HEMORRAGIA

Le Tícia Conde

Eu não pude jorrar meu sangue.

Quando nasci, sou anêmica por conta dos homens.

A vagina, em seu auge biológico feminino, me partiu em duas: a que eu deveria

ser

e a que eu queria ser, mas tornar-me: nunca.

Ainda pequena me arrastava na insistência de sacos escrotais internos,

ovários que por não me saírem testículos

me condenavam já ao filho, sem pai,

porque por ele ninguém pergunta.

Sexo feminino gênero sem mais

pois flor me saía feito cimentada vulva.

Peixe podre de perfume, o miolo garantiu a corda no pescoço e um terceiro olho

na nuca:

aprendi a engatinhar olhando para trás

qualquer suspeita do que traseira se enfia por feminina bunda.

A primeira palavra que balbuciei foi Pare,

mas continuaram com o 1º, 2º, 3º, 4º tapa na maternidade

porque eu não queria chorar, não queria aprender o ato de eterna labuta

- se desfazer em lágrimas, o primeiro ensinamento para se aguentar as dores do mundo.

Na etnia a pele de tanino se tingia com o urucum do próprio corpo

eram os outros que faziam do couro rubra sina ao liquefazer nosso ouro.

Quando aprendi a gritar me amordaçaram

coisa de preta-indígena-boca. E a boceta ainda calava,

de tudo não sabia que ela era a fonte de sistemática lida

dos que doente nos tinha e obrigava: CAMA!

Quando mulher aflorava mata, cortavam logo qualquer tronco

qualquer árvore que pudesse dar frutos de alimento pros outros

e nem se pensar sombra, nunca pode haver descanso!

Quando eu criança era e brincava

vi uma nuvem que se enfiava nas partes íntimas pra enxugar o lodo.

Era com nojo que se fala. Tem-se asco porque em períodos de lua

o terreno se torna pantanoso, algo escuro vaza onde se morre a vida não gestada.

Passei a ter medo, pavor da fenda abismal que a qualquer momento

se tornaria oceano - medo de morrer afogada,

ouvi histórias de mulheres que por se darem bem com a floresta

morreram queimando, fogueiras em suas pernas

- passei a raspá-las, eu evitaria o incêndio a qualquer custo.

Amanheciam contos de fadas

porque as limpas não precisavam – nem de calcinha, só um vestido e sapatilha para o baile. Muito prazer, ENCANTADA!

Passei a crer que estava doente,

eu olhava para baixo e tudo se arregalava, esses lábios não paravam de gritar a

carne

e numa bela tarde tentei me costurar

peguei espinhos da roseira e penas de galinha pra fazer a mágica, ritual de

princesa,

eu queria ser pura, sem uma gota, sem mácula.

E no 1º furo: TORTURA! Senti pela primeira vez

a dor de sangrar para me tornar sagrada.

AS SANTAS SANGRAM PELO AMOR DE DEUS.

Mas Deus não me aliviou em nada.

E eu apanhei, tomei uma surra pra aprender a não tocar as partes.

Acordei: talvez, somente naquele momento fui trazida à vida pelos tais tapas,

aqueles do começo, desde o hospital até me entender partida,

meu sangue ainda não havia jorrado.

Com os furos tentaram conter a hemorragia

mas era tarde, me tornei verborrágica.

Mulher sinônimo de silêncio

me fiz um dicionário, sabia os signos todos para que me ouvissem

e ainda assim nada. Nada! porque me escorrem as palavras

Nada! Porque logo te alcança esse líquido

abjeto e ignóbil porque seu valor é nulo

serve apenas para ornar o inferno de ser isso

resumida à coisa, a significante e não significado.

Depois que me tornei moça

enfiaram-me a tal nuvem,

não mais fez sol sobre ponte nem sobre grama alguma

eu ainda era pasto, menina de tudo

mas ser mulher aprendi rápido

outra opção não tinha senão aceitar o nublado

- o céu nublado quando me cobriram com enxertos pra estancar,

enfiaram nuvens nas calcinhas, sabe?

E aí como ver minha própria altura?

Como gozar o pico dos montes de vento rarefeito?

Como deixar que alguma outra alma me escale?

Passei a odiar meu estado de água, de líquor

que altera a consciência de quem encosta:

se tornam inconsequentes, matam, estupram, batem

só porque o líquido, forma mais maleável e ainda visível,

parece não sentir dor por retornar ao estado calmo de sempre.

E não pediria a orla para que as ondas parassem de bater caso pudesse?

E não reclamaria o chão da chuva que feito revólver enche de balas até seu

cimento?

Não há bueiro, meu corpo não contém regras

porque as leis me fizeram sem período:

me é proibido sangrar, me tratam como se sangue em meu corpo não houvesse,

mas há, é porque se acostumaram a conviver com o defunto pálido

que de tantas mortas enterrar se esquecem.

Mas renasci das cinzas quando meu útero urrou o cíclico

e de toda a mata o desmate que abunda nunca é verossímil

carrapato de praga, não me largam as parte íntimas.

Quando crescendo fui aprendendo a amar as partes

um corpo sem órgãos foi surgindo

fui me tornando um ser que vaza na intimidade de se saber sem paredes

fui alargando o pasto deixando crescer aquilo que não se vê

porque passei a querer desbravar as entrâncias do vulto que me enfiavam

e que me criam, NÃO, EU NÃO SOU ISSO!

Me vi mais do que uma genitália

tive que aprender a aceitar a lei do eterno retorno

tive que me tornar demasiada humana

ver que a potência está na semente que da flor brota de dentro do fruto

eu sou a própria polpa do fruto da peste que dá aos montes

nas alturas do imprisionável que se faz livre

por instinto por natureza por impalpável

porque meu ser é sangue e abstração do que se imagina

e eu me cortei nas pernas e nos braços

me cortei no rosto e na barriga

- vejam os cortes de que falo

falo: que me falta nessa sociedade que me acredita pedaço de carne

mas me esconde para que o sulco não me saia

e sai mesmo assim porque frear é impossível,

fui entendendo a marcha, engatei o gatilho

e num disparo me revelei gotas

a tempestade veio cheia de animalescos passos

eu dancei a dança da chuva para que me caíssem os antigos detritos

bati o pó dos mortos

parei de me deixar guiar pelos cegos olhos dos outros

- os alheios que nada vêem mas se creem deus dum mundo perdido

fétido desejo, paixão funesta que encabeça o dia a dia

PRAZER, EU SOU O MEDO

PRAZER, SOU A LOUCURA ADVINDA

PRAZER, EU SOU A QUE CRESCE NO DESFILADEIRO

PRAZER, SOU A QUE ROMPEU COM OS DEUSES

e agora se sabia mais terrena que qualquer planeta

eu, na certeza de me saber íntima – de mim mesma

peguei um espelho e comecei a desbravar meu destino

não teria como fugir da minha própria boceta

mesmo que seja homem com um triângulo nas bermudas,

eu precisava conhecer o sangue que me escorria e sumia

que me escorre todos os dias quando me assassinam sem que eu caia no chão

porque é minha alma que tarda em levantar

e se saber de cabeça erguida.

Quando eu soube do encontro do sangue

aquele que agora jorra no quarto escuro e vazio

num cálice de santo

eu bebi minha extrema unção

porque me escorre minha própria salvação

SOU EU O CORPO DE CRISTO!

E me vi entranhas, me vi ressurreição

porque sete dias se passaram até que entendesse que de falecida

eu poderia trazer a mim mesma à vida,

comecei o ritual, colhi ervas, voltei à floresta

voltei ao meu natural e me embrenhei nas árvores que me nascem

que aparecem por baixo das vistas - na boca que dedos engole

na boca que come até mesmo pintos

eu me alimento para lá de ovos, eu sou o ócio

de se saber um monstro criativo, inventiva deusa do cosmos

eu danço a intensidade e não há quem possa com isso

porque se humanos me podam

eu os devoro na antropofagia do conhecimento até do maligno.

Quando mulher me vi em meio ao caos

eu soube, era tudo ou nada, o binarismo de subjetiva lida

EU QUIS ME FAZER INTEIRA

e quero a cada segundo lembrar-me disso

então tirei a manta que esconde o rasgo

o abismo em que muitos pularam para que tudo jorrasse ao infinito

eu sublimaria ao espaço

subiria mais alto que as aves, que qualquer águia de rapina

seria a própria sereia em nado

afogando qualquer ser que tentasse impedir de seguir meu caminho;

e no caldeirão despejei a escatologia dos meus fins

os meus ais todos, o estupro, o aborto, o sangue na privada, no vaso

desfiz a descarga que levou meu filho

desfiz a mocidade

desfiz minha adultice

só para refazer tudo de novo

pra parir no sangue o retorno de viver cada segundo como se fosse o último

EU NÃO ME ARREPENDO DE ABSOLUTAMENTE NADA

e a Natureza ouve minhas preces quando eu digo!!! :

Óh sangue sagrado que me escorre entre as pernas eu te escarro eu te trago para fora da boca como fumaça do mundo para que você se torne humano em sua jorrada porque meu corpo não mais falece mas apenas se põe uno com o tudo e o nada porque sou mais forte do que se pensa eu sou mulher de signo frágil mas a verdade é que nada a mim condena se a prisão da mente não for decretada ainda que me rasguem a mortalha serei aquela dita sobrevivente e você me pinga me cai no colo e nas pernas escorre teu magma sou vulcão por entre toda a gente e estou a cuspir lava esculpindo com palavras a magia de te clamar a presença eu te rogo sangue meu sangue sagrado se torne humano se torne homem se torne a liberdade de todos se saberem em casa e de todos se calarem quando você pinga porque a ti temem mas eu te bebo eu te consagro e a ti narro essa hemorragia de me saber feminina nos estereótipos de sempre nesse binarismo fácil na chibata e nas correntes na saliva de quem engole porque cala na mão de quem pede esmola na miséria de se saber nada mais além do que clemente eu te rogo a liberdade de quem nem mesmo sabe que é você quem os liberta liberdade para os que estão no topo os que nos massacram porque livre devemos ser todos e isso peço até ao inimigo para que ele um dia o olho abra e olhe pro lado e sinta que não se pode usurpar o que nos é selvagem pois a natureza cobra o sangue com anemia pois sangue é nosso alimento sangue é o sulco da polpa da fruta quando vaza quando escorre nas mãos e lambemos e o estômago se farta sangue sangue sangue de natureza inefável de beleza indescritível de Baco de vinho sobre a mesa de Cristo de Buda dos Signos porque sangue é terra fogo vento e água os elementos todos em um único o corpo sem órgãos porque ele abrange do humano cada parte e o sensível transborda quando o vemos dá ânsia na beleza de se saber mortal correndo nas veias do destino no rumo certo de quem sai de quem extravasa e vaza pras bordas do oceano que é a orla de gente pois sangue é se tornar deus e comungar com o sagrado sangue em hemorragia crescente sob a lua e o sol na estelar constelação de se saber poeira em cristalinas hemoglobinas porque somos átomos somos tudo o que gira o que se move no movimento de sistemática lida que pode ser rompida e por isso te clamo e por isso te chamo para que venhas derramar as verdades que temos negligenciado sangue eu te declamo e te amo com a profundidade de um abismo com asas e que voando se torna céu espaço infinito de galáxias de amor sem rumo porque paredes pouco a pouco se desfazem e o corpo se torna amorfo líquido e não quero ter forma alguma quero tua capacidade em se transformar naquilo que te contém dentro da materialidade que não te basta porque sais em desatino no desalinho de saber que nada te freia senão a pele fina de cabaço que uma vez desvirginada não haverá nem mesmo ralo que te perpasse senão a livre corrida de seguir do útero para baixo do furo para a rua do buraco para as valas quero me deitar sobre teu manto de juventude de vampírico sonho e oníricas falas na sabedoria de se saber alquímico porque és a pedra filosofal tão procurada és tu a chave para o mistério da vida porque a dando a tira e a tira quando te falta estada a estase de se saber calmo por segundos e no momento seguinte se tornar enxurrada e causar tsunami com tua hemorragia e em segundos prostrar um corpo pelo pescoço apunhalado nos faz humanos tendo a ti como a própria adaga e não te calas e não te cansas sempre percorrendo os labirintos que mais perfeitos que o de Dédalos não esconde nem mesmo Minotauro somos Ícaros a voar sobre oceano a cair em tua água e que se afoguem nossos prantos que nos afoguemos em tua rubra intensidade porque quero um mundo vermelho de cor na sensação de não restar mais nada senão se libertar da opressão das comportas e das barragens que não haja obstáculos que se faça ultrapassaremos o lamento pois contigo urraremos o devir do orgasmo e sangraremos todos porque somos humanos demasiado humanos e aprenderemos a alegria do jorro porque tu és a hemorragia que nos ocorre desde dentro sangue desde o nascimento sangue o que nos une igual a todos sangue o que se torna equivalente gozo sangue pelos poros todos e não há sangue que nos baste! – Sangre nosso sangue! : sangue que nos menstrua humanidade...

Le Tícia Conde é poeta e dramaturga. Estuda na Escola Livre de Teatro de Santo André e na SP Escola de Teatro. É autora dos livros artesanais toda Vulva diz Cus são (poemas) e Sonhos Irreais em um Mar de Verdades (romance).

© 2019 por Revista Ensaia

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