho e uma mãe estão em deslocamento.

Frame do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976).

1700 exemplares de Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado, foram queimados a mando do presidente Getúlio Vargas.

 

Em Cuba, em dezembro de 1999, em um estacionamento de uma colina de Havana, centenas de livros doados pelo governo espanhol foram destruídos. O motivo: entre eles, havia 8 mil exemplares da Declaração dos Direitos Humanos.

 

A partir das manifestações de junho de 2013 polícias do Rio de Janeiro passaram a procurar um tal de Bakunin.

 

Um conjunto de livros é um autorretrato de seu possuidor?

 

As bibliotecas são outra coisa além de uma série de livros catalogados e organizados.

 

Quando o regime do Khmer Vermelho triunfou no Camboja, em 1975, um estranho letreiro foi pendurado na porta da Biblioteca Nacional: “Não há livros. O governo do povo triunfou”.

 

Em Farenheit 451, todos os livros lidos em voz pelo personagem Montag têm a capa vermelha.

 

Militantes do Estado Islâmico colocaram fogo na biblioteca pública de Mossul, no Iraque. Pelo menos oito mil livros e manuscritos raros foram queimados. Segundo testemunhas, eles fizeram uma fogueira com livros culturais e científicos e levaram embora livros infantis e religiosos.

 

BIBLIOTECAS FANTASMAS

Biblioteca de Timbuctu

Biblioteca do Centro Cultural Judaico de Buenos Aires

Biblioteca Tamil, Jaffna, Siri Lanka

Biblioteca Kransinsky, Polônia

Biblioteca Louvain,  França

Biblioteca de Kioto

Biblioteca da Escola Municipal Belmiro Pimenta Teixeira

Biblioteca Nacional e Universitária da Bósnia

Biblioteca Nacional e Arquivo Nacional do Iraque

Biblioteca al-Awqaf

Biblioteca da Academia de Ciências do Iraque

Biblioteca Pública de Mossul, Iraque
Biblioteca da Escola Estadual Conde Afonso Celso,

Biblioteca Jansen Filho
Biblioteca da Escola Estadual Benedito Lucimar Hesketh da Silva

Biblioteca do Ramesseum

Biblioteca de Alexandria,

Biblioteca de Büyükkale

Biblioteca de Córdoba

Biblioteca do Colégio Estadual Professor Flávio Warken

Biblioteca do palácio de Netzahualcóyotl

Biblioteca de Trípoli

Biblioteca Universitária de Astúrias

Biblioteca Legislativa do Canadá

Biblioteca comunitária do bairro Santa Elisa, Sorocaba

Biblioteca do Congresso Americano

Biblioteca Nacional, em Madri,

Biblioteca da Escola Estadual Ministro Petrônio Portela, Aracaju

Biblioteca Pública de Curuçá, Pará

Biblioteca da Escola Municipal de Forquilhinhas, São José

Biblioteca do Instituto de Estudos de Linguagem da Universidade de Campinas

Biblioteca do Instituto para Informação Científica em Ciências Sociais, Rússia

Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Amazonas

 

Biblioteca     

Bibliotec     

Bibliote     

Bibliot     

Biblio         

Bibli         

Bibl        

Bib        

Bi        

B        

 

 

Caracteres vagueiam pelas ruas.

nota

 

[1] - Anotações, ficções e montagem de Luana Navarro com Desempacotando minha biblioteca de Walter Benjamin, Bibliomania de Marisa M. Deaecto e Lincoln Secco, Literatura expandida – arquivo e citação na obra de Dominique Gonzalez-Foerster de Ana Pato, As desordens da biblioteca de Muriel Pic, A história universal da destruição dos livros de Fernando Baez, Lamento por Vijecnica de Goran Simic e diversos links e notícias disponíveis na internet.

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