A convite dos editores da Ensaia , Gregori Homa escreve sobre sua participação em Tudo poderia ser diferente do que foi, mas foi o que foi da forma que conhecemos, de Rafael RG. A peça de Rafael pode ser lida aqui.

Tudo poderia ser diferente do que foi, mas foi o que foi de uma forma que não sei se conhecemos

 

 

Gregori me mandou um e-mail na semana passada pedindo que eu o visitasse em um endereço de Berlim; ele dizia precisar da minha ajuda para escrever algumas palavras para uma revista do Brasil. Eu, em momento primeiro, imaginei ser mais uma de suas performances, me preparei para as mais inusitadas reações, e fui. Marquei de encontrá-lo do lado de fora, mas chovia no dia e eu acabei correndo e entrando em um lance de escadas que me levou a uma porta com uma luz azul. Bati; ela se abriu com um "ring" que me autorizava a passar do espaço seguro para o desconhecido. Logo que entrei, um menino magro e alto me recebeu, era o Gregori; todo agitado com um som que acabara de fazer. Demorei mais ou menos uma hora até entender que não se tratava de uma performance. Ao pedir a ele um chá, Gregori se acalmou e, enfim, começou a falar: - Preciso começar dizendo que foi difícil encontrar-me no tempo para voltar ao começo. Vou te falar as coisas como se eu as escrevesse a eles, tudo bem?

 

Respondi que sim, e comecei a gravar.

 

"Escrevo a vocês de um porão onde estou trabalhando há três ou quatro semanas. O clima está exatamente o mesmo; faz-me sentir como se eu fosse andar pelas ruas e encontrar, logo alí em Skalitzerstraße, o mecânico Rafael." Ele pausa, me olha nos olhos e diz: - Berlim tem sido muito fria comigo; e  lembrar deste trecho do passado faz bem neste momento, obrigado por estar aqui.

 

Neste momento ele senta no chão, perto de uma geladeira velha que estava no canto da cozinha, ergue seus olhos para mim e volta a relatar:

 

"Vocês precisam saber que tudo poderia ser diferente do que foi, mas foi o que foi de uma forma que não sei se conhecemos. Eu tenho muita dificuldade para lembrar das coisas que já aconteceram na minha vida; preciso de um tempo..."

 

Gregori fecha os olhos e abaixa sua cabeça como se estivesse com dores; permanece assim por quase sete minutos; em um suspiro, ele volta:

 

"Eu recebi um convite para fazer parte de um trabalho do Rafael RG, um artista que precisava, com urgência, de dois atores; eu não sou um ator. Resolvi aceitar, pois eu sabia que um menino precisava da minha ajuda. Era um encontro lindo, organizado por algumas pessoas conhecidas; mas não foi por isso que me chamaram, ninguém ali me conhecia.

 

Bom, eu fui e consegui chegar.  Logo que subi alguns lances de escada tinha uma luz azul e um menino alto e magro, era o Rafael. Naquele dia, eu fui o mecânico. Demorou um tempo para eu notar que não se tratava de uma performance. Ele precisava de alguém que apertasse a sua mão e o dissesse que tudo, até mesmo o erro, daria certo. Assim, eu fiz; o narrador estava completo."

 

Gregori joga o chá que eu havia pedido a ele dentro da pia, abre duas cervejas e diz que precisa me mostrar uma cena de um posto de gasolina. Um brinde para Rafael. Ele me olha nos olhos, pisca como se fosse voltar a "escrever" e diz:

 

"Eu não entendi muito bem o que eu estava fazendo, mas eu sabia que eu precisava fazer aquilo da forma que fiz: um batom vermelho e um espelho. Entre o beijo e o abraço, o Rafael e eu."

 

Agitado, Gregori pede para eu parar de gravar; diz que não saberia mais me informar sobre aquele dia, pergunta se eu saberia informar o motivo disso tudo. Olhei para ele e respondi: - Você ainda não terminou! Depois de um tempo me olhando fixo nos olhos, ele me mostra uma tatuagem, e diz:

 

"O que talvez precisa ficar claro é que ainda não terminamos aquela performance. Nós ainda não a performamos e eu não sou um ator. O Rafael ainda não sabe que eu... que eu não sou um ator. Você sabia que na última semana eu estive no mesmo lugar que ele esteve aqui em Berlim quando fez sua primeira performance? Eu fiz uma performance lá também. Eu e um menino alto, magro... Parecia muito com ele." Gregori ri, toma minha cerveja, suspira e diz: - Eu preciso parar agora, já não sei mais quem escreve este texto.

 

Neste momento eu senti como se eu não tivesse mais o que fazer ali. Ele apagou algumas luzes e perguntou a mim se eu me sentia bem com aquele clima. Respondi fechando os olhos; decidi me entregar a ele como se estivesse passando um batom de frente a um espelho. Ele estala os dedos e me oferece uma caixa com luzes azuis. Olha nos meus olhos e aponta para a porta.

 

 

 

 

 

Gregori Homa é artista visual, performer e pesquisador independente. Participa atualmente de uma residência artística em Berlim, na Altes Finanzamt – um espaço dedicado a performance, música eletrônica experimental e dança contemporânea.  Tem interesse em live cinema e mixed-media art, e dialoga, na criação de seus trabalhos mais recentes, com a fotografia e a dança contemporânea.

 

 

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