Híbrido de peça para exposição, texto & performance e palestra, Tudo poderia ser diferente do que foi, mas foi o que foi da forma que conhecemos, de Rafael RG, foi encenado em 2014 no âmbito  do Congresso Extraordinário da Fortaleza de Anhato-mirim, em Florianópolis. A convite dos editores da Ensaia, um dos atores envolvidos na apresentação foi convidado a escrever um relato sobre a experiência. O relato está disponível aqui.

''Tudo poderia ser diferente do que foi, mas foi o que foi da forma que conhecemos'' estreou no Museu da Escola Catarinense, em Florianópolis, em junho de 2014, produzido pelo ''Ações Curatoriais''. A peça foi escrita para ser apresentada durante o ''Congresso Extraordiário da Fortaleza de Anhato-Mirim''.

 

* Este trabalho foi criado para ser apresentado em eventos nos formatos de: palestras, seminários, falas e encontros. Não para teatro ''caixa-italiana''.

 

Elenco

A Linguagem: Claudia Cardenás

Jovem Mecânico: Gregori Homa

O Narrador: Rafael RG

 

Direção

Rafael RG

 

Produção

Kamilla Nunes

Rafael RG 15/02/15  18:06 Comentário [1: Eu pensei em escrever algo sobre a ideia da "descoberta da Arte"  quando estava em Belém, na época em que o projeto "El futuro del amor" estava no auge de sua crise. Quando surgiu o convite para o congresso resolvi usar este texto. O congresso iria ser realizado ao ar livre numa ilha em Florianópolis, mas por conta da chuva a ida a ilha foi cancelada e o congresso aconteceu dentro de um museu. Por conta disso eu tive que refazer todo o texto na madrugada anterior ao congresso. 

 

Rafael RG 15/02/15 18:00 Comentário [2]: Essa folha de rosto segue a mesma diagramação do original ''História de Amor'' do Jean-Luc Lagarce, que a Cia. Teatro da Vertigem montou em São Paulo, em 2007. Os atores seguravam o texto a todo momento, e o público recebia uma cópia no início da peça. Eu pedi para levar a minha cópia para casa e deixaram. Desde então todos os meus trabalhos de ''Peça para exposição'' seguem essa diagramação.

 

Rafael RG 15/02/15 18: 12 Comentário [3]: Tenho pensado nesse conceito de ''Peça para exposição''. Não é algo novo. Por exemplo, o artista francês Guy de Cointet fez muito disso.

http://www.airdeparis.com/artists/guy-de-cointet/decointet_performances.html

 

Prólogo

 

O Narrador entra em cena e se aproxima do microfone ao centro.

 

Narrador: Olá, boa tarde. Acho que podemos começar, na verdade já começamos, desculpe. Esse é o prólogo de uma palestra sobre Arte e algumas coisas da vida. Essa palestra tem 3 atos, um prólogo e um epílogo. Nessa palestra somos 3 interlocutores: eu, o Narrador; ela, a Linguagem; e o Jovem Mecânico. O prólogo é feito basicamente dessa pequena fala inicial do Narrador. E o Rafael RG, o artista que foi convidado pela organização deste evento para pensar essa palestra, e que está sentado ali, optou em escrever dois caminhos diferentes para esta ação. O jogo é o seguinte: um dos curadores envolvidos no evento deverá vir aqui na frente, pegar o livro do Rainer Maria Rilke, ''Cartas a um jovem poeta'', manter uma certa distância e tentar atirar o mesmo dentro desta cesta de lixo. Caso o curador acerte, a palestra toma um rumo. Caso erre, seguimos outro caminho.

 

Pausa.

 

Narrador: Como podemos ver, o curador (acertou ou errou) o livro. Vamos ter que seguir o segundo caminho, e sendo assim podemos começar o primeiro Ato. O primeiro ato começa com a Linguagem dando risada.

 

 

 

 

 

1º ato

 

Linguagem: (rindo) Ai, como estou cansada! E como me sinto viva ao mesmo tempo. Eu sou a Linguagem, mais conhecida como um sistema formal de signos, regidos por regras que quando combinadas geram significados. E o mocinho ali de azul, o Jovem Mecânico, apesar de já fazer uso das minhas funções, vai passar a me conhecer melhor, ou seja, fazer uso das minhas funções de linguagem de forma consciente. Operando com signos de seu inconsciente e aplicando regras até então desconhecidas, gerando assim significados outros, para além da vida ordinária.

Essa palestra foi escrita para isso, para contar esta pequena anedota sobre um Jovem Mecânico que descobre a importância da linguagem. Ou seja, que descobre como se colocar no mundo de forma efetiva, através de mim.

 

Jovem Mecânico: Eu não sei muito bem como cheguei até aqui. Mas sei que hoje eu acordei com muita vontade de soltar pipa, era uma das coisas que eu mais gostava de fazer quando eu era criança. Mas percebi que já não tem a mesma graça. Quando estava comprando a pipa pensei em coisas estranhas. Tive medo do futuro, quero dizer, tive preocupação a respeito do que estou fazendo hoje. Sou mecânico, e sei que não há problema nenhum nisso. Mas pensei no quanto eu não gosto do que faço. E percebi o quanto nós somos aquilo que fazemos, e quão grande é o abismo que se forma na nossa vida quando fazemos algo que não é para nós mesmos. (pausa.)

Hoje eu acordei de um sonho do qual não me lembro, mas sei que estava sonhando. E quando me vesti, tive a certeza de que hoje seria a última vez que colocaria essa roupa. 

 

Narrador: Eu, na minha condição de narrador, me sensibilizo com a história do Jovem Mecânico, vejo ele se aproximar de mim e o chamo: – Ei, mecânico, venha aqui. Eu sou o Narrador, o narrador desta palestra organizada pelo Rafael RG, que está sentado ali. Esta palestra conta a sua história, a história do dia em que você conheceu a linguagem.

 

Jovem Mecânico: Então você é a linguagem?

 

Narrador: Sim.

 

Jovem Mecânico: (rindo) Eu já te conheço, e bem. O Narrador errou! Essa palestra não pode contar a história do dia em que eu conheci a linguagem, esse dia já aconteceu, e foi antes dessa palestra ser organizada! Esse dia foi o dia em que eu pensei em desistir de ser mecânico.

 

Narrador: Eu te entendo, nesse caso então não fui eu quem errou. Foi o artista. O próprio Rafael RG, ele errou. Acontece. Ele escreveu uma obra errada. Por isso tudo está tão sem sentido. Por isso vocês estão sempre mexendo nos celulares, por mais que o 3G da TIM nunca esteja funcionando.

 

Estranho pensar sobre as forças que levam um artista a construir uma obra errada. Na verdade, já é estranho por si só pensar nesse termo, ''obra errada''. Uma obra errada é aquele tipo de obra da qual não gostamos? Não gostamos de uma obra de arte quando não a entendemos? Bom, estou fugindo um pouco do tema da palestra, mas são coisas que se passam na minha cabeça. 

 

Enfim.

 

Eu olho para o Jovem mecânico e imagino o que pode acontecer quando ele comete algum erro dentro do seu ofício e sabemos que tal acontecimento pode levar a alguma fatalidade. Se um mecânico erra alguma coisa na hora em que está arrumando os freios de um carro, pode ser que tenhamos um automóvel caindo de um desfiladeiro abaixo, após não ter conseguido frear durante uma curva sinuosa. Já o artista, a quam o artista prejudica ao realizar uma obra de arte errada? Acredito que o pior que um artista pode gerar ao criar uma obra de arte errada é nos fazer perder tempo. Perder tempo observando um quadro feio. Perder tempo tendo que ler vários textinhos em obras conceituais chatas e erradas.

 

Mas, se bem que não podemos deixar de pensar que perder tempo é uma das coisas mais legais que se pode fazer hoje em dia. Sob essa perspectiva, até uma obra de arte errada parece ter sua função no mundo.

 

Eu não sou artista, sou um mero narrador, também não posso errar muito.

 

Sabe, Jovem Mecânico, teve algo na sua primeira fala que me chamou a atenção: eu também não sei se gosto do que faço. Antes de me tornar um narrador, o meu sonho era ser um atleta profissional, atleta de corrida.

 

Jovem Mecânico: Vamos então apostar uma corrida.

 

Narrador: Vamos.

 

Os dois saem correndo pelo espaço.

A Linguagem inicia a leitura do texto quando os dois estão descendo as escadas.

 

 

 

 

 

2º ato

 

A Linguagem: Já estamos no segundo ato. Esse ato é o mais ofegante. Nessa brincadeira de apostar corrida, eles acabaram me atravessando. Se aventuraram pelos labirintos da linguagem. Literalmente.

 

Jovem Mecânico e Narrador respiram fazendo sons no microfone.

 

 

 

 

3º ato

 

 

Jovem Mecânico: Começamos o terceiro ato, não? Este já é 3º ato!

 

Narrador: Este já é o terceiro ato. Aparentemente, nada mudou. Mas, vendo aqui pelo texto, o Rafael fez algumas mudanças no andamento da palestra. Ele opta por revelar algumas coisas. Pede para eu dizer que ele estava animado a escrever esse texto. Também pede pra eu dizer em voz alta e bem gesticuladamente a seguinte senteça: POR FAVOR PRODUTORES DO BRASIL, NÃO PEÇAM NOTA PARA ARTISTAS, NÃO PEÇAM NOTA PARA ARTISTAS, PAGUEM O FEE SEM NOTA. Ele pede para que eu, o Narrador, diga para o Jovem Mecânico ir até a Linguagem pegar algo que ela tem em seu bolso. Mecânico, vá lá até a Linguagem, ela tem algo para lhe entregar.

 

O Jovem Mecânico vai até lá, pega um batom vermelho e passa na boca. O Jovem Mecânico fica de pau duro ao passar o batom. O Jovem Mecânico confirma a si mesmo que não quer ser mulher, mas que gosta de homens. O Jovem Mecânico é gay.

 

Rafael RG, que está ali sentado junto a vocês, se distrai e começa a pensar em algumas coisas. Pensa que em Florianópolis não tem metrô.

 

Em São Paulo, o metrô serve também como ponto de encontro para casais. Muitos casais ficam se beijando espremidos em cantos e paredes das estações. Provavelmente moram longe um do outro, se encontram numa estação que seja de conexão para os dois e ficam ali, trocando carícias depois das longas jornadas de trabalho e antes de voltaram para casa a tempo de assistirem ao Jornal Nacional. Rafael RG pensa que hoje em dia há também casais gays se beijando nas estações de metrô. E que antes, quando estava na faculdade, não tinha. Rafael RG lembra que já foi um desses casais gays do metrô, ri e começa a pensar em outra coisa. Pensa no quanto queria estar apaixonado. Eu, na minha condição de narrador, perecebo o quanto Rafael RG perde a mão na escrita do texto nesse 3º ato. E assim, trocando de assunto quase que aleatoreamente, o texto revela a todos vocês que o Jovem Mecânico na verdade é o Rafael RG em 2003. O Jovem Mecânico representa nessa palestra o que o Rafael RG já foi um dia. Nesse caso, eu, o Narrador, concluo que o Rafael RG já foi mecânico antes de criar essa palestra.

 

Pausa.

 

Gregori é o nome do ator que hoje está aqui nessa palestra representando o jovem mecânico. Ao escrever esta palestra, Rafael RG colocou o nome de Gregori no buscador do facebook, encontrou um perfil, que acreditou ser o de Gregori, e viu algumas fotos. Notou que Gregori usava óculos, e era isso que precisava saber. Tinha que ter a certeza de que o ator que iria representá-lo na palestra usasse óculos.

 

Jovem Mecânico: E eu, eu olho para o Narrador e afirmo que não sou um jovem mecânico. Eu sou Rafael RG em 2003.

 

Eu, enquanto aquele que representa o Rafael RG em 2003, conto sobre o dia em que ele acordou depois de um sonho do qual não se lembrava, mas com a certeza de que não queria mais ser o que era. Ele precisava de algo que lhe fizesse sentir mais próximo do mundo. Sentia a necessidade de falar das coisas que não sabia muito bem. Coisas que desconhecia por completo, mas que estavam presas dentro dele e precisavam ser ditas. Nesse dia, Rafael RG se lembra de quando tinha cerca de 9 anos, em 1998, e estava em casa, num bairro chamado Cocaia, na cidade de Guarulhos. Estava numa csa de 2 cômodos, onde moravam aproximadamente 11 pessoas. Seria uma tarde comum, não fosse a sua vontade secreta de fazer alguma coisa com a colher de maionese, uma colher agigantada que desde sempre lhe chamava muito a atenção. Então, nesse dia, pegou a colher do gaveteiro da pia da cozinha, levou-a até o quarto e a colocou em uma das camas, exatamente entre o colchão e o lençol de elástico. Esperou ansiosamente pelo momento em que alguém fosse deitar naquela cama. Até que lá pelo meio da tarde esse momento chegou. A pessoa notou que havia algo de estranho, um objeto atrapalhando a sua vonade de deitar. Formou-se no quarto um clima de mistério, primeiramente tentando-se descobrir o que havia na cama, e depois, como tal objeto fora parar ali. Para ele, o mais importante naquele momento de descoberta da colher no colchão era a hipótese de que o tal objeto foi parar ali por magia, por um motivo que fugia das explicações dentro da ordem da razão. Ali, por acaso, descobrial qual seria a sua vocação no mundo. Despertar sensações que fujam das explicações pertencentes a ordem da razão. E essa é a sua eterna busca.

 

Narrador: Bom, já que é assim, eu também vos digo que não sou um narrador, eu sou o Rafael RG hoje. E estou aqui tentando despertar sensações que fujam às explicações pertencentes a ordem da razão. E essa é minha eterna busca.

 

Linguagem: Eu continuo sendo a Linguagem, e me sinto cada vez mais viva. Me sinto estimulada. Sinto que sei quem eu sou e onde estou. Repito, sou a linguagem, tenho dentro de mim todas as incertezas do mundo. Tenho sentido, não tenho sentido algum. Produzo significados aleatórios, sem erros ou medos de errar. Acordo todas as manhãs e deixo o vento balançar os meus cabelos. Sei que o longe é uma península particular. Escuto a voz do silêncio e respondo em voz baixa a pergunta das crianças curiosas. Finjo que não vejo o dia passar. Beijo a nuca dos homens e das mulheres enquanto afago suas cabeças. Me deixo levar pelos sons das batidas do seu coração.

 

Pausa.

 

Peço para alguém abrir as portas do Museu. Por favor, abram as portas do Museu!!! Rafael, dê a mão ao seu duplo! Seu passado. Olhe bem nos olhos de ti mesmo. Deixe que te marque a boca de vermelho. Deixe que essa ereção espontânea te leve para outros lugares.

 

Pausa.

 

 

 

 

 

 

Epílogo

 

Linguagem: Esse é o epílogo, vemos um homem de mão dada a outro. Eles caminham em direção a porta, eles pensam sobre a violência do tempo e da história. E eu, parafraseando o crítico de arte Wilson Coutinho, lhes digo que:

 

O artista é aquele que rompe a máscara da ilusão, e dá forma à verdade.

 

Contra as imagens fixas, contra as tentações do passado, da ordem do apssado. A máscara do artista aponta o real.

 

Contra as imagens corriqueiras, sem movimento, sem alteração. 

Símbolos da fantasia do poder.

 

Mas é na noite subterrânea, feita ainda de silêncio, aqueles que cantam, aqueles que esperam a lenta introdução de novas metáforas de combate, contra as imagens colonizadas.

 

Pausa.

 

E fazem novas imagens por uma nova história.

 

Fim.

 

 

 

 

 

 

 

Rafael RG 15/02/15 21:25 Comentário [4]: A produção do evento estava me fazendo uma pressão para que eu apresentasse nota fiscal para poder receber o meu cachê. Eu acho um absurdo exigir isso do artista para que seja feito o pagamento. Como a produção toda do evento estaria presente no congresso, coloquei essa parte do texto para jogar com uma situação real ligada ao evento.

Gregori Homa, o Jovem Mecânico

Rafael RG, o Narrador

Cláudia Cardenás,  a Linguagem

Fotos: Kamilla Nunes

Rafael RG é artista visual e escritor. Formado em Artes Visuais pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo (2010), participou de mostras e festivais em cidades do Brasil e em outros países, como Argentina, México, Colômbia, Alemanha, Polônia, Espanha e Holanda. Recebeu, entre outras premiações, o 1º Prêmio Foco ArtRio, o Prêmio Honra ao Mérito Arte e Patrimônio/ IPHAN, o Prêmio aquisição do Centro Cultural São Paulo e,  recentemente, foi agraciado com a Bolsa Iberê Camargo para residência no Künstlerhaus Bremen, na Alemanha. Em sua prática artística, RG costuma trazer duas fontes para construção de seus trabalhos: uma documental e outra afetiva, em geral por meio do uso de documentos garimpados em arquivos institucionais ou pessoais associados a narrativas que podem envolver sua pessoa ou um alter ego. A interação entre essas territorialidades resulta em obras que quase sempre se aproximam de uma ficção, ou de uma noção tensa de ficcionalidade.

 

© 2019 por Revista Ensaia

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