Febre do Não

 

Aos 40 anos entramos num limiar, vejam bem, entre a maturidade e o início de algo que se assemelha ao fim. O escritor americano F. Scott Fitzgerald aos 40 anos fez um retrato de si, uma imagem emoldurada pela margem do seu tempo: um escritor, ou antes, um homem de letras em plena queda, derrocada, putrefação física, social e espiritual em meio a sociedade norte-americana mimada e prepotente dos primeiros anos do século XX. O processo da inevitável decomposição – toda carne virará comida de verme, ou quando muito será incinerada e voltará ao pó – é o que ele chama de vida. Vida pautada por golpes que, invisíveis ou visíveis, tangíveis ou não, nos atingem e revelam seus efeitos. Golpes que nos fazem perceber que “nunca mais seremos aquilo que fomos”.

Esse som do estalo da rachadura é o que Fitzgerald projetou aos meus ouvidos, absorta quando dos meus quase 40 anos. Um martelar gritado ecoou: mais um ano e tu verás como é. Mais um ano e também tu entrarás na espiral desse ralo que a todos suga, a todos, sem exceção, traga para o fundo. Nos serve esse aviso do tempo? As palavras do homem de letras, que na tenra juventude pôde ser todo o sonho americano, que sofreu as pequenas derrotas sem se importar muito, mas que na maturidade não se perdoou, para que servem? Seu retrato, volto a ele para me acalentar na distância histórica e social, é também um retrato datado, localizado. Mas, algo além, algo sutil e mais terrível salta desse homem, a consciência da derrocada vir não de um golpe fulminante, mas de uma pausa: quando tudo poderia estar bem, quando apartado dos problemas, eles próprios nos agarram pela gola a asfixiar e fazer do ar puro um veneno. ​A incapacidade de se cuidar, digo, zelar a valia da nossa singularidade, a mediocridade em administrar o próprio talento, deixar-se ruir, fragilizar-se, não ser capaz de reconhecer a própria identidade; e tudo isso na solidão ou em meio às pessoas e coisas que amamos. Não tem mais volta. Essa é a sina, e Fitzgerald, mesmo que a doença que o acometeu na juventude sem ser chamada tenha prostrado sua saúde para todo o sempre, além do deliberado alcoolismo, é antes, ele próprio, o seu algoz e não a vítima.

 

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Preferiria não escrever, se o faço não é por vontade, mas por uma espécie de necessidade e teimosia em demonstrar que as palavras não são da ordem da vida, elas podem, quando muito, forjar uma, mas jamais capazes de serem a vida. Era neste engano que seguia com as minhas pesquisas, insistia na ideia de que uma identidade é realizada pelas narrativas que acumulamos e, portanto, por palavras proferidas por nós mesmos, ou por outrem. Foi preciso mudar de casa, topar os olhos em velhas fotografias guardadas para eu me dar conta do processo de apagamento que aquelas imagens vinham sofrendo; foi então que tive a intuição de que tanto as imagens fotográficas quanto as palavras apenas fixam uma abreviatura do ser: breve, etérea, fugaz e ilusória matéria do ser. Foi um silêncio diferente dos outros silêncios diante daquelas imagens apagadas. Foi um silêncio diferente dos meus outros silêncios: emudeci calmamente durante dias.

 

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Das tentativas de escrever alguma coisa digna de ocupar umas poucas linhas saíram aberrações que não dividiria nem com meu melhor inimigo, não por respeito, mas por vergonha. Sim, pois, confesso: a vergonha foi uma das indignidades que me acometeram depois da crise do apagamento das imagens. Houve também a soberba de querer anotar tantas palavras ditas, que depois de ditas são como o fruto que amadurece e cai do pé – tinha a intenção ou a ilusão de que elas pudessem ser como um esquema mnemônico. A única coisa que consegui foi escrever, como um copista, palavras alheias. Houve também a incompetência, nem tanto em organizar minhas leituras, mas em usá-las como algo além de fichamentos, de modo que tivessem algum significado ou relevância para eu chegar a uma escrita “verdadeira” – por que dizer o que tão bem já fora dito? Repetir e repetir mal palavras alheias, qual o sentido? Desencorajador. E houve a que creio a pior das minhas indignidades: querer escrever sobre a crise da escrita. Como poderia escrever sobre a impossibilidade da escrita? Tudo me levava a “Bartleby, o escrivão” de Melville.

 

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Enrique Vila-Matas fez um belo livro sobre os autores do Não, Bartlebys em potencial, que por diferentes modos e motivos foram suicidas da literatura, infectados pela negativa da personagem de Melville, a qual Vila-Matas nomeia de o Mal do Não. O autor catalão rastreou autores que como Bartleby recusaram a fazer o que deveriam.

A recusa é uma potência brutal. Poderíamos recusar de imediato, sem delongas, sem rotina. Toda a merda vem da necessidade de justificar o não. Mas, se como Bartleby, recusarmos a justificar e adotarmos tão somente a recusa como meio de expressão puro? Nova ordem moral: dizer não sem pudor, sem medo, sem compaixão.

 

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A febre deixou-me incapaz de prosseguir com meus planos de “montar” em Bartleby para argumentar sobre a recusa da escrita. O estado febril me foi útil, no entanto, para perceber que a debilidade física poderia ser um dos aliados do Não. Nos últimos dias consegui desmarcar encontros, reuniões, deixei de cumprir prazos e obrigações, dormi por horas ao longo da tarde, li sorumbática e mal-humorada o livro de Vila-Matas, indignando-me com a ousadia dele em escrever um livro sobre autores que abandonaram a escrita. Comecei a grifar partes do livro como esta frase “Para mim sempre tem funcionado bem este sistema de viajar pela angústia de outros para reduzir a intensidade da minha”. Comecei então a recusar certas ideias do livro e a me divertir reescrevendo partes: “Para mim sempre tem funcionado bem este sistema de viajar pela angústia de outros para aumentar ainda mais a intensidade da minha”. Preferiria não acreditar que as palavras pudessem curar; elas não deveriam ser maleitas que ferem pela forma que tomam ao serem pronunciadas, escritas, lidas, a cada vez matando e morrendo? A palavra não curará nossa sede de prazer, ela dará àquele que a possui apenas um bálsamo capenga de segunda mão.

 

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O médico não pôde me dizer o motivo da febre e do meu mal-estar, pediu exames complexos e desnecessários – qual diagnóstico por imagem poderia mostrar que estou infectada pelo Mal de Bartleby? Nenhum exame clínico poderá medir as taxas e níveis do Mal que já sinto correr pelas minhas veias. Repito, se escrevo é por obrigação, preferiria não.

 

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Avanço a passos lentos pela leitura de Vila-Matas, agora a febre tem me deixado letárgica. Comecei a angustiar-me por não ter lido nem um terço dos autores “suicidas” da literatura que Enrique cita. Miseravelmente comecei a ler muito tarde, fui analfabeta de livros até os 16 anos, uma lástima. Deveria ficar mais doente para poder ler mais. Mas, se os meus autores heróis, aqueles que abandonaram a literatura, não tivessem escrito nada?

 

É possível que a febre tenha me deixado susceptível a obviedades.

 

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“The crack-up” é a história de um homem que, ao mesmo tempo que sofre, é aferido por si próprio por meio de uma cruel análise de sua vida; é também um conto de como o meio social interfere na formação e deformação de um homem; mas pode ser também um ensaio sobre o processo de amadurecimento e tomada de consciência de um escritor sobre o quê e porquê escreve. Publicado em três partes entre os meses de fevereiro e abril do ano de 1936 na Esquire Magazine, Fitzgerald conta da perda da sua vitalidade anos antes de sua morte em dezembro de 1940.

Esse homem, que retrata a si como um derrotado, faz de sua descrição uma obra potente e bela. Fitzgerald repete a si próprio uma citação bíblica: “Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor?”. Mas não é por meio das palavras, certamente não, que se poderá restaurar tal sabor, elas podem, quando muito, dar a ver um homem e o leitor, cúmplice, poderá ver nesse algum traço seu.

Fitzgerald questiona o editor sobre qual seria o interesse disso que escreve a outros, mas não deixa de escrever. Como homem que sofre de uma doença natural – a tuberculose –, de uma doença social – o alcoolismo –, e de uma doença moral – tornar-se um medíocre colaborador de roteiros de filmes hollywoodianos –, ele se doa como imagem mítica das afecções que um homem do seu tempo poderia ser atingido. Contraditoriamente, ao mesmo tempo que desautoriza seu discurso, compõe esse retrato de si, como que um ícone da derrocada de todos nós e em todos os tempos.

Fitzgerald é consciente desse processo de autoimolação, sabe que deve forjar um sorriso dos bons e uma voz pálida e sem convicção para poder finalmente tornar-se um escritor, apenas um escritor; entende que “o homem que eu desesperadamente tentara ser tornou-se um fardo tão pesado que me desfiz dele”. Diante da nulidade da vida, não se importa em “ser um animal correto e se vocês me lançarem um osso com bastante carne poderei lamber vossas mãos”. Não há ilusões na terra das ilusões, pelo menos não para o escritor que deixou de ser um homem.

 

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Até agora tenho tido sucesso em não escrever nada, nada científico ao menos, nada que possa ser verificado como verdade. Um nada escrito como Robert Walser em sua “Câmara de Escrita para Desocupados”. Tenho passado os dias sem sair de casa, feliz em minha câmara particular de escrita para nada, grifando e copiando trechos de livros, como este:

 

 

Lembra-te que nas duas extremidades do percurso

É a dor de nascer a mais lancinante

E que dura e se opõe ao medo que temos de morrer,

Lembra-te de que não terminamos de nascer

Mas que os mortos, eles, sim, terminaram de morrer.

(Louis-René des Forêts)

 

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Em uma das pausas da escrita fumo junto à janela, observo a vizinhança, ou melhor, prédios e casas e me pergunto: serão estas também câmaras de escritas para desocupados? Seria necessário, então, escrever para escrever seja lá o que for? Estive escrevendo estas palavras em voz alta enquanto fumava, não desta forma que agora se pode ler, mas de modo mais fluido, mais dinâmico e vivo, diria. O que acontece com todas as coisas que dizemos e não são fixadas no branco (da tela, do papel)?

Volto meu pensamento àquelas fotografias antigas. Considerando o isto foi barthesiano, o que será daquilo que foi, agora que se apaga do papel? Deixará de ser? Talvez alguém que fale daquelas imagens possa restituir a existência delas, ora falando ao ouvido de um outro (tempo instantâneo da fala e da escuta), ora falando à vista de um outro (tempo longo da escrita e da leitura)? A língua e a escrita restituem a materialidade da coisa apagada? O instantâneo, a eternidade...

 

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A fórmula de Bartleby é um silêncio que esgota a linguagem e a reprodução de normas e referências. Já não haveria mais nada a dizer e a fazer ao homem que deixa de produzir, que paralisa e emudece, que recusa sem recusar, por meio de um único proferimento, que não abre um futuro, ao contrário, esgota toda possibilidade. Preferir não é quase querer alguma coisa, mas como esta coisa é uma negativa, elimina o querer, assim como neutraliza o não querer: não avança nem retrocede, para em um devastador silêncio. É a trágica condição humana: figurar e desfigurar perpetuamente. Produzir algo para destruir o que foi produzido.

A fórmula de Bartleby, como aponta Deleuze, se retroalimenta e contagia; o escrivão já não poderia sair de sua vertiginosa condição de preferir não, mas ao mesmo tempo, é isso que dá a ele uma existência. Camus diria que o suicídio é a mais importante investigação filosófica, é na negação da vida que se dá a análise da própria vida. É na descida da montanha que Sísifo pode refletir sobre a absurdidade de sua condição, mas não deixa de refazer o trajeto montanha acima; a possibilidade de uma nova condição anula a absurdidade e o faz avançar.

Bartleby é um homem sem referência, é instantâneo, sua fala não é um ato nem uma constatação, é um vazio da linguagem. Ele diz ao silenciar e o efeito é devastador, enlouquecedor.

 

... cavar na língua uma espécie de língua estrangeira e

confrontar toda a linguagem com o silêncio, fazê-la cair no

silêncio. Bartleby anuncia o longo silêncio no qual penetrara Melville. (Gilles Deleuze, Clínica e crítica)

 

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Meu corpo debilitado e fraco tem dificuldade em sustentar a gravidade, tomba nos cantos. Tenho que escrever, arguir meus conhecimentos, minha criatividade, e isso tem me exaurido. Meu pescoço está cada vez mais rígido, creio que a faringe esteja disfuncional, creio que eu esteja disfuncional. Estou impotente, anti-potente, despotente. Deixo em branco aquilo que deveria preencher. A redução da minha acuidade mental – pela febre ou incapacidade mesma? – deixa vazio este meio onde deveria falar sobre a inadmissível representação mimética da arte e da linguagem como meio de comunicação humana.

Eu precisaria dizer que já não há mais nada a dizer? O silêncio, o vazio, a neutralidade seriam a revanche da arte sobre o falatório inaudível do comum e do estilo? Uma escrita branca já não estaria iluminada por todos os filtros coloridos, que juntos se neutralizam formando a transparência do prisma cromático? No entanto, na sombra do objeto iluminado é possível ver as cores que formam a luz branca.

 

 

© 2019 por Revista Ensaia

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