Gota

Elilson

1. NASCENTE

 

Gota é uma ação performativa que surgiu no âmbito da disciplina Configurações Espaciais II (projeto Desilhas), orientada por Lívia Flores e Ronald Duarte no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais (EBA-UFRJ), durante o I semestre de 2016. A cada semana, os professores indicavam uma palavra como motor para criação artística. A cada palavra, respondi com ações que, em sua maioria, coincidiram com a inter-relação performance e mobilidade urbana, eixo capital da pesquisa que venho desenvolvendo no Mestrado em Artes da Cena (ECO-UFRJ). Em maio de 2016, a palavra sugerida foi um substantivo composto que também é expressão que também é canção que também é ditado popular: “gota d’água”. O ditado, levando em consideração o contexto Brasil/2016, nunca me soou tão usual em seu sentido de situação-limite. Guiado pelo ditado, munido de objetos precário-relacionais e movido por querer responder estética-politicamente ao estado de urgência característico do corrente país e do fatídico ano, formulei o seguinte programa performativo [1]:

 

Um balde de plástico vermelho made in Brazil com capacidade para 13,6 litros é o objeto-guia para uma quase deriva, uma caminhada-busca por quem estiver bebendo água ou trabalhando com água. A caminhada só se completa quando o recipiente estiver transbordante com as águas doadas pelos transeuntes, gota a gota, com as próprias mãos. Toda a água coletada é revertida em ações de lavagem, de escrita e de exposição oral.

 

A partir do programa e da sequência de ações que ele sugere, escrevi as duas narrativas que seguem neste texto. Registros de ações que ocorreram, respectivamente, nas ruas do Centro da cidade do Rio de Janeiro e no Campus Praia Vermelha da UFRJ, os textos se transformam em novas ações, uma vez que tenho exposto oralmente as experiências nas ruas e em mostras de arte. Em espaços públicos e em ambientes de galeria. Espaços de passagem, de arte, de águas em curso e de misturas incessantes. De caráter processual, essas narrativas não estão concluídas, mas desencadeiam modos de fazer circular o trabalho, modos de continuar o curso do trabalho, disparando conversas e(m) volumes, isto é, confluindo encontros.

Elilson é performer, professor, revisor de textos e ator. Mestrando no Programa de Pós-graduação em Artes da Cena da UFRJ, investiga e propõe imbricações entre a arte da performance e a mobilidade urbana, lendo e experimentando ruas e transportes coletivos como espaços performativos. Natural de Recife, é graduado em Letras – Licenciatura  

em Língua Portuguesa pela UFPE. Durante a graduação, foi bolsista em intercâmbio na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa (FCSH – UNL). 

 

Foto: Wilton Montenegro.

2. LEITO

 

“Gota” é um substantivo feminino da língua portuguesa que designa uma pequena porção de líquido que, ao escorrer, tem forma de glóbulo ou, na linguagem popular, forma de pingo. “Gota” também é o nome de uma doença, sem cura ou tratamento definitivo, caracterizada por uma artrite inflamatória provocada por uma concentração de ácido úrico nas articulações, sobretudo nas articulações do pé, as articulações do caminhar. “Gota serena” é como a fase de alívio dessa doença passou a ser chamada no Nordeste brasileiro e acabou se aglutinando à língua como uma expressão de intensidade. “Gota d’água” também é uma expressão de intensidade fincada na língua portuguesa falada em todo o Brasil, que indica um esgotamento de paciência, uma situação-limite. “Gota serena” e “gota d’água” são expressões populares extraídas de ditados populares que nunca serão obsoletos, desde que o Nordeste permaneça falando, desde que a música e a peça de Chico Buarque, um carioca, continuem sendo escutadas, lidas, encenadas. “Gota serena” e “gota d’água”, portanto, indicam a capacidade de perpetuação linguística, de permanência dos ditados populares. Mas vitalidade semelhante à dos ditados populares, possuem os discursos de ódio.

3. CURSO

#1

Rio de Janeiro, Brasil, 30 de maio de 2016. Mercado Popular do Saara, Rua Senhor dos Passos. Dois objetos comprados no Saara: um balde de plástico na cor vermelha, made in Brazil, com capacidade para 13,6 litros e com data de validade indeterminada e uma bandeira verde e amarela, made in China, com tema positivista, 1,30m de comprimento e 2m de largura, também com validade indeterminada. Vestido com camisa preta, bermuda preta e um par de tênis amarelos, integrei ao meu corpo os dois objetos como duas próteses de trabalho, como dois guias para a minha caminhada, como duas peças indumentárias. Amarrei a bandeira ao pescoço, com dois nós fortes, e deixei que ela caísse sobre minhas costas, feito uma capa de herói carnavalesco. Com a mão direita carreguei o balde inicialmente vazio.

 

Aproximadamente às 13h30, iniciei minha coleta nas ruas do Saara carioca. O primeiro homem abordado estava tomando água numa garrafinha plástica. Perguntou para que era, escolhi responder com a ação: “preciso encher este balde até o limite”. “Ah, bom! Pensei que você estivesse com sede, já ia oferecer a garrafa toda”. “Não, por favor, agradeço, mas preciso apenas de uma gota ou do quanto você quiser e puder me dar”, ponderei. Avistei uma mulher sentada na frente de uma lanchonete com uma garrafinha de água quase no fim. Pedi e ele cedeu sem falar nada, apenas com um questionamento que não virou palavra, mas continuou preso na testa franzida. Logo alguns trabalhadores do Saara começaram a interagir, não por conta do balde, mas por conta da bandeira. “Brasil! Brasil!”. “Ele deve tá tirando onda do 7 x 1 ainda, né não?” “Nada! Deve ser protesto ou besteira de gringo”. “Gringo? De alemão ele só tem a cor do bigode”.

 

Posteriormente, parei um casal pelo mesmo pedido. E as mesmas testas franzidas. E o mesmo gesto de doar sem nem um suspiro de vacilação. Adentrei numa lanchonete e pedi ao funcionário um pouco de água da torneira. Ele pegou o meu balde e foi interrompido por uma colega de trabalho, talvez sua superior: “melhor usar a torneira lá de dentro”. Fiquei abiudando a ação dele e frisei: “não precisa encher, moço, só preciso de um pouco mesmo”. A mulher, me olhando da cabeça aos pés, com o mesmo franzir na testa, não questionou, apenas pediu que eu saísse do balcão para não atrapalhar o fluxo. Voltei para a rua e parei um homem com garrafinha, era um estrangeiro. Não de outra cidade como eu, mas um estrangeiro de outro país. “Para quê?!”, ele tentou com um português meio difícil de saber se era hispânico ou inglês. Respondi com a ação e ele sorriu, atendendo, enquanto seus amigos me olhavam com a tal testa franzida. Mais adiante deixei passar duas mulheres conversando. Uma delas tinha uma garrafa de água. Voltei. “Moça, um pouco da sua água?!”. “Para beber?” “Não, para completar meu balde”. “Ah, sim, olha, perguntei porque se você estivesse com sede eu ia comprar uma garrafa para você”. Sem testa franzida, aquela mulher me mostrou o que havia em comum entre a sua resposta e a de todos os outros, com ou sem testa franzida. A explicação era outro ditado popular vindo à tona do fundo da minha infância no Recife até ali, no meio da rua do Rio de Janeiro: “água não se nega a ninguém”.

 

Em seguida, entrei em outra lanchonete. O funcionário pediu autorização ao dono, que consentiu. “Já tá bom?” “Tá ótimo!”. Continuei e parei uma senhora no meio de uma calçada, esquina da Rua dos Andradas com a Senhor dos Passos. Entre sacolas e mesas de ambulantes, ela questionou: “Para quê?!” “Para preencher o balde.” “Não, meu filho, essa água aqui eu comprei pra beber!”, respondeu indignada, com a voz franzida. Às vezes, se nega água a alguém. Um homem vestido de terno entrou na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Rua Uruguaiana, com um copo de água mineral: imagem suficiente para impulsionar minha entrada na igreja vestindo bandeira e balde que já pesava 5 ou 6 litros. Posicionei-me ao lado dele, que, de olhos fechados, rezava. Aguardei o fim da reza cautelosamente. Na primeira abertura de olhos após o sinal da cruz, exclamei: “moço!”. “Ah, claro, mas, poxa, é que eu nem bebi ainda”. “Não quero toda a água, pode beber. Quero só uma gota. Um gole. Um gole pro balde”. Ele fez sinal de “pera” com a mão direita e bebeu metade da água. A outra metade despejou no meu balde. Agradeci a boa ação e ele saiu com um sinal da cruz e um ou dois olhares para trás. Na calçada da igreja, um mendigo parou de pedir esmolas para ler a minha bandeira chinesa. “Ordem e progresso. Olha aí. O-R-D-E-M-E-P-R-O-G-R-E-S-S-O. Enormes. Enormes, né? Será? Será que o Brasil tem? Será que vale carregar ele nas costas? O Brasil. Tá merecendo isso, hein?”. Respondi: “será?”, com um som que desceu por dentro da garganta e segui.

 

No meio da Rua Uruguaiana, na calçada que divide a rua, avistei no shopping chão uma garrafinha próxima a um tapete com acessórios confeccionados manualmente. Pedi a gota e o camelô equatoriano me ajudou com um sorriso e um “sí”. Mais à frente, uma carrocinha de churros, duas senhoras, um rapaz e três garrafas de água mineral pela metade, como expositoras. Após me doarem um pouco de água, já à distância, uma das senhoras me parou: “ei, menino! Isso aí é uma promessa, é?!”. Sorri. Não disse nem que sim nem que não. Ela falou coisas que a rua não me deixou ouvir, mas possuía o familiar franzir na testa. Acenei, troquei o balde de mão: comecei a negociar com o acréscimo de 8 ou 9 litros de volume ao meu corpo. Entrei em mais uma lanchonete. A funcionária perguntou desconfiada: “isso é pra quê, hein?”. “Eu me coloquei a tarefa de preencher este balde com o maior número possível de águas diferentes. É isso”. “Ah, tá. Acho que entendi”. Agradeci e saí atravessando a rua, fora da faixa de pedestres. Corri um pouco, mas a água ameaçou derramar. Um motorista de ônibus colaborou e deixou que eu atravessasse com calma.

 

Largo da Carioca. Quase 15 h. Uma parada ou a água caía. Troquei de mão algumas vezes, tentei carregar o balde como cesto, abraçando-o na barriga. Depois como balaio na cabeça. De todos os modos a água caía um pouco ou ameaçava cair. A alça de ferro parecia que não aguentaria tanto tempo. Começou a bater um desespero, começou a me faltar água na boca. “Se a alça romper, vou ter que recomeçar toda a coleta”. Decidi parar e olhar todo o Largo da Carioca, esperar que alguém passasse bebendo água ou segurando um copo, uma garrafa... Ninguém. Alguém! Mas não dava tempo. Parar as pessoas estando parado não dava certo. Parar as pessoas estando também em movimento era o que tinha enchido o meu balde até ali. Faltava pouco. Do outro lado do Largo, no posto da Polícia Militar, percebi que um PM me observava. Olhei para ele algumas vezes e o botijão de água mineral de 20 litros, na cor rosa, saltou à minha vista. Como poderia ignorá-lo?

 

Voltei a carregar o balde pela alça com a mão direita e fui até o posto. Bati à porta e o policial veio me atender. “O senhor poderia me doar um pouco de água? Vi que tem bastante na guarita”. “Para quê?” “É uma promessa”, respondi aproveitando a dramaturgia que a senhora do churros escreveu para nossa ação. “Uma promessa?! Olha! A bandeira faz parte?” “Claro, claro. Tudo faz parte, moço, até o senhor”. “Pois eu vou lhe dar a minha água”. “Não, moço, pode ser a do botijão!”. “Não, prefiro dar da minha garrafinha”. O PM abriu uma marmita e despejou toda a sua água pessoal.  “Não é uma promessa? Espero que seja para uma coisa boa, hein?!”.

 

Segui para o meio do Largo, faltava cada vez menos para completar os 13 litros. Mas um homem bêbado com camisa do Flamengo pulou no meu pescoço, acho que atraído pela bandeira. Falou coisas como “Brasil! Ê!”. Protegi o balde, alguma água já tinha caído. Ele perguntou o que eu estava fazendo, respondi. Perguntou se servia o líquido que tomava num copo de guaravita. “Só serve água”, afirmei. Não adiantou: ele mergulhou o copo com cachaça na minha coleta de águas. Agarrou o balde, agarrei de volta. Na peleja pela água, evitei que mais líquido fosse derramado e ele jogou outra coisa dentro do balde, antes de se atirar ao chão e dizer que estava passando mal. Voltei toda a minha atenção para ele e perguntei se queria uma garrafa de água. Pediu a do balde. “Essa não serve. Essa não é para beber. Essa é o meu trabalho”. “Mas é a minha cachaça. Eu quero a minha cachaça”. “Mas o senhor jogou porque quis, eu não pedi. Bem, o senhor tá passando mal? Vou comprar uma garrafinha de água”. Ele se levantou, pedindo o dinheiro ao invés da água. O ambulante carioca o conhecia: “deixa o cara em paz”. Mas ele continuava pedindo o dinheiro, enquanto me agarrava de novo. Eu abraçava de volta, cuidando para preservar as águas do balde. Descansei o balde no chão e, finalmente, percebi a “outra coisa” que ele havia jogado. Era um saquinho plástico com cocaína. Pensei: “se ele tá me cobrando a cachaça que jogou porque quis, imagina quando notar a falta do pó?”. O homem bebeu a água e voltou para o chão. O vendedor mandava ele ficar quieto e me aconselhava: “vai rápido e em paz”. Tirei o saquinho de coca do balde e despachei no chão. Certa quantidade já estava homogênea à água. Prossegui.

Parei duas mulheres, acho que eram mãe e filha. “É que ainda nem bebi”. “Ah, tudo bem. Que susto. É que a gente tinha entendido outra coisa. Tome um pouco”, disse a possível mãe segurando no coração. Depois outra carroça de churros. “Um pouco dessa água que tá acabando?!” “Para quê?” “Para terminar de encher meu balde”. “Não, moço! Trabalho com essa água, ela tá aí para expor a mercadoria”. “Entendo, mas eu também trabalho com água, falta pouco, por favor”. “A garrafa vai cair se ficar vazia, moço, tá quase no final”. Não sei ao certo porquê, mas insisti até que ela me cedesse dois dedos de água, bastante contrariada. “Tá bom. Pega aí e bota que eu tô ocupada, não tá vendo, não?.” Parei mais adiante para assistir três músicos tocando na rua. Os trabalhadores do VLT ainda em construção riam de longe, apontando para a bandeira e para o balde. Eu não consegui escutar e eles não tinham água, então dobrei a esquina para entrar na saída A do metrô “Carioca”, na Rua Bittencourt da Silva. “Isso é por causa da crise do Brasil?!”, perguntou um idoso trabalhando como engraxate. “Não deixa de ser”, respondi. “Tem que prender a Dilma, não é?” “Oi?” “Tem que prender a safada da Dilma, não é?”. Respirei. Tinha planejado coletar todo tipo de água e ouvir o que a rua tinha a me dizer ao me ver com uma bandeira verde e amarela e com um balde vermelho. Não aguentei, precisava perguntar e responder. “Por quê 

Foto: Anderson Damião.

prendê-la?! E por quê safada?! E Cunha?! Temer?! Bolsonaro?! Aécio?! Não deveriam estar presos?! Não são safados?!” Exclamei. O homem que tinha o sapato engraxado, fumando maconha, balançou com a cabeça concordando comigo. Outro senhor, mais ao canto, parou de engraxar um sapato e bravejou: “já sei para quê é essa água, é para lavar a sua língua, não é?!”.

 

Entendi que precisava seguir. Entrei na área do metrô Carioca, perto das escadas rolantes. Pedi a água de uma passante. “Mas não tem nada!” “É só uma gota que eu preciso mesmo”. Ela entregou a garrafa toda franzida, com a testa também franzida, e foi embora. Voltei ao Largo da Carioca. O balde já estava cheio. O que fazer com toda aquela água? 13 litros de água, uma bandeira para ser lavada em praça pública e outro ditado popular na ponta da saliva: “roupa suja se lava em casa”. Era no Largo da Carioca que eu queria terminar a ação.

 

O chão de lá já tinha recebido gotas dos meus encontros e até cocaína. Dois olhares me fizeram ter cuidado: o bêbado que poderia cobrar a cocaína e o PM que poderia revogar o auxílio à promessa. Ao mesmo tempo quis lavar ali, justamente pelos dois olhares, mas na rua chega um momento em que prudência é palavra de ordem para que o corpo progrida sem órgãos. Voltei à outra margem do Largo, perto da Caixa Cultural, esquina da Almirante Barroso com a Rio Branco. Me despi do balde e da bandeira e, com esfregão e sabão amarelo (neutro), lavei-a por quase 20 minutos com 13 litros de águas coletadas em 2 h. Esfreguei até que o lema positivista ficasse nebuloso: quase escrito, quase apagado, sem ordem, ainda com progresso, turvamente. Lavei até que todas as águas sumissem do balde e corressem pelo chão da cidade.

 

Cidade que agrega toda sorte de encontros, violências, dramaturgias, políticas, poéticas e palavras. Ação performativa que pode literalizar ditados populares com o corpo, com os corpos e sua polifonia de águas. Água mineral, água da torneira, água de transeunte brasileiro, água de transeunte estrangeiro, água de comerciantes brasileiros, de ambulantes brasileiros, água de ambulante estrangeiro, água com saliva de brasileiro, saliva de gringo, saliva de ambulante, saliva de religioso, saliva de policial militar. Água com testas franzidas. Água com cachaça e com cocaína.  Cocaína, cachaça, discursos, impressões digitais, trabalhos e origens agregados e diluídos em água para lavar de uma bandeira seu lema convertido em símbolo de golpe. Entre a coleta, a lavagem, a escrita e as experimentações de exposição oral, fala a fala, mão a mão, gota a gota, numa deriva de palavras, a cidade vai compondo a formul-ação de um novo ditado: não se nega receber água de ninguém.

Foto: Francisco Costa.

 

#2

Ao começar a ler esta narrativa, peço que esteja acompanhadx de água. Em copo ou em garrafa, pouca ou muita, gotas ou litros. Peço, também, que olhe o horário local de sua cidade, a hora e os minutos com exatidão. Com a hora em vista, verifique se as horas de Brasília, do Rio de Janeiro, de Recife e de Ananindeua, no Pará, estão correlatas ao horário de sua cidade. Em Brasília, no Rio, em Recife, em Ananindeua ou em qualquer outro município do país, incluindo onde este texto está sendo lido, resguardando a virtualidade temporal imposta pelo fuso horário para mais ou para menos, alguma lésbica, algum gay, algum ou alguma bissexual, alguma travesti, alguma pessoa trans ou qualquer outro dissidente de gênero e sexualidade certamente, estatisticamente, já foi morto hoje no país; ou assim o será até que termine este dia, esta leitura, esta hora.

 

Vamos voltar horas e águas até o mês de julho de 2016. Quinta-feira, 07 de julho, UFRJ, campus da Praia Vermelha. Pouco depois das 15h, um viado decide transitar pela universidade portando um balde de plástico vermelho, made in Brazil, com data de validade indeterminada e capacidade para pouco mais de 13 litros. No sábado, 02 de julho, 120 horas antes, outro viado foi assassinado no campus da Cidade Universitária, na Ilha do Fundão. Pouco mais de 150 horas antes de sua morte, no banheiro masculino da Escola de Comunicação – ECO, Campus Praia Vermelha, havia a seguinte pichação: “morte às bichas da ECO.” No dia 06 de julho, isto é, 96 horas após o assassinato, em outro banheiro masculino, dessa vez localizado num contêiner do Campus Praia Vermelha, próximo ao campinho de futebol, uma nova pichação:

Voltemos ao dia 07 de julho e ao balde vermelho. Com esfregão e água sanitária na bolsa, resolvi agir pela segunda vez a ação GOTA. O objetivo era preencher o balde SOMENTE com um pouco da água potável, da água mineral e pessoal de cada estudante, funcionário, professor ou visitante da UFRJ que eu encontrasse no trajeto entre o banheiro masculino da ECO e o banheiro masculino do Contêiner. A água coletada deveria ser doada, gota a gota, por cada membro da comunidade acadêmica, com suas próprias mãos. O objetivo era remover a pichação VIADO BOM É VIADO MORTO e a resposta de complementação “E você continua vivo?” com todas as águas, salivas, origens, profissões, impressões digitais, discursos e vozes que coubessem em 13 litros.

 

Logo nas primeiras abordagens, vi que era necessário explicar o motivo do inesperado pedido quase que imediatamente. No meio da rua as pessoas doam água sem questionamentos e com, no máximo, testas e vozes franzidas. Na universidade, ao contrário, o pedido requer explicação, porque o discurso é científico e a ação deve revelar metodologia, objetivos gerais e específicos e, por vezes, hipóteses norteadoras. Diferente da rua, aliás, a performance GOTA necessitava de uma explicação para além do pedido: era imperativo que cada transeunte da UFRJ soubesse sobre a pichação, era preciso trocar uns segundos ou minutos de conversa sobre a pichação. Ademais, era preciso deixar que cada encontro se manifestasse e criasse um rastro em forma de líquido, de estranhamento, de empatia, de conversa que continua depois que o corpo com balde vermelho some de vista, que o corpus da coleta de dados em balde vermelho some de vista.

 

Primeiramente me dirigi ao campinho, era necessário ler com os próprios olhos a pichação. Por coincidência, não por acaso, somente por acaso, parei um estudante para pedir informação a respeito do ódio e da localização. “Ah, eu te levo lá. Fui eu que fotografei e postei no Facebook. Foi lá que você viu?” “Não, uma desconhecida me abordou ontem relatando sobre”. Saí de lá e fui até o banheiro da ECO, local de partida para a coleta de 13,6 litros de “água pessoal”, como eu pedia. Coleta que durou quase duas horas. A cada pedido, após a exposição do fato, do ódio, do medo, da ação que ali fazíamos juntos, eu, os alunos, os seguranças, os professores, os funcionários, os participantes de um congresso internacional de ciências sociais, para todos eu complementava: “não precisa ser toda água, o quanto você puder e quiser doar”. (Um adendo: puder e quiser é dueto verbal que aprendi com os pedintes de ônibus e metrô. O quanto puder e o quanto quiser… Esses dois verbos ditos assim, juntos, é argumentação quase infalível. É metodologia linguístico-argumentativa das ruas).

 

Ainda no Campinho, após localizar as frases pichadas na porta da quarta cabine do Banheiro masculino do térreo, localizado a aproximadamente 620 horas de Belém do Pará, a 614 horas e 24 minutos de Ananindeua, a 4 horas e 18 minutos da Ilha do Fundão e a menos de 5 minutos do banheiro da ECO, abordei dois garotos que treinavam numa barra de ferro e pedi um pouco de suas águas. “Onde tá isso? Quando foi isso?” “Olha, eu vou trazer spray amanhã e pintar por cima”. “Bem, eu vou lavar, nós vamos lavar e você pinta lá, mas não vai ser mais por cima. Vai ser por cima da nossa lavagem, pode ser?”

 

Em seguida, uma professora caminhava conversando com 5 alunos, era a única do grupo com água ao alcance da minha vista. Pedi licença. Ela atendeu e, como uma deixa, os alunos se despediram. Pedi água. “Meu Deus do céu… Isso tem a ver com o menino que morreu no Fundão?” “Que foi morto”, respondi. “Ele era gay? Eu estou por fora…” “Gay, negro, de Ananindeua, no Pará”.  “Meu Deus! Isso tá no contêiner? Eu dou aula lá.... Só de pensar que pode ter sido um aluno meu…”, disse ela, despejando toda a sua água no balde. “EI!”, ela, antes de abrir o carro. “OI!”, eu, antes de dobrar a esquina. “Eu vou falar sobre isso amanhã em todas as minhas aulas, certo? Eu prometo.”

 

De volta à ECO, na frente dos banheiros, uma aluna me ouviu silenciosamente e me doou silenciosamente. Outra falou que “não era possível” e derramou toda a água da garrafa que acabara de encher no bebedouro. Na xérox do Itamar, apenas ele tinha uma garrafinha de água. Me doou alguns dedos. Virei à direita, no corredor que daria de volta à entrada do prédio, entrei numa sala de estudos. Pedi licença e pedi água às quatro alunas. Todas doaram. Mais adiante, numa sala perto da diretoria, interpelei três professores de comunicação. Um deles doou e pediu que eu passasse meu contato, para descrever a ação em alguma página de algum projeto de algum setor da ECO. Não respondi nem sim nem não, tampouco deixei o meu nome. Uma professora manteve a testa franzida todo o tempo, pediu para entender 3 vezes e disse: “aqui no final do corredor tem um banheiro, lá tem torneira.” “Essa água não serve.” Eu ainda precisava encontrar uns 10 litros e meio e me despedi. Na portaria, um aluno me ouviu, mas não tinha água. Um funcionário levantou a vista pra mim uma, duas vezes e voltou os olhos para o celular. Não sei se tinha água.

 

Na saída da ECO, alguns alunos estavam pintando uma faixa EDUCAÇÃO SEM TEMER; um deles conseguiu me ouvir. Na guarita, a segurança preferiu não se arriscar, disse que era novata e, por isso, não sabia se poderia doar a água. “Ah, espera, meu colega tá chegando, ele é antigo aqui, quem enche as garrafas é ele...” Ela repassou meu pedido, eu reiterei. “Minha água pessoal? Você quer minha água pessoal? Como assim? Água pessoal...? Você quer o meu xixi?!” “Não, ele quer a água da tua garrafinha.” “É, moço, para limpar VIADO BOM É VIADO MORTO, que tá escrito num banheiro do Campus”,  repeti. “Ah, bota aí um pouco pra ele.” Ela finalmente se sentiu autorizada e me doou a água.

 

Dois alunos sentados no meio-fio. Não tinham água, mas, com a mão no peito, quase coreograficamente, agradeceram. No Cópia Café, uma reunião de orientação e muitas águas. Era inevitável, eu tinha que interromper. Todos doaram e a reunião tomou outro rumo, o professor passou a falar sobre uma “organização fascista universitária.” “Capaz de você cruzar com quem escreveu isso, hein?” Participei da conversa, mas ao lado, bem do lado, dois alunos com uma garrafinha cada um. “Oi, pode me doar um pouco da sua água para…” “Olha, mas aqui do lado tem essa torneira, cê viu? Assim vai terminar mais rápido.” “Mas eu não quero água da torneira, nem quero terminar mais rápido.” “Ah, entendi. Água da torneira quebra a parada simbólica, né? Pô, tomaí, maluco!”

 

Diretório Central Estudantil. Pessoas almoçando ou pagando a refeição. Ninguém tinha água dentro das bolsas. Ao menos todos disseram que não tinham. Uma estudante foi mais enfática: “se eu tivesse, derramaria toda.” Um grupo de 5 rapazes, todos com mochila, ouviram atentamente minha explicação, sem nenhum balançar de cabeça ou testa franzida. “Pô, a gente não tem, cara”. De frente ao prédio de psicologia, havia um grupo de congressistas estrangeiros. A garota me doou o último gole da garrafa. Um deles me surpreendeu: “não tenho água, mas quero contribuir com minha água pessoal, como você diz, pode ser?” “Claro.” Ele juntou uma porção de saliva na boca e depositou o cuspe no balde. Agradeci. “Olha, há vários europeus ali. Vai lá. Todo mundo tem água e vai gostar de participar. Estamos no intervalo do Congresso”, me orientou o amigo dele, acho que britânico. “Obrigado, mas prefiro seguir agora e coletar de brasileiros. Deixo que vocês contem a história.” “Entendo. Boa sorte. Eu sinto muito”, disse ele. “Eu também”, respondi.

 

Alguns centímetros depois, duas alunas brasileiras. Pedi água. “Me explica. É que só notei que você tá recolhendo água, é isso? Pra quê?”. Discorri sobre a ação, ela atendeu, derramando um pouco de água: “claro, mas eu quero dizer que eu sou cristã. Eu sou cristã. Acho um absurdo essas coisas, eu defendo discurso de ódio, o direto de cada um escolher ser o que quer, independente do que eu ache dessa escolha, desde que a pessoa não desrespeite ninguém por sua escolha.” Entre atos falhos curiosos por parte dela e umas provocações por parte minha, achei aquela água turva, mas não fazia parte da ação julgar e nunca, é claro, recusar, afinal, como já havia me ensinado a rua: não se nega receber água de ninguém.

 

Mais adiante, um grupo. “Ele vai jogar na gente, cuidado!” “Sílvio Santos quem te mandou, foi?” “Você estuda na ECO, né? Isso parece coisa de quem estuda arte e só tem curso de arte aqui na ECO”, disseram, entre risos e doações. Interrompi duas conversas distintas, juntando dois grupos próximos para falar de uma vez só. Quem tinha deu, quem não tinha lamentou não ter, lamentou a morte, lamentou a pichação. Outro grupo questionou: “VOCÊS já comunicaram às coordenações?” Não apenas adorei, como respeitei o plural e disse que NÓS ainda não havíamos feito isso até aquele momento, mas que relataríamos – e não apenas na Universidade. Não apenas na Universidade.

 

Depois um grupo com 6 pessoas. Ouviram e, em silêncio, sem nenhuma expressão facial que indicasse concordância ou retração, doaram, sendo que em cadeia. Um doava, olhava para o lado, como se incentivando ou autorizando o outro a doar também. Não sei exatamente qual verbo dirigia aquelas águas, mas o balde já pesava cerca de 8 litros. Posteriormente, uma estudante levantou o dedo indicador para a direita, direcionando meu olhar. DIEGO VIEIRA MACHADO, PRESENTE. Dizia um cartaz. Balancei a cabeça. Nos olhamos um tempo, por cinco segundos. Segui. Cruzaram meu caminho os cinco rapazes que estavam com mochilas. Agora todos com água, cada um com uma garrafinha. Nos olhamos. Eu com o balde, eles com as águas. Eles passaram. Eu segui.

 

Área dos fiteiros e restaurantes – ou “sujinho”, como falam os estudantes. Um grupo com três rapazes conversava sobre tsunami. Pedi uma gota de água. “Só tem um gole, serve assim mesmo?”. “Ô se serve!”. Um grupo com quatro meninas e um menino. Ele, com a garrafa na mão, exclamou: “ai, minha água com gás…” “Serve igual, mas é só se puder e se quiser, viu, não tem problema não doar”, frisei. “Não, toma um pouquinho só. É que essa água é mais cara, entende?” Uma amiga dele interrompeu, mas sem olhar para mim: “não entendo porque ele não pega da torneira.” “Ei, cê sabe que lá no banheiro do contêiner tem várias pias com torneiras, né?” “Aham. Tem cinco torneiras lá”, respondi. “Então”, disse ela. “Então”, respondi, prosseguindo.

 

Duas garotas quase correram. “Calma.” “Ufa, a gente pensou que você que ia jogar todo o balde na gente. Vai saber!” “Achou que era uma pegadinha?” “Mas não tá na época de trote”, disse uma delas, recebendo da outra a resposta: “sei lá, a gente tá entre a ECO e o Pinel, vai saber.” Elas doaram e eu fiz questão de localizar: “não sou do Pinel, mas sou da ECO, sim”, com um agradecimento menos líquido. De volta ao campinho, já completando a ação, uma segurança me ouviu, doou e professou: VIADO BOM É VIADO BEM VIVO, PERTO DE MIM, ME OUVINDO, CONVERSANDO COMIGO DESDE PEQUENA, INDO PRA BALADA COMIGO DANÇAR. Aff, meu Deus, até quando? É mulher, é negro, é gay… Olha, vou passar o rádio pra minha colega do contêiner ficar de olho.” Sorri (na verdade gargalhei), agradeci e segui. Na cantina, uma garota, longe da bolsa, pediu ao amigo: “abre o bolso da direita e dá aí pra ele, amigo.” “Aqui não tá, não.” “É no bolso da esquerda, então”, ela disse, para a minha preferência. Ele derramou um gole. “NÃO, AMIGO, A ÁGUA TODA.” “TODA?” “MAS É CLARO!”

 

No final do percurso, encontrei dois participantes do mesmo congresso de ciências sociais. Ela não tinha água, ele tinha uma garrafa de 1 litro e meio cheia. Doou metade e completou os 13,6 litros do meu balde, dizendo: “que coisa antagônica! Você tá me dizendo que uma pessoa homossexual, bi, trans ou travesti é assassinada a cada 28 horas no Brasil? Que contraditório, ontem mesmo eu estava na Lapa: tantas travestis! Pensei que elas estavam seguras.” “Acho que não”, respondi. A amiga interveio: “Diego é aquele estampado ali na avenida, numa grafitagem?” “Não, aquele era outro aluno. Que foi assassinado num assalto no ponto de ônibus.” “Naquele ponto de ônibus? OMG! Mas podemos nos sentir seguros lá agora?”. “Espero que sim, vocês e eu.” Um silêncio se fez presente e eu fiz a palavra voltar: “olha, mas bem-vindos ao Rio de Janeiro.” Em seguida perguntaram de onde eu vinha. “De Recife.” “É que nem aqui?”. Falei sobre as muitas semelhanças e as diferenças entre Rio e Recife, mas fiz questão de dizer que lá, como cá, pessoas também são agredidas e mortas por conta da sexualidade ou do gênero. “Onde vocês vivem não?”. “Bem, acontece, mas não assim, não ouvimos muito. Sou da Suíça”, disse ela. Ele apenas disse que era do Reino Unido, engolindo saliva na sequência.  “Não poderemos mais morar lá”, gracejou a suíça, referindo-se ao BREXIT. Me despedi e saí andando com cuidado, mas algumas gotas ficaram pelo chão (elas sempre ficam, na verdade).

 

Banheiro masculino do contêiner, quarto box. Com os 13,6 litros de águas e 10 mililitros de água sanitária, eliminei com um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete golpes de esfregão a frase VIADO BOM É VIADO MORTO e sua complementação E VC CONTINUA VIVO?” pichadas NUM BANHEIRO DE UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA BRASILEIRA. No final, quando despachava a água restante, uma segurança interrompeu: “recebi o rádio da minha amiga. Conseguiu?” “Entra. Tem ninguém além de mim.” “Que absurdo… A gente tem que ficar mais de olho nisso. Eu vou ficar, viu? É que no feminino nunca aparece uma coisa assim, graças a Deus.”

Entre gotas d’água e gotas serenas, entre ditados populares e discursos de ódio que podem igualmente se perpetuar na língua, esta ação, que só tem sentido se for de fluxo, continua num ciclo de coleta, lavagem e escrita que não cessa neste compartilhamento oral, mas prossegue em forma de disparadores: quantos encontros cabem em pouco mais de 13 litros de água? Quantas mãos pesam um balde com cerca de 13 litros de água? Quantas mãos lavam com quase 13 litros de água? Quantas vozes escrevem um texto de aproximadamente 13 litros? Quantos discursos dão conta de lavar um discurso de ódio com 13 litros? Em quantas horas se aglutinam línguas, origens, trabalhos e salivas em mais ou menos 13 litros de água-texto?

 

Os 13,6 litros de água que compõem este texto são dedicados e endereçados a Diego Vieira Machado e ao gay, à lésbica, a/ao bissexual, à travesti, à pessoa trans ou qualquer outro dissidente de gênero e sexualidade que, com certeza, respeitadas as diferenças de fuso horário, foi morto hoje em alguma das cidades brasileiras ou que o será até que se conclua este dia, esta leitura, esta hora. A Diego, a elxs, a nós, vítimas em potencial, com toda a potência de nossas gotas.

Quanto à água que o acompanhou, peço que a engula ou que a despache.

 

Foto: Miro Spinelli.

nota

[1] Conceito elaborado por Eleonora Fabião (2013), inspirada pela aparição da palavra programa no texto 28 de novembro de 1947 – como criar para si um Corpo sem Órgãos, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Ver: http://www.cocen.unicamp.br/revistadigital/index.php/lume/article/view/276

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