Vida

Foto: Elenize Dezgeniski

Ranieri – Era tarde demais...

 

Rodrigo – A primeira e a última viagem que você fez.

 

Ranieri – A sensação de ir, apenas isso.

 

Giovana – De chegar em casa e se sentir realmente em casa.

 

Ranieri – De sair, ir pra uma festa, encontrar as pessoas, dançar e achar que o mundo pode ser isso.

 

Giovana – Que está tudo bem.

 

Ranieri – Sim, que está tudo bem.

 

Rodrigo – E depois acordar de ressaca e não lembrar de nada.

 

Ranieri – De nada. Nem do instante de liberdade depois do entusiasmo.

 

Rodrigo – De nada.

 

Giovana – Acordar com a culpa.

 

Ranieri – Ah, com a culpa!

 

Giovana – Com a culpa.

 

Ranieri – E só existir o dia seguinte. O presente do dia seguinte. Nada antes, nada depois. E não lembrar mais de nada.

 

Giovana – Eu lembro de ter sentido isso.

 

Nadja – Eu também lembro.

 

Rodrigo – Temporal.

 

Giovana – Você lembra?

 

(Silêncio)

 

Giovana – Ela não fala.

 

Ranieri – Deixa ela em paz.

 

Rodrigo – E lembrar então pode ser uma forma de existir.

 

Giovana – Achei o fósforo! (Acende o fósforo)

 

Ranieri – Fazia tempo que eu não me sentia tão sentimental.

 

Giovana – Alguém tem uma vela?

 

Ranieri – Vocês nos vêem, com o fósforo aceso vocês nos vêem?

 

Rodrigo – O que é que a gente faz sem luz?

 

Nadja – Espera.

 

Giovana – Ai, é claro que nos vêem! Vo-cês nos vê-em? (Apaga-se o fósforo) Ai... apagou. Alguém tem uma vela?

 

Rodrigo – Ninguém enxerga a gente aqui. O que é que a gente faz sem luz?

 

Nadja – Espera.

 

Giovana – Espera, ela falou.

 

Rodrigo – Ela falou.

 

Giovana – (Acende novamente um fósforo) vo-cês nos vê-em?

 

Ranieri – Pra que falar assim?

 

Giovana – Você também falou assim. Eles nos vêem, com o fósforo eles nos vêem. E eles escutam. Alguém tem uma vela?

 

Ranieri – (Agressivo) chega!

 

Giovana – O que é isso?

 

Ranieri – Chega! Pára de perguntar se alguém tem fósforo, se alguém tem vela, sem parar, ninguém aguenta isso!

 

Giovana – Por quê?

 

Ranieri – Para! Chega de perguntas!

 

Giovana – Grosso! Achei uma vela! (Acende a vela)

 

Ranieri – Finalmente!

 

Rodrigo – O quê?

 

Giovana – Pra que falar assim comigo?

 

Ranieri – Ela achou uma vela!

 

Rodrigo – Eu?

 

Giovana – Não, ele, eu perguntei pra ele por que falar assim comigo?

 

Rodrigo – Ah.

 

Ranieri – Outra pergunta?

 

Giovana – Sim, vamos lá... O que é que eu te fiz? Todo mundo faz perguntas e você nunca responde assim. Você é gentil com as pessoas. Por que não comigo? O que é que eu te fiz? Eu sempre chego e te dou bom dia. Você me diz bom dia? Você espera um bom dia, mas você nunca me diz bom dia. Você me diz bom dia? Se você me encontra num elevador você me diz bom dia? Você sabe que dia é hoje? Alguém sabe que dia é hoje? Eu tenho sempre um sorriso amável e uma palavra de conforto pra qualquer um que precise. O que é que eu recebo em troca? Você sabe que dia é hoje? (Suspensão) os meus 40 anos! Hoje é o dia dos meus 40 anos! Você me deu bom dia? Você sorriu pra mim? Você me disse uma palavra amável? De sorte? (Apaga-se o fósforo) alguém tem um fósforo? Eu tenho uma vela, mas acabou meu fósforo! (Descontrolada) uma palavra de felicidade? Um palavra de conforto? Alguém tem um fósforo? Fós-fo-ro! Alguém!!!

 

Nadja – (Acende um fósforo)

 

Giovana – (Vai até a Nadja e acende a vela) Obrigada. (Põe a vela em cima de um bolo de aniversário). Eu trouxe isso. Hoje é o dia dos meus 40 anos.

 

Ranieri – Então vamos cantar parabéns pra ela.

 

Rodrigo – Parabéns pra você?

 

Ranieri – Parabéns pra ela.

 

(Ranieri convida o público pra cantar junto. Cantam. Durante a cena a luz volta e interrompe a cerimônia. Com a surpresa da luz, o bolo cai no chão. Suspensão. Nadja ajuda a recolher o bolo despedaçado; Giovana assopra a vela. Festejam)

 

Giovana – Espera, eu também trouxe isso! (pega um champagne e taças de plástico; Rodrigo abre a garrafa. Distribuem taças de champagne entre eles e o publico) Um brinde pra mim. Saúde! Saúde! Espera! Um Viva pra mim também! Viva!! (todos brindam) Viva! Ah, a vida pode ser boa! Um momento agradável, junto das pessoas queridas! Eu estou tão contente de estar aqui, com vocês, esta noite. Viva!

 

(Nadja se distancia e senta numa cadeira no meio do palco)

 

Giovana – Você não fala nada, Nadja. A gente nunca te ouve?

 

Nadja – Não, nada, eu fico quieta.

 

Giovana – Por que você sempre fica tão quieta?

 

Nadja – (Silêncio)

 

Giovana – Por quê?

 

Nadja – Eu prefiro não falar. (Pequena pausa)

 

Giovana – Tem uma coisa sobre a qual você não quer falar?

 

Nadja – Tem uma coisa sobre a qual eu não quero falar. (Giovana ajeita a roupa da Nadja) Eu gosto da minha roupa.

 

Giovana – Eu sei, não é isso...

 

Nadja – Eu estou bem. Eu prefiro não falar. (Giovana ajeita a roupa da Nadja) Você não gosta da minha roupa?

 

Giovana – Não, não é isso...

 

Nadja – Você me diz todo o tempo...

 

Giovana – O tempo todo.

 

Nadja – O tempo todo.

 

Giovana – Eu digo o tempo todo.

 

Nadja – Você me diz o tempo todo que eu devo vestir isso e aquilo. Que eu devo, que eu devia.

 

Giovana – Você está bem? (Giovana ajeita a roupa da Nadja)

 

Nadja – Eu estou bem. Eu fico quieta. Eu prefiro não falar. (Nadja reage de forma inesperada. Tira a peruca da Giovana, senta-a com violência na cadeira e lhe dá um tapa na cara)

 

Najda - Eu não estou triste por não falar. Você me diz que eu deveria vestir esse sapato...

 

Giovana – Calçar esse sapato.

 

Nadja – Calçar esse sapato.

 

Giovana – Eu digo calçar esse sapato.

 

Nadja – Que eu deveria calçar esse sapato, que essa saia, que essa cor, que é muito triste. Eu estou bem. Que eu estou pálida...

 

Giovana – Sou pálida.

 

Nadja – Sou pálida.

 

Giovana – Sou pálida.

 

Nadja – Que eu sou pálida. Eu estou bem. Que eu vivo sozinha. Que é pra eu colocar uma cor na minha boca, um batom na minha boca. Um blush...

 

Giovana – Um blush.

 

Nadja – Um blush. Que meus olhos estão fundos...

 

Giovana – São fundos.

 

Nadja – São fundos.

 

Giovana – São fundos.

 

Nadja – Que os meus olhos são fundos. Que eu sou magra, muito magra. Eu cheguei aqui, eu não conheço você, eu não conheço vocês. Eu cheguei aqui. Eu cheguei aqui, eu faço o meu trabalho. Se eu estou sempre sozinha? Se eu estou sempre sozinha! Que os meus hábitos. E daí os meus hábitos? E os seus hábitos?

 

Giovana – Você está bem?

 

Nadja – Eu estou bem. Você não gosta de mim? Vocês não gostam de mim? Quem são vocês? De onde vocês vieram? Alguém nasceu aqui? Ninguém nasceu aqui! A gente viaja, não é? As paisagens mudam, não é? E um dia elas não mudam mais. E você olha pra trás e não consegue mais lembrar. Da paisagem, dos hábitos. Não consegue mais lembrar de onde você veio. A imagem vai se apagando. Eu fico quieta. Eu luto pra permanecer prescindível. Pra não fazer falta a ninguém. A gente viaja, não é? E vocês me olham como uma estranha. E eu olho pra vocês como estranhos. Pára de olhar pra minha roupa!

 

Giovana – Desculpa.

 

Nadja – Pára de olhar pros meus sapatos. Você me olha o tempo todo! Vocês me olham! Eu sou magra! Eu sou alta! Tenho as pernas finas e os pés pequenos, tenho sim. Tenho dois cambitos. Tenho pernas compridas. Meu nariz é adunco, eu sou pálida. Tem uma pessoa, que sempre que a gente se encontra a gente se abraça. Um braço por cima, o outro por baixo e as mãos se encontram atrás. A gente se olha e a gente já sabe. Chama abraço mais. Só a gente sabe. Vocês não me conhecem, eu não conheço vocês. E nós estamos aqui, não estamos? Nesta cidade, neste lugar. Alguém escapou? Eu fico quieta, eu deixo vocês falarem (silêncio: recita com furia e entusiasmo a poesia de Velimir Klhebnikov na transcriação de Haroldo de Campos). “Ride, ridentes!/ Derride, derridentes! / Risonhai aos risos, rimente risandai! / Derride sorrimente! / Risos sobrerrisos – risadas de sorrideiros risores! / Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros! / Sorrisonhos, risonhos, / Sorride, ridiculai, risando, risantes,/ Hilariando, riando,/ Ride, ridentes! / Derride, derridentes!”; Morre inesperadamente)

 

Giovana – Oi. (pausa) Oi.

 

Rodrigo – Ela tá meio quieta.

 

Giovana – Oi.(pausa) Oi! Oi! Oi! Oi!

 

Rodrigo – Ela tá passando mal?

 

Giovana – Ela tá passando mal! Chama um médico!

 

(Agitação. Rodrigo a carrega pelos braços e sai pela porta)

 

Ranieri – Ela tá passando mal.

 

(Giovana e Ranieri olham para porta. Silêncio)

 

Giovana – Tem cigarro?

 

Ranieri – É o último. Tem fósforo?

 

Giovana – Tenho.

 

(Rodrigo entra vestido de astronauta, segurando um capacete)

 

Rodrigo – É proibido fumar aqui...

 

(Os três compartilham o último cigarro. Ranieri cantarola. Etta James. Música. Nadja entra carregando seu case com guitarra. Fuma. Deita-se dentro de seu case, como num caixão. Ranieri corre tentando sair da sala fechada e atravessa uma parede. Rodrigo senta-se e observa o corpo morto de Nadja. Giovana encostada na parede. Fim da música. Uma coda ao trompete. Rodrigo para o público)

 

Rodrigo – O que eu digo te interessa? Eu pergunto e você me diz alguém me diz, sim eu me importo com as suas palavras, eu escuto, eu estou com você agora. E eu respiro aliviado e eu digo, eu fico feliz que você se interesse pelas minhas palavras e que você esteja comigo agora. E fico olhando pra você (silêncio) em silêncio (silêncio) buscando palavras pra preencher esse espaço vazio que surgiu de repente entre nós (silêncio). Esse constrangimento (pausa). Eu posso dizer uma palavra qualquer, mas uma palavra qualquer não interessa e eu pergunto interessa a você tudo o que eu digo? E você me diz alguém me diz, não exatamente, mas eu te escuto eu posso te escutar e eu digo, então é preciso escolher as palavras certas, palavras bonitas, se não bonitas, sinceras, ao menos sinceras, não é todo dia que tem alguém disposto a ouvir o que a gente tem a dizer e você diz alguém me diz, há coisas boas pra se dizer a alguém que queira ouvir e eu paraliso novamente, um vazio se instala dentro de mim, um silêncio, dentro de mim, escuro, como num buraco negro onde tudo desaparece, perceberam? (silêncio) E entre nós novamente o silêncio (pausa), e de repente, pra escapar do vazio, eu pergunto você conhece a teoria dos buracos negros? Você não responde é claro e eu fico meio constrangido, mas também que pergunta, e você diz, já ouvi falar mas não conheço os detalhes e supondo que você queira saber eu começo a contar que um buraco negro clássico é um objeto com campo gravitacional tão intenso que a velocidade de escape excede a velocidade da luz, percebe? Nem mesmo a luz pode escapar do seu interior, por isso o termo “negro”, que é a cor aparente de um objeto que não emite nem reflete luz, tornando-o de fato invisível. Já o termo “buraco” não tem o sentido usual, mas traduz o fato de não vermos de fora o que esta dentro dele, percebe? (pausa) E eu noto que de repente o ar fica mais rarefeito, uma espécie de torpor se instala entre nós e eu pergunto, você acha interessante a teoria dos buracos negros? Um assunto chato pra um dia de chuva como hoje, numa sala abafada, sem janelas. E por ai vai... E poderíamos seguir nosso dialogo e são assim os dias, entre um bocejo e outro e a esperança de algum entusiasmo que por descuido ou distração invada o ambiente. Uma coisa que me entusiasma é imaginar a possibilidade de trinta segundos sem gravidade entre nós. Eu já falei sobre isso aqui. Trinta segundos sem essa espécie de força que mantém nossos pés no chão. Algum entusiasmo nessa sensação nova de estar solto, flutuando, sem precisar fazer nenhum esforço pra se manter de pé. Eu posso fechar os olhos, você pode fechar os olhos e eu conto regressivamente a partir de agora (coloca o capacete e conta regressivamente) 30, 29, 28, 27, 26, 25... (Silêncio. Como se estivessem flutuando, vemos os quatro atores em cena) 4, 3, 2, 1. (Caem. Luz . Atores se olham. Blackout.)

 

FIM

 

Curitiba-PR, 2009/2010

 

 

Uma banda formada por exilados prepara-se para o ensaio de uma apresentação que deverá acontecer nas comemorações do jubileu da cidade.

 

Rodrigo entra pela platéia, vê a cortina do palco se abrir, sobe no palco.

 

Parede. Um mapa-múndi pendurado. Uma sala vazia, sem janelas. Mesa. Cadeiras empilhadas. Um ventilador. Instrumentos musicais. Pedestal com microfone. Apenas uma porta de dimensões incomuns permite a entrada e a saída de objetos e pessoas. 

 

Rodrigo – Quem brilha? (Pausa) foneticamente a pergunta é uma modulação ascendente na emissão da frase. Perceberam? Quem brilha? Eu pergunto. Se eu pergunto e vocês me respondem, alguém me responde, podemos começar o diálogo. Você pode me dizer, alguém pode me dizer, minha testa brilha quando eu suo e eu digo sim está calor aqui, abafado, quer um lenço? Podemos abrir as janelas, se tiver janelas. Não, não há janelas, não me parece que tenha janelas aqui, você vê, uma janela? Eu pergunto, e continuamos nosso diálogo e você diz alguém diz, eu daqui vejo uma janela, ela está aberta, eu gosto de janelas abertas, a noite está linda, fresca e nós podemos olhar o céu, você vem olhar o céu? E por aí vai. É essa capacidade das línguas de formular perguntas que funda um mundo humano. Quem brilha? Eu pergunto. E você me diz alguém me diz, um vaga-lume brilha, ele acende o traseiro. Eu dou risada e digo que sim, que a noite deve estar fresca e que se houver realmente uma janela aberta. Se você diz é porque ela está aberta. Ela está? Aberta? E por aí vai. Há um abismo, por exemplo, entre duas frases como: O sol brilha. Ponto. Quem brilha? Interrogação. (Entra Giovana) O mundo das plantas e dos animais, presumo, é feito apenas de frases afirmativas. Uma pedra poderia dizer “o sol brilha”. Definitivo. Mas só você pode dizer alguém pode dizer a segunda frase, a que pergunta, a que me leva até você. O reconhecimento da diferença entre o eu que eu sou e o eu que o outro é. Separados e próximos. Perceberam? Como a gravidade, que é uma espécie de força de atração mútua entre os corpos. (Cai sua calça. Giovana o ajuda. Ranieri entra) Perceberam? Gravidade. Confere peso aos objetos e faz eles caírem no chão. É a minha desgraça. O cigarro também, mas em todo caso é proibido fumar. (Contrariado) É esta a frase: é proibido fumar em ambientes fechados. Afirmativa. Imperativa. Proibido! Há janelas aqui? Não, não há janelas, não me parece que tenha janelas aqui. Mas seria proibido mesmo se tivesse janelas e elas estivessem abertas. Mesmo se o ar fresco da noite pudesse entrar. Mesmo se eu estivesse sozinho na janela olhando as estrelas. Ta calor aqui, abafado! (Silêncio). Bom... Quem brilha?

 

Giovana – As estrelas.

 

Rodrigo – Você me diz alguém me diz. Sim! As estrelas! A luz que podemos ver no céu noturno viaja centenas ou milhares de anos antes de se tornarem visíveis aos nossos olhos. Aqui, no nosso universo, tudo leva tempo pra viajar, inclusive a luz, que viaja sempre à máxima velocidade possível.

 

Giovana – O sol brilha.

 

Rodrigo – Você me diz alguém me diz. Sim, a luz do sol leva cerca de 8 minutos e meio pra chegar à Terra. Perceberam? E nós estamos aqui (aponta o lugar específico no mapa). Estamos aqui, não estamos? Alguém escapou? Estamos aqui, girando ao redor do sol. Bom, e eu acho que antes isso aqui era mais unido, mais coladinho, era um conjunto, era chamado Pangeia. Então quem quisesse ir daqui pra cá, por exemplo, não precisava atravessar o mar, ia caminhando. Hoje em dia não da mais pra fazer isso, por que os continentes se separaram e diz que até hoje se separam, tem gente que fala que os continentes se separam 10 centímetros por ano, continuam se separando até hoje, só que a gente não percebe. Isso quer dizer que daqui a dois milhões de anos...

 

Giovana – ...a gente se encontra do outro lado!

 

Rodrigo – A gente pode se encontrar do outro lado, você me diz alguém me diz, eles podem se encontrar do outro lado. E também, e também assim, isso não é assim, porque é mais arredondado, perceberam? E quem está nesses lugares não percebe que é arredondado porque só se percebe que é arredondado se a gente está muito alto, se a gente consegue pegar uma aeronave e subir muito alto, aí ela vai pro céu, sobe muito alto, vai pro espaço! Perceberam? Pro espaço!

 

Giovana – Um cigarro aceso.

 

Rodrigo – Brilha.

 

Giovana – Um vaga-lume!

 

Rodrigo – Brilha! Brilha, brilha.

 

Giovana – Uma testa suada... Brilha.(Enxuga a testa dele com um lenço).

 

Ranieri - Esse negócio de arredondado, por exemplo. Antes eu pensava que o mundo tinha uma margem. Quando eu era criança, eu pensava que se a gente andasse sempre em linha reta, a gente ia chegar ao fim. Depois eu entendi que não, que isso é uma bola, se a gente anda sempre em linha reta, a gente vai dando uma volta na bola.

 

Giovana – No globo.

 

Ranieri – No globo.

 

Giovana – A gente da a volta no globo.

 

Ranieri – No globo!

 

Giovana – Eu digo no globo.

 

Ranieri – Eu digo no globo.

 

Giovana – E isso não tem fim!

 

Rodrigo - E lá do alto você pode observar esse globo (aponta o mapa). Só muito alto, eu digo. Então eu imaginei que se a gente da a volta no globo numa velocidade muito alta a gente avança no tempo, não é possível voltar no tempo, mas é possível avançar. E quem está aqui talvez possa ver uma aeronave a toda velocidade passando no céu. Se for de noite talvez você possa ver uma luzinha a toda velocidade girando o globo.

 

Giovana – Uma aeronave!

 

Rodrigo – Brilha.

 

Giovana - Meus sapatos...

 

Rodrigo – Brilha! Brilha, brilha. Tem lugares aqui que falam línguas parecidas e tem línguas inclusive que são as mesmas. Tem, por exemplo, aqui se fala inglês, e aqui também se fala inglês. (Apontando o mapa)

 

Giovana – An aircraft! My shoes!

 

Rodrigo - E esse inglês que se fala aqui e aqui têm acentos diferentes, eles podem se entender, mas eles, eles falam diferente, eles têm jeitos diferentes de falar, como aqui, aqui também se fala inglês, mas é diferente daqui e daqui, aqui se fala chinês. 

 

Giovana – Chinese.

 

Rodrigo - Aqui se fala espanhol.

 

Giovana – Spanish.

 

Rodrigo - E aqui se fala, se fala, tem varias línguas aqui.

 

Giovana – Many, many languages.

 

Rodrigo - E tem línguas que não existem mais, que deixaram de existir.

 

Giovana – Desapeare.

 

Rodrigo – Tem cidades que foram construídas ao longo do tempo e tem cidades que foram imaginadas antes de serem construídas. Uma pessoa pensou, desenhou e construiu. Mas até hoje se imagina e se constrói aqui. Perceberam? E sempre pra construir uma cidade é necessário imaginar.

 

Giovana – Imagine...

 

Rodrigo – Uma coisa que a gente conhece pode ser universal apesar disso não ser o universo, apesar disso ser apenas o nosso pequeno mundo. E as pessoas que estão aqui. Nós estamos aqui. Estamos aqui, não estamos? As pessoas que estão aqui, além de ver as aeronaves que giram a toda velocidade avançando no tempo, elas também vêem as estrelas. Aqui é bacana porque cada povo desses que parece, não parece tão grande, mas é enorme, cada povo desses vê estrelas. O céu estrelado tem leitura livre: em aberto. Em latim, de-siderare é igual a desejar. Cair das estrelas? Cada cidade tem um céu. Cidades que foram imaginadas que foram construídas e que não existem mais, ou melhor, elas existem, algumas delas, só que elas não existem da forma como existiam antes. Elas estão lá como que destruídas, porque um dia essas pessoas que moravam, por exemplo, aqui elas deixaram de existir, mas o que elas construíram ficou e existe até hoje. E aí essas pessoas aqui, elas delimitaram, elas delimitam alguns espaços, que a gente chama de país, países, e às vezes uma pessoa não pode mais viver no seu país, porque ela não quer, ou porque não querem que ela continue vivendo lá. Perceberam? Por exemplo, aqui tem um lugar onde às vezes as pessoas fogem, elas não concordam com alguma coisa, e nesse lugar aqui, já teve um tempo em que não quiseram que as pessoas continuassem aqui, então pessoas que moravam aqui foram morar aqui foram morar aqui foram morar aqui e outras, algumas, foram morar aqui e outras foram para outras partes do globo, do mundo, nosso pequeno universo, porque a gente não conhece vida fora disso aqui! E elas ficaram nesses lugares por algum tempo, dez quinze vinte anos e um dia disseram que estava tudo bem se elas pudessem voltar e algumas delas voltaram outras não e algumas morreram antes mesmo de voltar. As pessoas se movem aqui. Elas se atraem, se repelem. E existe uma coisa que segura tudo isso aqui que a gente chama de gravidade. Como eu falei, uma espécie de força de atração mútua entre os corpos. E se por acaso por 30 segundos faltasse gravidade podia acontecer um desastre, aliás, aconteceria vários desastres por todo o mundo, algumas pessoas podiam até morrer se faltasse gravidade por 30 segundos, mas a gente pode imaginar também que podia faltar pra algumas pessoas, mas pra outras não e aí essas pessoas podiam ajudar as outras pra que elas não morressem. Perceberam?

 

(O espaço se amplia)

 

Rodrigo – E também essas pessoas que vivem aqui, elas escrevem e talvez elas escrevam pra convencer outras pessoas das suas idéias, ou pra sensibilizar, ou só por escrever, ou pra desabafar ou pra existir. Talvez elas escrevam pra contar o que elas pensam, pra contar o que elas imaginam. Perceberam? E tem gente que conta de maneira tão bonita que as outras pessoas querem ler o que elas escreveram, então elas imprimem o que escreveram e outras pessoas compram pra poder compartilhar essa mesma idéia, e às vezes acontece que a idéia é tão bonita que uma idéia que foi escrita aqui ela pode ser lida nesses lugares aqui em outra língua também. Se as pessoas têm uma idéia bonita é provável que essa pessoa que mora aqui queira saber o que está escrito e aí ou ela conhece essa língua ou ela conta com a ajuda de alguém que conhece essa língua pra traduzir pra essa pessoa que mora aqui do outro lado do mundo, senão ela não pode ler.

 

Giovana – Autrement elle ne peut pas lire.

 

Rodrigo – Principalmente se for escrito em chinês.

 

Giovana – Surtout si c'est écrit en chinois.

 

Rodrigo – Porque chinês é difícil de entender.

 

Giovana – Parce que chinois c'est difficile a comprendre.

 

Rodrigo – E essas palavras que as pessoas imaginam.

 

Giovana – Et ces mots que les gent imagine.

 

Rodrigo – Elas podem ser gravadas em muros.

 

Giovana – Ils peuvent être gravés dans des murs.

 

Rodrigo – Mas elas só são gravadas em muros.

 

Giovana – Mais ils ne sont gravés dans des murs...

 

Rodrigo – Se elas têm alguma importância pra alguém.

 

Giovana – ...que s'ils ont une importance pour quelqu'un.

 

Rodrigo – Pode ser que elas não tenham a menor importância pra ninguém.

 

Giovana – peut être que ils n'ont aucune importance pour personne.

 

Rodrigo – Eu falo aqui com vocês e pode ser que as minhas palavras não tenham a menor importância.

 

Giovana – Je parle la avec vous et peut être que mes paroles n'ont aucune importance.

 

Rodrigo – Perceberam?

 

Giovana – Perceberam?

 

Rodrigo – Pra mim elas têm.

 

Giovana – Pour moi elles en ont.

 

Rodrigo – Eu não gravei no muro, mas pra mim elas têm. Não têm?

 

Giovana – Je n'ai pas gravé dans le mur, mais pour moi elles en ont. Ne c'est pas?

 

Rodrigo – Eu pergunto e você me diz alguém me diz.

 

Giovana – Je demande et vous me dites quelqu'un me dit.

 

Rodrigo – Sim eu me importo com as suas palavras.

 

Giovana – Oui ça me concerne vos mots.

 

Rodrigo – Eu escuto.

 

Giovana – Je vous écoute.

 

Rodrigo – Eu estou com você agora.

 

Giovana – Je suis la avec vous.

 

Rodrigo – Você está aqui.

 

Giovana – Vous êtes la.

 

Rodrigo – Nós estamos aqui.

 

Giovana – Nous sommes la.

 

Rodrigo – Alguém escapou?

 

(Silêncio)

 

Giovana – Um, dois, três, quatro.

 

(Início do ensaio. Trompete, pratos, bumbo e voz. Canção em russo a partir de trecho de poema de Maiakóvski. Interrupção)

 

Giovana – Parou.

 

Ranieri – Somos só nós hoje aqui.

 

Giovana – Você errou.

 

Rodrigo – Eu errei?

 

Giovana – O que? É mais rápido o andamento.

 

Ranieri – Somos só nós hoje aqui.

 

Giovana – Você errou.

 

Ranieri – Eu errei?

 

Giovana – O que? É mais rápido o andamento.

 

Ranieri – Somos só nós hoje aqui?

 

Rodrigo – É mais rápido?

 

Giovana – Parece que sim.

 

Rodrigo – Mais rápido?

 

Giovana – Não, parece que sim, que somos só nós hoje aqui.

 

Rodrigo – Ah.

 

Ranieri – Foi o que eu pensei.

 

Giovana – E é mais rápido, o andamento.

 

Rodrigo – Ah, então é mais rápido? (Pausa) Não entendi. É ou não é?

 

Ranieri – Sim, é que eu perguntei: somos só nós hoje aqui? E ela me disse: parece que sim.

 

Giovana – Parece que sim, que somos só nós hoje aqui.

 

Rodrigo – E é mais rápido o andamento.

 

Giovana – No dia, vai ter que dar tudo certo!

 

Ranieri – A gente tem que se preparar.

 

(Pausa. Descansam)

 

Ranieri – Sabe que outro dia eu estava atravessando a rua, na chuva, o sinal aberto pra mim, no meio do caminho o sinal abriu para os carros, uma senhora queria me atropelar, ela queria, porque ela estava certa, o sinal estava aberto pra ela, ela ia me atropelar, aquela vaca!

 

Giovana – Vaca.

 

Rodrigo – Vaca.

 

Giovana – Vaca?

 

Ranieri – Vaca!

 

Rodrigo – Vaca!

 

Giovana – Mas quando não ta chovendo...

 

Ranieri – Ta sempre chovendo.

 

Rodrigo – Ta calor aqui, ta abafado.

 

Ranieri – Ta abafado.

 

Giovana – Sim, mas quando não ta chovendo eu gosto de andar a pé. Eu venho a pé. Adoro andar pela cidade. Venho sempre a pé. A luz dessa cidade é linda!

 

Rodrigo – E você dá bom dia quando entra num elevador?

 

Giovana – Claro, eu dou bom dia!

 

Rodrigo – E alguém responde?

 

Giovana – Não.

 

(Risos)

 

Rodrigo – Quando isso acontece comigo...

 

Ranieri – Isso sempre acontece comigo.

 

Rodrigo – Então... Eu mesmo respondo. Eu digo: bom dia! Eu respondo: bom dia. Às vezes até dou uma conversadinha comigo mesmo. Pergunto: como está o tempo? Respondo: chovendo. Pergunto: e a família? Respondo: longe, muito longe. eu não sou daqui. E por aí vai. Perceberam?

 

Giovana – As pessoas fazem cara de nada.

 

Ranieri – De nada.

 

Rodrigo – Cara de nada.

 

Giovana – Como se o elevador estivesse vazio.

 

Ranieri – Como se a cidade estivesse vazia. (Pausa) Eu detesto domingo.

 

Rodrigo – Adoro!

 

Giovana – Adora domingo?! Quem é que adora domingo?

 

Ranieri – Detesto. Domingo a noite, televisão ligada, sozinho nessa cidade.

 

Rodrigo – Adoro! O ritmo das coisas. O tempo passa diferente.

 

Giovana – Mas de dia quando ta sol é lindo! Você anda nas ruas, passeia nos parques. Faz um piquenique! Adoro piquenique no domingo!

 

Ranieri – Detesto. Fazer o que no parque? Dar incontáveis voltas ao redor de um lago artificial sem dizer bom dia a ninguém? Fazer piquenique na grama cheia de cocô de cachorro?

 

Giovana – Pára! Não é isso. 

 

Rodrigo – Você gosta de cachorro?

 

Giovana – Gosto. Mas não é isso.

 

Rodrigo – Onde eu moro, às vezes os cachorros latem a noite toda.

 

Giovana – Sim, mas eu disse: pára! não é isso, porque eu adoro um domingo de sol nessa cidade.

 

Rodrigo – Mas você não gosta de cachorro? Não entendi. Gosta ou não gosta?

 

Ranieri – Sim ela gosta. É que eu falei que detesto parques, lagos artificiais, pessoas que não se dizem bom dia e piqueniques aos domingos.

 

Rodrigo – Mas você falou de cachorro.

 

Ranieri – De cocô de cachorro.

 

Rodrigo – Sim, e eu disse que os cachorros latem.

 

Giovana – Nas noites de frio os cachorros latem.

 

Ranieri – Nas noites de domingo. Latem porque a noite dói no coração do mundo.

 

Giovana – Bonito!

 

Ranieri – Eu estava pensando...

 

Rodrigo/Giovana – Oi?

 

Ranieri – Eu tava pensando...

 

Rodrigo/Giovana – Quê?

 

Ranieri – Eu tava pensando...

 

Rodrigo/Giovana – Hã?

 

(Risos)

 

Ranieri – Eu estava pensando ontem nos 15 minutos da minha vida que fizeram diferença no resto da minha vida...

 

Giovana – Bonito!

 

Ranieri– E eu recebi isso.

 

Giovana – O que?

 

Ranieri – Tem gente que aceita.

 

Giovana – Quem foi que te deu?

 

Ranieri – Na rua, uma senhorinha me deu. Eu li na frente dela. Eu acho que se você não ler tudo bem, você não se compromete.

 

Giovana – A partir do momento que você lê, já fica com isso dentro?

 

Ranieri – Se você não ler você não se compromete.

 

Giovana – Fica com a culpa? Ah com a culpa!

 

Ranieri – Pois é eu li e fiquei com a culpa.

 

Giovana – É a culpa

 

Ranieri – É a culpa!

 

Giovana – É a culpa.

 

Ranieri – É a culpa! E eu tenho certeza que vai me acontecer uma coisa muito boa, depois que eu fizer isso. (Beija alguém e lê em voz alta) “Beije alguém que você ama muito ao receber esta carta. Ainda mais que ela veio te trazer sorte. A original está em Northumberland”.

 

Rodrigo – Inglaterra.

 

Ranieri – “E suas cópias rodam o mundo inteiro”. (Entrega uma cópia ao Rodrigo, que lê)

 

Rodrigo – “Pensamento positivo faz milagre”. (Risos).

 

Giovana – Leu! Ta comprometido!

 

Ranieri – Leu. Se você não ler não se compromete.

 

Rodrigo – Fiquei com a culpa?

 

Giovana – Ah com a culpa!

 

Ranieri – Pois é ele leu e ficou com a culpa.

 

Rodrigo – Fiquei com a culpa.

 

Ranieri – “Após recebê-la, você terá muita sorte. Parabéns! Não mande dinheiro, pois a felicidade não tem preço”.

 

Giovana – Quantas você vai ter que mandar?

 

Ranieri – “Envie 20 cópias pelos correios ou pessoalmente, para as pessoas que precisam de muita sorte. (Distribui para o público) Não guarde esta carta. Ela deverá sair de suas mãos em 96 horas”.

 

Rodrigo – 4 dias.

 

Ranieri – “Esta carta não é brincadeira ou superstição”.

 

Giovana – É uma corrente energética! Pensamento positivo!

 

Ranieri – “Você terá uma surpresa nos próximos 4 dias”.

 

Rodrigo – 96 horas.

 

Ranieri – “Um oficial do exército americano recebeu 7 mil dólares”.

 

Rodrigo – 12.110 reais!

 

Ranieri – “Inesperadamente! Apenas deixando as cópias nos armários dos soldados de sua tropa. Norma Elliot recebeu 250 dólares”.

 

Rodrigo – 432 reais e 50 centavos! 167 euros e 63 centavos. Perceberam?

 

Ranieri – “Philip Garga recebeu a carta, não deu atenção, perdeu a mulher em 6 dias”.

 

Giovana – Não acredito!

 

Rodrigo – 144 horas.

 

Ranieri – “Dalmo Dantas recebeu e jogou fora, perdeu tudo o que tinha e morreu em 2 dias”.

 

Rodrigo – 48 horas.

 

Ranieri – “Depois sua mulher viu a carta no lixo e mandou fazer 500 cópias. Conheceu um cara rico e bonitão, que acreditava em correntes, casou com ele e foram felizes para sempre”.

 

Rodrigo – E você costuma ter outro tipo de superstição?

 

Ranieri – Não é superstição. É uma corrente energética! Pensamento positivo! (Pausa) Eu não passo embaixo de escada, por exemplo.

 

Giovana – Também não passo! Nunca.

 

Ranieri – Nunca, nunca.

 

Rodrigo – Nunca?

 

Ranieri – Nunca.

 

Rodrigo – Eu não passo embaixo de escada por medo que uma lata de tinta caia na minha cabeça só por isso.

 

Ranieri – Não, eu não passo embaixo de escada porque eu tenho medo que alguma coisa ruim terrível me aconteça, sempre. Eu não gosto de sentar, por exemplo, aqui mesmo, se eu sento de costas pra porta, não gosto.

 

Giovana – Também não gosto.

 

Ranieri – Porque pode chegar alguém, inesperadamente.

 

Giovana – Chegar alguém inesperadamente.

 

Ranieri – Pode sim, chegar alguém inesperadamente.

 

Rodrigo – É isso é mais real, alguém, que chega, inesperadamente.

 

(Ranieri senta-se de frente para porta, Giovana e Rodrigo ao seu lado também de costas para o público. Pausa. Todos olham pra porta. Tempo)

 

Rodrigo – Você acredita em destino?

 

Ranieri – Destino acredito muito, em destino.

 

Rodrigo – Agora se existe um destino também existe alguém que ta comandando isso. Perceberam? (Pausa)

 

Ranieri – Deus!

 

(Risos)

 

Ranieri – Porque se não existe deus não existe destino, se não existe destino não existe deus.

 

Rodrigo – Perceberam?

 

Giovana – Você acha que uma coisa tá ligada à outra?

 

Rodrigo – Uma coisa tá ligada à outra.

 

Giovana – Não são as estrelas os astros os planetas?

 

Rodrigo – Não, porque eles não têm inteligência.

 

Giovana – Não é uma questão de inteligência, é uma questão de energia de configuração.

 

Rodrigo – Mas como é que um planeta, uma configuração vai determinar o que é...

 

Giovana – Você já fez mapa astral?

 

Ranieri – Eu nunca fiz mapa astral.

 

Rodrigo – Nunca.

 

Giovana – Mas é isso o mapa astral. Mapa astral não tem nada a ver com deus, tem a ver com os incas, os maias...

 

Rodrigo – O fim do mundo também.

 

Ranieri – Mas é quanto dinheiro você vai ganhar na vida.

 

Giovana – Não, ele determina a tua predisposição para o trabalho, a tua predisposição para o casamento, a tua predisposição entendeu?

 

Rodrigo – Predisposição!

 

Giovana – Por exemplo, eu não tenho nenhum planeta na casa do dinheiro, não nasci pra fazer dinheiro, não tenho predisposição, eu tenho que aprender como é que eu me trabalho pra conseguir ganhar dinheiro, entendeu?

 

Ranieri – É, eu também, por exemplo, eu não saio sem ler meu horóscopo, eu leio meu horóscopo todo dia, eu acredito em horóscopo, e quando eu fico em depressão, porque eu tenho depressão, quando eu fico em depressão, eu leio meu horóscopo todo o dia e parece que aquilo que eu leio é pra mim, eu tenho todos recortados, guardados, é pra mim.

 

Giovana – É uma espécie de... Quando você se convence que aquilo é pra você, como é que é o nome disso?

 

Rodrigo – Auto-sugestão.

 

Giovana – Auto-sugestão.

 

Rodrigo – É o que eu digo, eu acho que a gente lê o que a gente quer ler.

 

Giovana – Eu quando abro e leio uma coisa ruim eu digo: ah vai tomar no cu!

 

Rodrigo – Pré-disposição.

 

Giovana – Auto-sugestão.

 

Ranieri – A gente se deixa convencer. (Pausa) Eu estava pensando ontem nos 15 minutos da minha vida que fizeram diferença no resto da minha vida.

 

(Nadja entra encharcada. Susto. Ranieri cai da cadeira. Silêncio)

 

Rodrigo – Machucou? (Rodrigo ajuda Ranieri se levantar)

 

(Recebem Nadja que chegou inesperadamente. Giovana pega o case com guitarra de Nadja e entrega a Ranieri, que o entrega a Rodrigo. Ranieri acomoda Nadja numa cadeira)

 

Giovana – Eu penso nisso às vezes, em pessoas que eu achava que podia ter casado tidos filhos, mas não foi com aquela pessoa, e você não entende porque não foi com aquela pessoa, e aí um dia você se dá conta, sei lá, você pensa, não, realmente, o mundo, parece que o mundo deu uma volta pra você chegar num outro lugar. Giovana, prazer.

 

Ranieri – Ranieri.

 

(Giovana arranca a blusa molhada de Nadja)

 

Ranieri – Prazer.

 

(Rodrigo entrega a Nadja seu case com guitarra. Suspensão)

 

Giovana – Rodrigo.

 

Rodrigo – Prazer.

 

(Suspensão)

 

Rodrigo – Tem idéias que permanecem até hoje, aqui no nosso pequeno mundo. As pessoas que escrevem deixam aqui as suas idéias. Algumas idéias desaparecem, como se tivessem entrado num buraco negro, não temos vestígios, nenhuma lembrança. Outras idéias ficam, e mesmo que a gente não se lembre delas, elas permanecem em algum lugar, como uma grande memória do mundo, perceberam? E existir pode ser então uma forma de lembrar. Se eu pergunto: quem brilha? Eu respondo, ou melhor, eu lembro:(cita Maiakóvski) “confusão de poesia e luz, chamas por toda a parte. Se o sol se cansa e a noite lenta quer ir pra cama, sonolenta, eu, de repente, inflamo a minha flama e o dia fulge novamente...”

 

Ranieri - “Brilhar pra sempre, brilhar como um farol, brilhar com brilho eterno, gente é pra brilhar, que tudo o mais vá pro inferno, este é o meu slogan e o do sol”.

 

Nadja – Bonito!

 

Rodrigo – 1920. Um sujeito que nasceu aqui (aponta o mapa a Russia) disse isso, escreveu, deixou gravado, e mesmo que eu não me lembrasse, que você, que vocês não se lembrassem, ou nunca tivessem visto, isso estaria em mim, isso existe, nessa grande memória. Estaria aqui, entre nós. Está aqui. Se você diz é porque está. Aqui. Está aqui, não está?

 

Ranieri – “Cветить всегда,

 

Rodrigo – “Brilhar pra sempre,

 

Ranieri – светить везде,

 

Rodrigo – brilhar como um farol,

 

Ranieri – до дней последних донца,

 

Rodrigo – brilhar com brilho eterno,

 

Ranieri – Cветить и никаких гвоздей,

 

Rodrigo – gente é pra brilhar, que tudo o mais vá pro inferno

 

Ranieri – вот лозунг мой ... и солнца!”

 

Rodrigo – este é o meu slogan e o do sol”.

 

Nadja – Bonito!

 

Rodrigo – E aqui, nesse lugar (aponta novamente o mapa a Russia), o sujeito que disse isso se matou com tiro.

Ranieri – E por que você diz isso?

 

Rodrigo – Porque eu me lembro. E existir pode ser então uma forma de lembrar perceberam? Por exemplo, o corpo, o corpo também tem memória. Eu estou em pé agora, vocês estão sentados, mas eu estou em pé, você está em pé. Pra ficar em pé meu corpo faz algum esforço, os músculos ficam ativos, um pouco ativos. Estão ativos? Os seus músculos? Se não estivessem ativos, provavelmente eu desmontaria no chão. Você desmontaria no chão. Eu cairia, nós cairíamos. Uma força, a gravidade como eu falei antes, nos puxa pra baixo, assim como faz as coisas caírem, nos deixa grudados à Terra. Se por 1 minuto faltasse gravidade, nossos músculos não precisariam mais fazer esforço pra ficarmos em pé. E se ficarmos horas, dias, meses sem o mínimo esforço, nosso corpo esquece, os músculos adormecem, adoecemos. Perceberam? Por isso agora, eu trouxe pra vocês alguns exercícios pra fazer lembrar o corpo que ele existe, e faz algum esforço pra existir. Vou mostrar pra vocês. É preciso dar memória aos músculos, pra que eles resistam e não nos deixem cair. É preciso ficar de pé. Ficar de pé. Eu estou aqui, de pé na frente de vocês. Nós estamos aqui, vocês estão sentados, você esta de pé, nós estamos de pé. Estamos aqui, não estamos? É preciso ficar de pé. E 1, 2, 3...

 

(Começa uma seqüência de exercícios desajeitados; Ranieri junta-se a ele e puxa o ritmo até levá- los à exaustão; Nadja em segundo plano toca a guitarra; caem exaustos)

 

Ranieri – Você é muito mole! Você é desajeitado!

 

Rodrigo – Você acha?

 

Ranieri – Sim, acho. Por que você faz esses exercícios?

 

Rodrigo – Eu tô me preparando. Mas você tem bastante energia, né?

 

Ranieri – Tenho? Se eu ficar parado eu enlouqueço. Não consigo ficar parado.(Pausa) Você não tem vontade de sair daqui às vezes, de ir embora?

 

Rodrigo – Não, de ir embora não, eu gosto daqui. Tem umas coisas que me incomodam, mas eu gosto daqui.

 

Ranieri – Eu, às vezes, acho que vou explodir.

 

Rodrigo – Eu não quero ir embora, mas...

 

Ranieri – O que é que te incomoda?

 

Rodrigo – Eu tô me preparando pra fazer uma viagem. Ah, eu não gosto de janelas fechadas.

 

Ranieri – Eu também não.

 

Rodrigo – Acho ruim não poder fumar aqui.

 

Ranieri – Você fuma?

 

Rodrigo – Sim.

 

Ranieri – É, mesmo se tivesse janelas aqui e elas estivessem abertas, você não poderia fumar. Rodrigo – Seria proibido. (Levantam-se)

 

Ranieri – Sim proibido. (Pausa) Vai viajar pra onde?

 

Rodrigo – Pro espaço!

 

(Risos. Nadja veste sua blusa. Pausa)

 

Ranieri – Pro espaço! Eu ia gostar de ir pro espaço, mas pra mim já seria bem bom poder sair daqui, ir embora.

 

Rodrigo – Não, eu não quero ir embora.

 

Ranieri – Pro espaço... é difícil ir pro espaço.

 

Rodrigo – Tem gente que consegue. Tem umas excursões.

 

Ranieri – Excursões?!

 

Rodrigo – Sim, você pode reservar um lugar numa missão espacial.

 

Ranieri – Duvido.

 

Rodrigo – Claro que pode!

 

Ranieri – Não pode.

 

Rodrigo – Pode! É caro mas pode.

 

Ranieri – Como é que você vai pro espaço?

 

Rodrigo – Ué, você se prepara pra ir e depois paga.

 

Ranieri – Mas você tem dinheiro?

 

Rodrigo – Tô juntando.

 

Ranieri – Ah, e tá se preparando também. Ninguém vai pro espaço. Só os cosmonautas.

 

Rodrigo – Astronautas. O John McCain reservou um lugar.

 

Ranieri – Astronautas ou cosmonautas?

 

Rodrigo – As pessoas que moram aqui dizem astronautas (aponta o mapa), as pessoas que moram aqui dizem cosmonautas.

 

Ranieri – Quem reservou um lugar?

 

Rodrigo – John McCain.

 

Ranieri/Nadja – Quem?

 

Rodrigo – Que disputou as eleições nos Estados Unidos.

 

Ranieri – Quem?

 

Rodrigo – John McCain!

 

Ranieri – Quem é John Mc...Quem?

 

Rodrigo – Um senhorzinho pequeno, hipócrita (tira os óculos e coloca no Ranieri) ...é só você olhar através desta lente (faz uma grande careta) Ah, eu também me incomodo que as pessoas não me respondam quando eu digo bom dia.

 

Ranieri – Bom dia! Como vai?

 

Rodrigo – Tudo bem, e você?

 

Ranieri – Indo. (Pausa ) Você é feliz com a vida que você leva?

 

(Nadja liga um ventilador. Seca-se ao vento. Suspiro. Rodrigo junta-se a ela e, em seguida, Ranieri)

 

Ranieri – Eu tomei um susto quando você entrou pela porta. Eu achava que éramos só nós aqui e de repente você chega. Bom, agora somos só nós hoje aqui. (Pausa) A gente perde o hábito de esperar que alguém chegue. Você espera por alguém? Desculpe, eu não quero te importunar com perguntas.

 

Nadja – Não, nada.

 

Ranieri – Você enxerga bem sem óculos? Eu não gosto muito, mas eu preciso usar.

 

Nadja – (Silêncio)

 

Ranieri – Eu fico bem de óculos?

 

Nadja – (Olha)

 

Ranieri – Você deve ficar bem de óculos, você é alta, tem o rosto fino, bem desenhado, pescoço comprido, deixa eu ver. (Coloca os óculos nela. Mostra para o público) Tá ótimo! Pescoço comprido, você é alta, magra.

 

(Silêncio)

 

Ranieri – Quanto você tem de altura? Você me acha muito baixo?

 

(Compara as alturas)

 

Ranieri – Eu sou baixo, né?

 

(Silêncio)

 

Ranieri – Minha família toda é baixa, eu tenho uma avó que bate aqui em mim. (Mostra a medida na cintura. Nadja se abaixa.) Na verdade dizem que tem um tio meu que era muito alto, mas eu não conheci, ele foi embora, desapareceu, quando chegou a época de servir o exército, ele pegou uma bicicleta, saiu de casa e nunca mais voltou, foi visto pela ultima vez rindo e fumando um cigarro a toda velocidade em cima de uma bicicleta. Sempre lembram dessa história na minha família. Família.

 

(Silêncio)

 

Ranieri – Você tem família? Faz tempo que eu não vejo a minha, eu estou longe. Talvez eles esperem que eu apareça qualquer dia, mas eu estou longe. Eu estou aqui e eu queria não precisar de óculos e queria ter alguém pra esperar. Eu não estou esperando ninguém (pausa). Você gosta de dançar? Desculpe eu não quero te importunar com perguntas. Eu adoro dançar, eu queria ser bailarino, mas eu não tenho corpo pra isso, você acha que eu tenho corpo pra isso? Ah não, eu não tenho corpo pra isso, bailarino precisa ser forte, magro, alongado, preciso, tem que ter ritmo, perceber bem as coisas, eu não percebo bem as coisas, eu não enxergo bem, eu uso óculos, eu tenho labirintite, fico tonto, não posso girar, bailarino tem que girar, ah, não! Eu não posso, não tenho corpo pra isso, (agressivo) você acha que eu tenho corpo pra isso! Mas eu não tenho corpo pra isso! (Pausa). Desculpe. (Pausa) Uma vez eu vi um espetáculo de dança com senhoras e senhores com mais de 65 anos de idade. Lindo! (Pausa) Eu lembro que o espetáculo começava numa sala vazia, mais ou menos como essa. (Descreve enquanto faz) Escuro. Luz. Uma senhora de costas pro público; vira-se; olha as pessoas na platéia; leva as mãos à cabeça, assim; depois vai descendo lentamente, passando pelo peito até deixá-las cair; sorri, mostrando os dentes; vira-se de lado, perfil esquerdo pro público; postura; volta-se pra frente; estende os braços à frente do corpo; gira, mostrando os pulsos; deixa cair os braços; mãos na cintura; então ela vai para o fundo do palco e traz para o centro um senhor (Nadja avança com ele para o centro do palco); os dois parados no centro da sala vazia; olham as pessoas na platéia.

 

(Música. Etta James. Coreografia inspirada em Kontakthof de Pina Baush. Rodrigo junta-se a eles. No fim Ranieri abraça Nadja desajeitadamente)

 

Nadja – Não é assim que se abraça.

 

(Nadja o abraça. Rodrigo, em segundo plano)

 

Rodrigo – Você acha que estou muito magro?

 

Nadja – (Olha) Rodrigo – Você acha que eu sou muito magro? Porque se eu não me esforço eu perco peso assim oh (estala os dedos).

 

Nadja – (Silêncio)

 

Rodrigo – Eu faço regime alimentar. De engorda.

 

Nadja – (Silêncio)

 

Rodrigo – Eu tomo um suplemento alimentar. Um shake. (pausa) Se você quiser eu te dou a receita. (Pausa) Todo dia de manhã, antes da primeira refeição, um copo grande bem cheio, de preferência misturado com leite, é um pó solúvel instantâneo.

 

Nadja – (Silêncio)

 

Rodrigo – Eu não posso deixar de comer uma maçã sequer, senão no dia seguinte (estala os dedos) eu já acordo mais magro.

 

Nadja – (Silêncio)

 

Rodrigo – Sério! (pausa) Eu faço também exercícios.

 

Nadja – Físicos?

 

Rodrigo – Sim, exercícios físicos. Porque se eu não me esforço meus músculos desaparecem assim oh (estala os dedos).

 

Nadja – Num passe de mágica.

 

Rodrigo – Não, num estalar de dedos, quer dizer, de repente, rapidamente, sem que eu perceba.

 

Nadja – Como num passe de mágica?

 

(Pausa)

 

Rodrigo – Sim, como num passe de mágica. (Sorriso) mas eu me esforço, sempre, eu me esforço. (Pausa) nada é muito fácil pra mim. Se eu quero uma coisa, eu tenho que me esforçar pra conseguir. Tem gente que já nasceu virado pra lua.

 

(Giovana entra com um guarda-chuva)

 

Giovana – Essa chuvinha! Não pára! A gente vai virar sapo. Mas ta calor aqui, ta abafado. Também, não tem janelas! Ai, não pára de chover, esse tempo cinza lá fora. Aqui é quase sempre assim. Quando você chegou tava ensopada, eu vi! Não tem guarda-chuva que de jeito. E pra secar a roupa? Um inferno! Se você não tem secadora fica tudo com cheiro de cachorro molhado. Você tem secadora? (Pequena-pausa) Ai menina eu não tenho, eu fico sempre esperando que apareça um solzinho pra eu poder lavar umas roupinhas. Detesto fazer serviço de casa, se eu pudesse eu pagava alguém pra fazer tudo pra mim. Ai não tenho saco! Mas eu gosto de cozinhar, adoro inventar umas coisinhas no fogão. Ai, mas sozinha é fogo, sobra tudo. Você gosta de doce? (Pequena-pausa) adoro doce! Eu sei fazer doce super bem. Faço tudo sem receita, detesto seguir receita, eu gosto de ser criativa no fogão. Qualquer dia eu trago um bolinho pra gente. Detesto fazer as coisas só pra mim. Aliás, parece que o mundo não foi feito pras pessoas que moram sozinhas. Você vai no supermercado e não encontra nada em quantidades individuais, aí você é obrigada a comprar e no fim das contas sobra tudo. Detesto desperdício. Ah não, nós não estamos em tempos de desperdício! Você não acha? (Pequena-pausa) você come em casa ou na rua? Você separa o lixo? Um absurdo não separar o lixo! Sabe que outro dia eu vi numa revista o trabalho de um grupo de artistas que recolhe o lixo de várias casas em várias cidades do mundo, depois eles organizam painéis com objetos encontrados nos diferentes lixos domésticos de cada casa ao redor do mundo, e você pode ter uma idéia de quem são essas pessoas, o tipo de vida, o nível social, diferenças enormes apenas através do lixo. (Pequena-pausa) A cidade aqui é limpa, dizem. Dizem muitas coisas dessa cidade. Eu cheguei aqui nova e eu adorava essa cidade, depois eu saí, morei em outros lugares e agora eu estou aqui de novo. Eu escolhi vir pra cá. Aqui é bom. Não sei, sempre é diferente quando você vê as coisas de perto. Quando você tá dentro acaba a sua expectativa, tudo fica banal e você passa a querer outras coisas. A gente sonha com lugar, a gente se muda e nada mais muda. O meu pai passou a vida construindo sua meia água, depois, quando ele se aposentou, ele achou que ia respirar. Ele morreu, olhando suas plantinhas. (Chora)

 

Nadja – (oferece um lenço)

 

Giovana – Obrigada. (Assoa o nariz) tem mais um?

 

Nadja – (oferece mais lenços, muitos lenços)

 

Giovana – Obrigada. (Assoa o nariz) são ótimos esses lenços! Fininhos, não machuca o nariz. Detesto lenço de pano, deixa o nariz todo assado. O mais certo seria usar lenço de pano, pra proteger o planeta, porque você imagina, só aqui eu já usei vários lenços de papel, um desperdício! Ai, mas tem horas que a gente precisa de um pouco de conforto, eu gosto de lenço de papel! (Chora. Descontrola-se) droga! Pelo menos isso, saco, eu tenho direito de usar lenço de papel, não posso ficar o tempo todo cuidando de tudo. Quem pensa em mim? Alguém pensa em mim? (Chora e ri) eu tenho uma avó bem rica, mas meio mão-de-vaca, eu conto essa historia e ninguém acredita, ela foi ficando mais velha e esse traço de personalidade ficou mais forte, ela usa o lenço de papel mais de uma vez, ela deixa grudado no azulejo do banheiro, secando, sério! E também não dá descarga quando faz só xixi, fica lá acumulando até que vem outra coisa e aí ela dá descarga. Sei lá, dá pra entender, ela passou dificuldades na vida antes de ficar rica. Isso fica com a pessoa. Isso ficou com nela. Ela tinha que dividir um pão entre os seus seis filhos no café da manhã. (Chora) provavelmente não sobrava muita coisa pra ela.(Pausa) é assim, chega uma hora que a gente é o acúmulo do que a gente viveu, não escapa disso. (Pausa) ai, essa chuvinha. A gente fica aqui dentro e quando sai já tá escuro, a gente não sabe se é dia ou noite, a gente perde a noção. (Pausa, olha pra Nadja) É Nadja seu nome?

 

Ranieri – É Nadja.

 

(Pausa)

 

Giovana – E a Nadja não fala?

 

Ranieri – Nada.

 

Giovana – 1, 2, 3, 4...

 

(Reinício do ensaio. Trompete, pratos, bumbo, guitarra e voz. Canção em russo a partir de trecho de poema de Maiakóvski)

 

Giovana – Parou, parou. Você errou.

 

Rodrigo – Errei.

 

Giovana – Começa de novo. Três, quatro e...

 

(Recomeçam. Tocam. Interrompem)

 

Giovana – Parou, parou. Você errou.

 

Rodrigo – Errei.

 

Giovana – Começa de novo. Três, quatro e...

 

(Recomeçam. Tocam. Interrompem)

 

Giovana – Parou, parou. Você errou.

 

Rodrigo – Errei.

 

Giovana – Começa de novo. Aqui, junto.Três, quatro e...

 

(Recomeçam. Ensinam para o Rodrigo. Param. Recomeçam)

 

Giovana – Isso! Vamos lá. Três, quatro e...

 

(Recomeçam; tocam; interrompe o ensaio)

 

Giovana – Parou, parou! Você errou!

 

Ranieri – Ah não dá!

 

Rodrigo – Tá calor aqui, tá abafado!

 

Ranieri – Tá abafado.

 

Giovana – Você tá com a cabeça na lua?

 

Rodrigo – Na lua?

 

Giovana – Você erra sempre no mesmo lugar!

 

Ranieri – Você é previsível.

 

Giovana – Sempre no mesmo lugar!

 

Ranieri – A gente precisa avançar!

 

Giovana – Ir pra frente!

 

Ranieri – Não dá pra ficar parado sempre no mesmo lugar!

 

Giovana – Não dá!

 

Ranieri – Isso enlouquece a gente!

 

Giovana – Faz um esforço!

 

Ranieri – Concentra!

 

(Pausa)

 

Giovana – Do início?

 

Rodrigo – Sim, do início, tudo sempre começa do início.

 

Giovana – Três, quatro e...

 

(Recomeçam. Tocam. Interrompem)

 

Ranieri – Ah! Não dá, por favor não dá!

 

(Ranieri sai. Suspensão)

 

Rodrigo – E então vocês podem me perguntar: de onde viemos? Pra onde vamos? Eu vou rir um pouco e me alegrar por ouvir perguntas assim, sem resposta. Eu não poderia afirmar nada sobre isso, mas posso dizer que há bilhões de anos havia nuvens de gás e poeira vagando pelo espaço cósmico.

 

(O espaço se reduz)

 

Rodrigo – E aí vocês podem perguntar, e daí? O que é que uma nuvem de poeira tem a ver conosco? Isso nos interessa? E eu digo, sim isso nos interessa, isso me interessa, porque aquela nuvem de poeira é a razão de estarmos aqui hoje. E estar hoje aqui é importante pra mim. Nós estamos aqui. Alguém escapou? (Suspensão) as estrelas são formadas por gigantescas nuvens de poeira cósmica. As pessoas da Terra, os animais, as plantas, as pedras, o ar e os oceanos são formados de elementos forjados dentro das estrelas (pausa) I dlatego bez względu na nasze przekonania,

 

Giovana – Por isso, independente das nossas crenças,

 

Rodrigo – Wszyscy jesteśmy dziećmi gwiazd.

 

Giovana – Somos todos filhos das estrelas.

 

Rodrigo – Jest w tym poezja.

 

Giovana – Tem poesia nisso.

 

Rodrigo – Oraz Beton.

 

Giovana – Concreto.

 

Rodrigo – Perceberam?

 

Giovana – Perceberam?

 

Rodrigo – Ktoś ma jeszcze jakieś pytanie?

 

Giovana – Alguém mais tem uma pergunta?

 

Rodrigo – (Rodrigo fala poema do polonês Adam Mickiewicz, tradução de Paulo Leminski. Giovana traduz).

Polały się łzy me czyste, rzęsiste,

Na me dzieciństwo sielskie, anielskie,

Na moją młodość górną i durną,

Na mój wiek męski, wiek klęski.

Polały sie łzy me czyste, rzęsiste...

 

Giovana – Choveram-me lágrimas limpas, ininterruptas,

Na minha infância campestre, celeste,

Na mocidade de alturas e loucuras,

Na minha idade adulta, idade de desdita.

Choveram-me lágrimas limpas, ininterruptas...

 

(Entra Ranieri. Peruca, vestido longo, salto alto. Suspensão)

 

Ranieri – Me deram essa roupa e me mandaram aqui. Eu não sei, me mandaram aqui. Eu não sei o que vai acontecer aqui.(Fala no microfone) Eu gostaria que...(volume alto. Interrompe. Retoma mais baixo) Eu gostaria que o tempo voltasse atrás. Eu estou aqui, não estou? Estamos aqui. Eu estava pensando nos 15 minutos da minha vida... que fizeram diferença no resto da minha vida.

 

(Música. Etta James. Ranieri dubla. Rodrigo, Nadja e Giovana dançam em coro. No fim Ranieri, sem o microfone, recita furiosamente a prosa vida de cão, de Paulo Leminski)

 

Giovana (para o Ranieri) – Eu queria ser você, eu queria estar dentro de você, eu queria sentir você por dentro, ser você, ter o teu cabelo, ter a tua perna, ter teu tamanho, ter o teu rosto, ter a tua boca, eu queria ser você. Eu queria ser um pouquinho você, eu gosto da tua tristeza, eu gosto, eu gosto, da tua ironia, eu gosto eu gosto, da maneira como você pensa o mundo, olha pras coisas, como você se veste, eu gosto, eu gosto, eu gosto dos teus amigos, eu gosto, eu gosto das tuas orelhas, do teu corpo pequeno. Queria ser um pouquinho você. Você me permite ser um pouquinho você? Me deixa ser você, me deixa estar dentro de você, me deixa, me deixa partilhar um pouquinho de você, me deixa, deixa, é só por um segundo, é só um pouquinho. Eu não vou pedir mais, me deixa? me deixa olhar as coisas da maneira como você olha. (pausa) Eu acho você tão bonito! Eu acho você tão importante! Eu acho que todo mundo quer ser você um dia. A gente luta pra ser você. A gente tem esse objetivo na vida, a gente nasce, cresce e morre querendo ser você. Olha pra mim, olha pra mim. Eu sou tão triste, e eu me sinto tão feliz, de ter encontrado você aqui hoje, de estar aqui na tua frente.

 

(Beijam-se. Giovana começa a despir Ranieri desordenadamente. Interrompe. Ranieri semi-nu de salto alto. Corpo tatuado. Desfaz-se a fantasia. Silêncio)

 

Ranieri – Eu gostaria que... Que o tempo voltasse atrás. Eu estou aqui, não estou? Estamos aqui. Eu estava pensando nos 15 minutos da minha vida que fizeram diferença no resto da minha vida. (Pausa) dizem que se a gente dá à volta no globo numa velocidade muito alta a gente avança no tempo. Eu gostaria de voltar. Porque... Porque... Eu tinha uma coisa em mim que eu não tenho mais. Não sei. Dizem que eu não tenho mais. Um brilho. Que se perdeu. Quem brilha? (Suspensão) quem brilha? E se eu pudesse reencontrar isso que eu perdi. Uma espécie de brilho. E se houvesse o brilho. Que você diz que eu perdi. E se houvesse você que me diz. Que eu perdi. Eu perdi? (Mostra para o público os braços e o corpo tatuado). Um tempo atrás eu não tinha isso. Eu pareço um gibi. Mas eu gosto. Eu poderia fazer mais. Mas se eu pudesse voltar eu não tinha feito. Eu digo isso agora. Eu quero dizer isso. E talvez amanhã eu acorde e vá tomar um café com leite na padaria e não queira mudar nada. Mas hoje eu digo isso, mesmo gostando delas. Porque... Eu tenho uma melancolia. Eu sinto isso agora. Eu estou aqui, neste lugar, e eu permaneço. A cada dia eu permaneço. Eu acho que eu fiz porque eu não era jovem. Na minha juventude eu tive que ser adulto. Eu cresci rápido demais. Então, eu acho que depois dos 30 eu comecei a ficar jovem. Eu permaneço aqui, neste lugar. A cada dia eu permaneço. E eu espero que alguém venha me buscar, me tirar daqui. Alguém numa moto e eu na garupa. Mudar de paisagem. Eu digo isso agora. Eu quero dizer isso. Eu quero que alguém venha me buscar numa moto, me tirar daqui. (Olha a tatuagem e mostra) essa aqui foi a primeira. Um trocadilho com o meu nome.

 

Giovana – Sweet Rani Baby, ta escrito. Um trocadilho com Honey, do inglês.

 

Ranieri – Rani, de Ranieri. Rani, honey, doce, querido. Doce, Rani, bebê.

 

Giovana – Querido, Rani, bebê.

 

Ranieri – Era assim que me chamavam.

 

Giovana – Quase todas elas têm coisas escritas, não só imagens, mas frases também. Essa aqui se chama Volta ao dia em oitenta mundos.

 

Ranieri – Outro trocadilho.

 

Giovana – Com Jules Verne. Uma volta ao mundo num balão.

 

Ranieri – Uma volta ao dia.

 

Giovana – Essa é uma rosa azul. Tá escrito Ranieri Gonzalez, 1971. É uma rosa azul. Rara. Como o Ranieri. São muitas. Essa aqui é bem bonita, eu gosto, porque ela dá a volta aqui, no braço. Um dragão chinês. É máscula essa tatuagem! Essa é o próprio Ranieri, mais jovem, feliz, bem feliz. Chama-se juventude e tá escrito Looping Star.

 

Ranieri – E atrás tem uma montanha russa. Adoro montanha russa.

 

Giovana – Eu morro de medo.

 

Ranieri – Aqui tem um roqueiro tocando guitarra.

 

Giovana – Tá escrito “let’s rock baby”.

 

Ranieri – E atrás do roqueiro tem a bandeira dos Estados Unidos. E me perguntam: por que a bandeira dos Estados Unidos?

 

Giovana – Eu pergunto pra você: mas a bandeira dos Estados Unidos?!

 

Ranieri – É só uma tatuagem! Vai ficar pra sempre, eu sei. Mas o roqueiro é um roqueiro americano!

 

Giovana – Eu acho uma loucura, são muitas! Essa aqui é enorme. A gente já tá acostumado. De perto ela é cheia de detalhes. E é bem bonita. São 20 deuses egípcios.

 

(Rodrigo observa as tatuagens)

 

Ranieri – São 20 deuses egípcios. Eu tenho muito pêlo aqui, então eu tenho sempre que raspar. Se não eles desaparecem.

 

Giovana – Os deuses?

 

Ranieri – Os deuses. Desaparecem. Giovana – Eles te protegem. Agora eu pergunto pra vocês? Quem tem coragem de tatuar 20 deuses egípcios?! (Gesto que indica o Ranieri) Eu odeio tatuagem.

 

Ranieri – Se tiver maquiagem eu cubro.

 

Giovana – Mas eu adoro o Ranieri.

 

Ranieri – Coloco uma roupa.

 

Giovana – Visto uma roupa.

 

Ranieri – Visto uma roupa.

 

Giovana – Eu digo: visto uma roupa.

 

Ranieri – Eu digo visto uma roupa (pausa). Tenho os dedos dos pés metidos completamente pra dentro. Vou estourar os sapatos se não descalçar já. (Tira os sapatos) e eu...Eu posso morrer amanhã. É isso. Eu digo isso agora (mostra as tatuagens). Eu quero dizer isso. Eu gravo no meu corpo.

 

Giovana – Je grave sur mon corp.

 

Ranieri – Imagens no meu corpo.

 

Giovana – Des images sur mon corps.

 

Ranieri – Palavras no meu corpo.

 

Giovana – Des mots sur mon corp.

 

Ranieri - Como as palavras gravadas em muros.

 

Giovana – Comme des paroles gravés sur des murs.

 

Ranieri – Elas têm importância pra alguém. Pra mim elas têm.

 

Giovana – Elles ont une importance pour quelqu'un. Pour moi elles en ont.

 

Ranieri – Eu não gravei no muro,

 

Giovana – Je ne pas gravé sur le mur,

 

Ranieri – mas pra mim elas têm.

 

Giovana – mais pour moi elles en ont.

 

(Rodrigo sai. Giovana sai. Ranieri sai. Nadja fica e cantarola Le p'tit bal perdu, canção francesa de Bourvil. O espaço se amplia)

 

Nadja – "C'était tout juste après la guerre,

Dans un p'tit bal qu'avait souffert.

Sur une piste de misère,

Y'en avait deux, à découvert.

Parmi les gravats ils dansaient

Dans ce p'tit bal qui s'appelait...

Qui s'appelait

qui s'appelait

qui s'appelait

Non je ne me souviens plus

du nom du bal perdu.

Ce dont je me souviens

c'est de ces amoureux

Qui ne regardaient rien autour d'eux.

Y'avait tant d'insouciance

Dans leurs gestes émus,

Alors quelle importance

Le nom du bal perdu

Non je ne me souviens plus

du nom du bal perdu.

Ce dont je me souviens

c'est qu'ils étaient heureux

Les yeux au fond des yeux.

Et c'était bien

Et c'était bien"

 

(Fecha-se a cortina, enquanto o espaço organiza-se para a apresentação do jubileu da cidade. Ranieri no proscênio com roupa de gala. Barulho da chuva. Discurso)

 

Ranieri – Boa noite. Nesta noite, nesta grande noite, nesta noite maravilhosa, estamos aqui reunidos para celebrar o jubileu desta cidade que nos acolhe. Há centenas de anos, os passantes que empreendiam a jornada que cruzava o país, do sul em direção ao norte, foram deixando aos poucos, no seu rastro, marcas permanentes, pedras fundamentais, que com o tempo, constituíram o que conhecemos hoje como nossa cidade. Este lugar, outrora de passagem, continua acolhendo ainda hoje, passantes de várias partes do mundo, que, por algum mistério indecifrável, aqui permanecem por mais ou menos tempo, criando raízes mais ou menos profundas, desfrutando de razoável conforto e bem estar, deslocando-se a pé, de carro ou de ônibus por largas avenidas de meticuloso planejamento, podendo abrigar-se do frio em seus rigorosos e prolongados invernos e revigorar-se no ameno sol de seus raros verões. Este lugar, outrora de passagem, tem nos acolhido a todos como mãe zelosa que não se afasta dos seus filhos e os prende com suas promessas de proteção eterna e boa comida. Nesta noite, nesta grande noite, nesta noite maravilhosa, oferecemos a vocês, esta canção.

 

(Abre-se a cortina. Todos vestidos de gala. A banda se forma. Começa a apresentação. De repente a luz cai. Black-out)

 

Giovana – Ai, não acredito! (Silêncio) alguém tem um fósforo?

 

Ranieri – Vocês me escutam, no escuro vocês me escutam?

 

Rodrigo – O quê?

 

Giovana – Alguém tem um fósforo?

 

Rodrigo – Não, não é isso.

 

Giovana – Isso o quê?

 

Rodrigo – O quê?

 

Giovana – Não, não é isso o quê!!!

 

Rodrigo – Não, é que ele perguntou se eles escutam no escuro. (Pausa) dá no mesmo. No claro ou no escuro.

 

Ranieri – Dá no mesmo não! Tem gente que tem medo do escuro e embota os sentidos.

 

Giovana – Alguém? Tem um fósforo?

 

Ranieri – Vocês me escutam, no escuro vocês me escutam? Sem microfone?

 

Giovana – Ninguém me responde!!!

 

Ranieri – Se eu fa-lo mais al-to! Vo-cês me es-cu-tam?

 

Rodrigo – Temporal!

 

Giovana – Você? Tá me ouvindo? Pode me responder?

 

(Silêncio)

 

Giovana – Por que você está sempre tão quieta?

 

(Silêncio)

 

Giovana – Ela não fala.

 

Ranieri – Deixa ela em paz.

 

Rodrigo – Você está bem?

 

Nadja – Estou bem.

 

Rodrigo – Ela falou.

 

Giovana – Você tem medo do escuro?

 

Nadja – Não, eu fico quieta.

 

Giovana – Tem fósforo?

 

Ranieri – Deixa ela em paz.

 

(Silêncio)

 

Ranieri – Bom, gente enquanto a gente espera eu vou cantar alguma coisa à capela.

 

Giovana – Ai, não acredito.

 

Ranieri – (canta canção japonesa)

 

Rodrigo – Quem te ensinou?

 

Ranieri – Minha mãe.

 

Ela cantava pra mim quando eu era pequeno.

 

Giovana – Que absurdo!

 

Nadja – Não é absurdo.

 

Rodrigo – Ela falou.

 

(Silêncio)

 

Giovana – Ela falou. Oi, sua mãe cantava pra você quando você era pequena?

 

(Silêncio)

 

Giovana – Você é sozinha? Você tem alguém? Você não fala?

 

Ranieri – Deixa ela em paz.

 

Nadja – Eu tô em paz.

 

Rodrigo – Ela falou.

 

Giovana – Você tá em paz?

 

(Silêncio)

 

Giovana – Ela tá em paz. Minha mãe também cantava pra mim quando eu era pequena.

 

Ranieri – Como você sabe que a mãe dela cantava?

 

Giovana – Ela ficou em silêncio.

 

Ranieri – Deixa ela em paz!

 

Giovana – Ela tá em paz. Ela falou. Você tá em paz?

 

Rodrigo – A minha mãe cantava pra mim quando eu era pequeno, mas eu não lembro direito.

 

Ranieri – Eu lembro. Eu lembro de tudo.

 

Giovana – É bom lembrar.

 

Rodrigo – O quê?

 

Giovana – O quê o quê?

 

Rodrigo – Lembrar o quê?

 

Giovana – Sei lá, a voz da tua mãe cantando pra você, a sensação de estar protegido.

 

Ranieri – A sensação de não estar sozinho.

 

Nadja – A primeira vez que você olha pro seu filho.

 

Giovana – Você tem filho?

 

Ranieri – Deixa ela em paz!

 

Nadja – A primeira vez que ele vai embora.

 

Giovana – Ela falou.

 

Ranieri – A sensação de estar sozinho.

 

Nadja – E de nunca ser realmente sozinho se você tem um filho.

 

Giovana – Ela falou.

 

Ranieri – O dia em que você não tomou uma decisão.

 

Giovana – O dia em que a vida tomou uma decisão por você.

 

Rodrigo – E aí já era tarde demais.

 

 

© 2019 por Revista Ensaia

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